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FUTEBOL E SUAS ENTRELINHAS

Mesmo com a transparência das televisões modernas, não foram capazes de intimidar o tamanho do garfo aplicado contra o Furacão Verde da Mogiana pelo árbitro Fifa, no confronto Uberlândia x Cruzeiro na magnífica noite de segunda feira, 27 de março.
Recordei-me do final dos anos 60. O rádio era o instrumento mais moderno na época para curtirmos o futebol. Tudo obscuro. Confiávamos nos fanáticos locutores da capital mineira e nos orientávamos por eles, que sempre torciam por algum time de Belo Horizonte. Adolescente ainda, seguia o campeonato amador de Uberlândia. Havia dezenas de talentos nas equipes disputantes. Um que eu admirava era Paulo César Martins, hoje todos o conhecemos por Paulo Martolli, proprietário de uma das melhores tapeçarias da cidade.
Paulo jogava de zagueiro na Sociedade Esportiva Aparecida. A sede desse gigante amador situava-se na Rua Benjamin Constant com a Roosevelt de Oliveira. Foi campeão da cidade diversas vezes, nos certames patrocinados pela LUF. Não era craque refinado. Jogava duro na bola e lealmente. Onde ia, a tarjeta de capitão do time não lhe escapava do antebraço, dada sua virtude, conduta ilibada e liderança.
O tempo passou e Paulo tornou-se o melhor árbitro da região. Ainda jovem, ouvia bastante os conselhos de meu pai. Certo dia, apareceu em casa inquieto. Meu velho, conhecendo-o anos e anos, indagou:
– Que ansiedade é essa, meu filho?
– Olha aqui, senhor Pedro!
– Hummm! É um convite da FMF para você ser árbitro filiado a ela?
– Sim! Sim! O que acha?
– Fico feliz por reconhecerem seu talento! Embora saiba que é ninho de cobras! Você viu, na semifinal contra o Galo, o gol da vitória do Paulo Borges do Verdão, numa linda bicicleta?
– Vi, sim, senhor!
– Concorda que seu xará ganharia uma placa pela beleza daquele gol?
– Claro que concordo!
– E foi anulado! O soprador de latinhas alegou jogo perigoso. Notou que dezenas de torcedores, protestando, abandonaram o estádio na hora?
– Testemunhei, sim! Foi uma vergonha para o futebol de Minas!
– Pois é. É para lá que você irá, Paulo César!
– Está correto, senhor Pedro! Entretanto, lutarei com todas as minhas forças para mudar aquele ambiente!
Meu velho riu e admirou a gana daquele menino honesto e cheio de vontade de vencer, querendo levar adiante seu sonho.
– Ok, filho! Desejo-lhe boa sorte! Sem equívocos, jamais aprenderemos com a vida!
Nosso ilustre jovem uberlandense partiu para Belo Horizonte. Apresentou-se à Federação. Foi bem recebido! O comandante da arbitragem disse-lhe:
– Deve ser talentoso. Está bem recomendado. Como seu primeiro prêmio, irá estrear na próxima rodada.
Nosso conterrâneo apanhou as instruções para o jogo que iria apitar, indo para um local reservado, tirar dúvidas. Pouco depois, retornou à sala do chefe, onde perguntaria algo. Sem querer, escutou um diálogo do seu líder e dois árbitros experientes:
– Façam o que quiserem, desde que esses grandes não percam seus jogos.
Paulo ficou pálido e olhos arregalados. Tentava balbuciar algo. Não conseguia. Engasgou-se com sua saliva. O sonhador Paulo César, arrasado, saiu respirando fundo, à procura de forças e mais oxigênio. Não acreditava defrontar-se com golpes tão baixos. Pouco depois, ousado, disse ao responsável pela escalação dos juízes:
– Deixo-lhe bem claro: não conte comigo nesse seu esquema que ouvi expondo aos meus companheiros.
– Que isso, novato! Chega botando banca e colocando as manguinhas de fora! Eu, hein!?
Dali pra frente, o ambiente ficou pesado e hostil. Paulo, cedo ou tarde, seria queimado por alguma armadilha. Sua meta valia tudo, todavia, sua honra era intocável e não tinha preço. Seu guru, o senhor Pedro, tinha razão. Como são cruéis os seres humanos. Silenciosamente, noutro dia bem cedinho, veio para seu doce lar. Em Uberlândia, domingo à noite, ouvindo o plantão da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, o locutor anunciava a vitória dos timaços de BH. Houve até gols de pênaltis. Poucas pessoas sabem desse fato. Nunca vi Paulo nos jogos do certame das Minas Gerais no Sabiá. Será desilusão do futebol? Hoje, Paulo olha seus filhos e netos bem no fundo dos olhos e diz: “DEUS iluminou-me para tomar uma das decisões mais importantes e sábias de minha existência: continuar no caminho da retidão”.

Texto: Lucimar César

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