Entrevista

Cícero Novaes e os 40 anos da CDL Uberlândia

“O governo não vê com bons olhos uma entidade com liberdade, tranquilidade de produzir o próprio sustento e que se posiciona sempre a favor da população, em benefício do povo brasileiro.”

À frente da CDL Uberlândia (Câmara de Dirigentes Lojistas) desde 2015, o presidente Cícero Novaes concede entrevista a O JORNAL de Uberlândia e destaca a evolução da CDL na comemoração dos seus 40 anos, suas bandeiras, ações em prol da cidade e os objetivos políticos institucionais que movem a entidade. Ele também fala da independência da instituição em relação às esferas governamentais e o que espera dos governos federal e municipal nos próximos anos. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

P: O Jornal: Qual a importância de uma entidade do porte da CDL comemorar 40 anos?
R: Cícero: A CDL surgiu como uma entidade que deveria se ocupar com o cadastro das pessoas que fizessem algum tipo de consumo, como uma espécie de banco de dados, dos clientes. Em sua origem, a CDL de Uberlândia já estava integrada à Confederação Nacional. Depois houve uma evolução a ponto de a CDL local ceder os dados para o SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) nacional, órgão da confederação, que se ocupou de ser o banco de dados de todas as CDLs.

Hoje o sistema conta aproximadamente com duas mil CDLs afiliadas, com cerca de um milhão de associados. A entidade existe em todos os estados, com federações em cada capital, e se transformou numa entidade nacional com toda essa estrutura. Em termos de tamanho, qualidade, estrutura e poder a CDL Uberlândia ocupa a quinta ou sexta posição do país.

Como se deu a evolução da entidade e como está composto o quadro de associados?
Como atual presidente, olhando para o que foi construído, percebo que os sete presidentes que me antecederam, cada um fez a sua parte. Uma entidade com 40 anos com um patrimônio significativo adquirido, sem nenhum tipo de doação. Tudo feito com recursos próprios do trabalho da entidade em prol dos associados e da população. Temos como resultado o prédio da sede, o centro de convenções e o terreno ao lado da sede.

Desde sua origem, a CDL passou de um bureau de crédito para uma entidade representativa de todos os empresários. No início, ela nasceu como um Clube de Diretores Lojistas. Hoje é Câmara de Dirigentes Lojistas e deveria chamar-se Câmara de Dirigentes Empresariais, porque a composição dos associados, na maioria das CDLs atualmente, conta com 40% de lojistas, 12% de comerciantes varejistas, 26% a 28% de prestadores de serviço, 10% de profissionais liberais e o restante é variado, como no caso de Uberlândia: 22% são compostos de indústrias. Isso representa que a sociedade produtiva acaba olhando para a CDL como um órgão representativo da categoria.

Quais as principais bandeiras da entidade?
Recentemente fiz três quadros colocando claramente para qualquer um, de forma visual, as nossas bandeiras. Temos bandeiras na área política, na área da Justiça, na área do Estado, na área da luta contra a burocracia. O objetivo político institucional é a nossa principal bandeira.

Sua principal obrigação é lutar pelos interesses dos seus associados e, em seguida, lutar pela qualidade do ambiente de negócios que está sobre todos nós, para propiciar àquele que tem uma empresa uma facilidade para trabalhar de forma ordeira. Porque hoje o Estado é muito intervencionista e, de um aliado, acaba sendo um órgão prejudicial às empresas, porque as empresas têm uma burocracia muito difícil de ser cumprida.

Qual o objetivo de se levantarem bandeiras na entidade?
A CDL levanta algumas bandeiras em que lutamos para termos um Brasil mais amigo daqueles que produzem e para buscar um melhor equilíbrio na parte de desnível social. Hoje temos um desnível enorme porque as pessoas não têm chance, capacidade de poder se projetar.

O nosso pensamento sempre foi que o Estado deve ter apenas competência para interferir e ajustar dois degraus que as pessoas começam a galgar, que são a sobrevivência e a segurança. Feito isso, depois é por conta da pessoa, elas têm o direito de continuar a prosperar, progredir e trabalhar e crescer como puderem. O Brasil anda a marcha à ré há muitos anos, porque essa visão não existe por aqui.

Quais as campanhas e ações da CDL relacionadas às suas bandeiras?
Em setembro de 2015, fiz uma campanha chamada Estamos de luto pelo nosso Brasil, que foi bastante eficiente. Criada em Uberlândia, a campanha foi aceita pelas federações de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.

Ela tinha como objetivo alertar a população de que o governo Dilma estava totalmente míope com relação à corrupção e à incompetência que pairavam naquele momento, e justamente esse governo levou o Brasil ao problema que temos hoje, essa crise que ainda não passou, fruto do lado político que ainda não foi equacionado. E temos, como consequência, o desemprego da ordem de 12,8% de toda a população.

No ano seguinte, lançamos outra campanha chamada Do luto para a luta, que contou com a nossa capacidade de passar as informações para todos os associados e para a comunidade através dos canais de comunicação que a CDL tem, como jornais impressos e virtuais, filmes no YouTube, a fim de que todo mundo entenda que o País tem muitos erros e não podemos achar que eles simplesmente sumiram.

Houve alguma evolução com a mudança de governo?
O governo atual diferencia-se um pouco do governo anterior apenas no fato de que, em relação à incompetência, melhorou muito, mas a parte de corrupção ainda continua entranhada no governo, tanto que pessoas investigadas de forma séria permanecem em cargos importantes do governo.

Qual o balanço que o senhor faz dos dois anos de gestão?
Desenvolvemos um planejamento estratégico em 2015, e criamos nossos valores, visão e missão. Também destacamos os pilares que sustentam a nossa entidade, como os serviços que nos fornecem os recursos, e o saber usar os recursos a favor dos nossos associados e da população brasileira, que é o político institucional.

Na parte de infraestrutura, o quarto andar foi totalmente remodelado; nesse andar fica a diretoria e recebemos empresários e autoridades. Também fizemos uma modernização do mezanino, com colocação de vidro temperado laminado, e vamos dar seguimento às reformas de modernização do prédio.
Temos dado continuidade às campanhas para lembrar as pessoas de prestigiarem as datas comemorativas, como o Dia das Mães. Temos promovido vários eventos como o Reconhecimento CDL, em parceria com a Amcham, a APP e o Sebrae, em dezembro de 2016. Nesse evento premiamos dez empresários que se destacaram nas categorias inovação, tecnologia, responsabilidade social, empreendedorismo e sustentabilidade.

Como é o relacionamento entre a entidade e o governo?
O que encontramos no dia a dia em relação ao governo é uma situação de dificuldade permanente, porque o governo não vê com bons olhos uma entidade com essa liberdade e tranquilidade de produzir o próprio sustento. Uma entidade que se posiciona sempre a favor da população, em benefício do povo brasileiro. Isso incomoda o governo porque não tem como ele nos cercear.

O que o governo faz é criar situações de desgastes para nós, como, por exemplo, a nossa confederação, assim como o SPC e algumas federações, está sempre sujeita a fiscalizações da Receita Federal, o que é um absurdo total, porque essa é uma entidade sem fins lucrativos. Em comparação com o Sistema S, que está totalmente amarrado em um esquema de dependência do governo.

No nosso caso, ser independente incomoda, o governo é inamistoso a nós. Hoje, a nossa luta é muito árdua e difícil porque o governo atual, como os antecessores, nunca se sentiu à vontade com esta independência.

Houve alguma ação em prol da sociedade em nível local?
Uma das nossas ações de fortalecimento da sociedade foi, como uma das entidades locais integrantes do G7, trazer para a cidade o Observatório Social, uma instituição independente cujo papel é fiscalizar as contas da Prefeitura para verificar para onde vai o dinheiro e as concorrências públicas que normalmente são dirigidas. Isso tudo é um trabalho que está iniciando, mas que é extremamente importante para acabar com esse ambiente promíscuo do nosso Brasil.

Como você vê o futuro da CDL?
A CDL tem um futuro promissor, uma vez que não existe povo que não tenha uma entidade que o represente de forma aberta e independente como a CDL para garantir que a liberdade vai continuar e as pessoas vão respeitar aqueles que produzem.

Quais inovações e soluções a entidade tem apresentado aos seus associados?
As inovações que trazemos são produtos e serviços que o sistema desenvolve e acaba ajudando. Um dos novos produtos é o SPC Conciliador, que gerencia a máquina de pagamentos de crédito e débito. Com esse sistema, um de nossos clientes colocou o serviço em 11 supermercados e encontrou uma diferença a seu favor de R$ 145 mil.

Ao contatar a operadora da máquina, ele recebeu em 24 horas o valor da diferença. O SPC Conciliador gerencia a operação do ponto de vista do lojista ou varejista. Ele é feito automaticamente e também evita a ocorrência de fraude interna.

Qual a expectativa da CDL em relação ao novo prefeito de Uberlândia?
Ele é um prefeito conhecido e pode vir a somar. Nos mandatos anteriores ele fez um governo em prol daqueles que trabalham e para melhorar Uberlândia. Nós é que temos que estar atentos para que tudo seja feito com muita transparência e, que principalmente, tenhamos a capacidade de ser envolvidos. Nós como entidade temos muito a colaborar. Não queremos que as coisas sejam feitas a nossa revelia. Estamos aqui para dar opiniões, ajudar a criar projetos em prol da cidade.

Quais prioridades você destacaria para o novo prefeito em relação à CDL?
Temos o projeto de revitalização do centro de Uberlândia, que é excepcional e o prefeito tem conhecimento, várias entidades têm conhecimento. É um projeto muito importante para a cidade de Uberlândia e extremamente revolucionário. Ele pode ser feito por meio de parcerias público-privadas e não demandaria recursos da própria cidade. Nossa expectativa é que o prefeito estenda a mão e nos chame para participar.

Hoje, como ele está no período de assumir a Prefeitura e pagar enormes dívidas, eles está num período nebuloso, turbulento. Passando isso, ele tem que enxergar a gente como sendo um parceiro. Alguém que tem direito a dar palpites, a ajudar a pôr as coisas para rodar, não como uma entidade que está fora da situação. Isso não existe mais.

Outra prioridade é a realização de um projeto com uma empresa de atuação nacional ou internacional, para um estudo do plano diretor de urbanismo para a cidade crescer com qualidade, porque hoje não é assim. Temos o exemplo da Zona Sul, que é a pior região de Uberlândia em termos de planejamento urbano, em que somente a Avenida Nicomedes que faz a ligação com a cidade, as outras vias são secundárias. Dentro de cinco a dez anos vamos ter um caos de congestionamento naquela região.

Em curto prazo, temos que rever a parte de infraestrutura da cidade, há necessidades de viadutos, nova pavimentação em várias avenidas e ruas. Isso exige recursos e vontade de fazer.

Com a questão das pichações levantadas na capital paulista, como você avalia?
Vejo as pichações como uma coisa extremamente negativa. Dever-se-ia criar uma lei municipal para resolver esse problema. Primeiro, com multa, e seguido por trabalhos sociais para o pichador trabalhar em favor da sociedade. Pichação significa criar um ambiente negativo para a cidadania. Já em relação ao grafite, vejo como uma forma de expressão artística que não pode ser encarada como uma coisa para todo lugar. Devem existir alguns lugares propícios ao grafite, indicados pela Prefeitura. Fora disso, não, porque quando ele existe em profusão, traz logo atrás a pichação e favorece a poluição visual.

Texto e fotos: Leonardo Leal

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