Economia

O PIB medíocre e a frustração das falsas expectativas

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos, talvez, presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro está contido no tempo passado.
T. S. Eliot, Quatro Quartetos

Os dados da economia brasileira, recentemente anunciados, são desoladores. O Produto Interno Bruto (PIB) de 2016 sofreu contração de 3,6% em relação a 2015, quando já havia caído 3,8% em relação a 2014. Por trás dessa queda de 2016 estão o recuo de 3,1% do valor adicionado a preços básicos e a contração de 6,4% nos impostos sobre produtos líquidos de subsídios. O resultado do valor adicionado bem refletiu o pífio desempenho das três atividades que o compõem: agropecuária (-6,6%), indústria (-3,8%) e serviços (-2,7%).
O PIB per capita (obtido pela divisão do valor corrente do PIB pela população residente no meio do ano) teve queda de 4,4% em termos reais.


Fonte: IBGE – Contas Nacionais – Série Encadeada do Índice Trimestral.

Em um contexto de prolongada recessão, e na ausência de estímulo ao crédito e aos investimentos, não surpreende que ocorra paralisação da produção, diminuição da renda, alto desemprego e redução no consumo. A taxa de investimento na economia brasileira registrou o pior desempenho em pelo menos 20 anos. Foi o terceiro ano seguido com diminuição na taxa de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que retrocedeu de 20,9% do PIB em 2013 para 16,4% do PIB em 2016. Trata-se de importante indicador, pois mede o quanto as empresas aumentaram os seus bens de capital, ou seja, aqueles bens que servem para produzir outros bens. São basicamente máquinas, equipamentos e material de construção. Indica, portanto, se a capacidade de produção do País está crescendo e também se os empresários estão confiantes no futuro. O resultado registrado em 2016 foi o menor da série histórica, iniciada em 1996 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já se vão 11 trimestres consecutivos de retração na FBCF, com o agravante de que, trimestre a trimestre na série dessazonalizada, caiu 1,6% na passagem do terceiro para o último quarto do ano. Dos últimos 13 trimestres, 12 registraram declínio da FBCF.
Boa parte da indústria mais pesada, que gera mais empregos, agrega mais valor e alavanca o desenvolvimento tecnológico, permanece entre aqueles segmentos que continuaram a reduzir a produção no quarto trimestre do ano. Ainda que parte da indústria tenha ensaiado uma tímida recuperação, foi insuficiente para indicar uma retomada.
Nos últimos três meses de 2016, o setor que mais caiu foi justamente o de máquinas e equipamentos de uso na extração mineral e na construção, que encolheu 26,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, acumulando uma redução de 47% desde 2014.
É preciso reconhecer que a queda do investimento (público e privado) revela não só a retração em vários setores, mas principalmente que se frustraram as falsas expectativas de que, com o impeachment e o aprofundamento das políticas de austeridade, seria retomada a trajetória de crescimento.
A despeito desse cenário desolador, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), ocorrida no Palácio do Planalto no último dia 07, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, declarou: “Agora estamos em processo de saída dessa crise. O PIB que foi divulgado hoje se refere ao passado. É espelho retrovisor”.
Ao que parece, o ministro busca estabelecer uma disjuntiva temporal com a intenção de retirar a responsabilidade da sua política econômica pelo medíocre resultado do PIB de 2016. Mais que isso, deixa claro que não sabe olhar para trás, nem para frente. Afinal, a pronunciada queda do investimento revela que estamos em continuada recessão, responsável pelas agruras por que passam a economia e a sociedade brasileiras, e até mesmo pela recente queda da inflação.
Os dados do PIB 2016 mostram, diferentemente do que buscam fazer crer o atual governo e algumas das manchetes da grande imprensa, que não há melhora alguma. Sem uma radical inflexão da política de aprofundamento da austeridade imposta ao País, não sairemos da crise.

José Rubens Damas Garlipp
Economista, Professor Titular do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia. jrgarlipp@ufu.br

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