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Trissia de Moraes Lelis e o sucesso dos bares Sagrado, Banca e Oculto

Jovem empresária fala sobre a criatividade dos negócios e o diálogo com a nova geração

No comando de três bares de destaque em Uberlândia, a jovem empresária Trissia de Moraes Lelis encontrou uma forma de diálogo com a nova geração, oferecendo produtos e serviços que atendem aos anseios da juventude uberlandense. Essa interação com o jovem ocorreu a partir das inovações propostas nos negócios criados por ela com os sócios Felipe Savone, Jafet Antoun e Vincent Coulon. Em entrevista, Trissia falou a O JORNAL de Uberlândia sobre a criação dos negócios, a motivação de trabalhar com bares na noite uberlandense e sobre os desejos e o comportamento da nova geração. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

O que o Bar Sagrado trouxe como fator de inovação para Uberlândia?
Inaugurado em setembro de 2014, o Sagrado teve um conjunto de inovações: trouxemos drinks que não existiam para o público em geral. A gente tinha uma carta de drinks própria e também trabalhava com os clássicos, que a galera tinha esquecido um pouco, como por exemplo, Manhattan, Old Fashion. Era bem difícil achar esses drinks na cidade na época da abertura do Sagrado.
Também trouxemos as mesas comunitárias e os banheiros unissex. Então, criou-se uma macroinovação em que as pessoas vinham e tinham essa experiência de coisas novas. Isso despertou o interesse de as pessoas conhecerem e se permitirem experimentar o drink no lugar da cerveja.

Quanto aumentou o movimento depois dos seis primeiros meses do Bar Sagrado, depois que as pessoas entenderam a proposta do bar?
Dos primeiros seis meses ao fim do primeiro ano, até um ano e meio, o movimento de público triplicou. Não só o público novo, mas os frequentadores passaram a vir mais dias na semana. As pessoas vinham na quinta e voltavam no domingo. Quem vinha, por exemplo, de 15 em 15 dias, passou a frequentar mais vezes por mês.

A que você atribui o sucesso dos três bares: Sagrado, Banca e Oculto?
Vai além do atendimento. Pode até parecer clichê, mas trate uma pessoa como você gostaria de ser tratado e tente entendê-la da melhor forma.
O que a gente tem que entender enquanto serviço é justamente isso. Você não está ali simplesmente para servir. Você está ali para entender o movimento de servir. Por exemplo, cerveja, eu tenho gelada, mas você quer essa cerveja de que jeito?
Esse diálogo com o cliente, lógico que às vezes a gente não consegue ter com todos os clientes, nem em todos os momentos, porque têm certos pontos em que rola um pico de atendimento, mas essa é a primeira premissa.
A meu ver, ninguém tem que estar aqui se não quiser trabalhar. Porque para trabalhar na noite tem que gostar desse estilo de vida. Dorme tarde, acorda tarde, lida com pessoas bem diferentes. Se torna necessário esse jogo de cintura, saber lidar com diferentes tipos de pessoas.

Qual foi o intuito de se abrirem mais dois bares ao lado do Sagrado?
Depois que abrimos o Sagrado, tivemos o seguinte entendimento: não conseguimos concorrer com o centro de Uberlândia. Admiro demais o London, o Nash, o 110, os bares da Praça da Bicota. Não consigo concorrer com eles, justamente, por estar do lado de cá [Avenida João Pinheiro]. Então, o meu entendimento foi de abrir mais um bar do meu lado da cidade para as pessoas lembrarem que eu existo. Por isso, essa proximidade de Sagrado, Banca e, agora, Oculto, juntos.
Eu preciso fazer as pessoas lembrarem que do lado de cá também tem bar legal. E por mais que não esteja na rua principal de Uberlândia, está a dois quarteirões. Então, a pessoa pode parar o carro e andar por onde quiser. O legal é justamente isso, de ela conseguir andar em quatro ou cinco ruas e consumir experiências completamente diferentes.

Como tem sido a relação com a concorrência, já que os bares estão bem próximos?
Em relação ao Sibipiruna e ao Groove, acredito que, em vez de pensar e entender enquanto uma concorrência, a gente tem que se unir para fazer a galera lembrar que estamos do lado de cá.
Tem um superespaço para todos. Quanto mais bares autênticos com que a galera se identifique enquanto um produto e um serviço legal, enquanto essa experiência. Assim, podemos oferecer opções diversificadas que atendem as pessoas no que elas querem.

O que os três bares oferecem para ter um público cativo da nova geração?
O sucesso dos bares não é meu, não é do meu sócio, é um trabalho conjunto nosso, com a equipe, e de conseguir, justamente, ter esse diálogo com as pessoas, de elas entenderem o que a gente faz.
Isso nos deixa mais próximos para a gente entender se o que estamos fazendo está certo ou errado. Com esse feedback mais perto de nós, conseguimos ter um poder de reação mais rápido.
O diferencial de a gente ter conseguido fazer tudo isso e ter vontade de fazer mais é porque eu e os meus sócios, a gente acredita no que faz. Nós nos juntamos e conversamos sobre as ideias de cada um. Têm ideias que são geniais, que a gente guarda na manga, e têm ideias em que um olha para a cara do outro e fala: “Você está pirando”. Porque às vezes alguma coisa funciona em outros lugares e não funciona aqui.
Um dos fatores é essa curiosidade por novidades e essa vontade dos quatro sócios. Obviamente, com o apoio da nossa família e dos amigos, que são os nossos primeiros consultores.

Como surgiu em você a visão empreendedora e de administração de um negócio?
Antes de eu entrar na faculdade, eu morei em Londres por um ano. Passei os meus 19 anos lá, então, mais do que Uberlândia e mais do que São Paulo, eu convivi com uma cultura única por um ano.
Cada barzinho que você vai em Londres tem uma história para contar, cada barzinho que você vai é completamente diferente dos outros. Eles pegam, por exemplo, o tema “relógio” e fazem um bar temático, só de relógios.
Como eu vivi aquilo muito bem durante um ano, voltei para o Brasil e pensei: se um dia eu tiver que fazer alguma coisa, qualquer nicho que seja, eu quero contar essa história. Um lugar específico, temático, único, em que as pessoas se identificam com a história daquele lugar.

Você teve influência do seu pai, que também é empresário, na criação e na condução dos negócios?
Com certeza. Ele consegue entender o que o mercado está falando e absorver muito bem isso para tomar as decisões. Ele tem uma forma de resolver problemas e de trabalhar em equipe que é uma inspiração. Isso me motiva a querer aprender e fazer de forma semelhante.
Meu pai é uma pessoa muito próxima, quando os outros sócios vêm para cá, a gente junta e conversa. Ele é como um mentor, no intuito de ajudar. Dá a opinião dele, mas não dá o pitaco. Ele diz: “O que vocês acham de pensar dessa forma ou de resolver desse jeito?”. Ou seja, joga a bola para o alto e deixa a gente encontrar a melhor solução.

A gente sabe que a capital paulista tem uma influência grande na cultura uberlandense. O que você trouxe de São Paulo para os seus bares?
Quando eu morei em São Paulo, no bairro do Paraíso, o consumo de drinks na rua lá é muito maior que aqui em Uberlândia. Hoje é diferente. Então, nessas minhas idas e vindas, voltei com essa vontade, gostaria de consumir algumas coisas aqui do dia a dia de lá, que não havia aqui.
Por exemplo, tinha uma padaria que vendia Mojito, e era o melhor Mojito que eu tomava. Chegava em Uberlândia e em nenhum lugar eu consegui tomar o Mojito padronizado. Não é que era ruim, mas era diferente.
Então, quando me mudei para cá, disse: preciso trazer um pouquinho disso para cá, para eu consumir, não é nem para os outros. Foi esse o ponto de partida de a gente querer trazer essas novidades para a cidade.

Como você vê a juventude, as aspirações e o comportamento do jovem de hoje?
Na verdade, os 30 são o novo 20 e os 40, o novo 30. Quando eu nasci, o meu pai tinha vinte e poucos anos. Eu tenho 30 anos e não tenho condições de ter filho. É uma questão que tenho outras prioridades. A partir do momento em que você entende um pouco o que quer para si. Eu gosto de ter minha casinha, pagar minhas continhas, mas tenho essa vontade de viajar também.
A nova geração corre mais atrás, os mais jovens consomem cerveja, mas também experimentam drinks. Na minha época, quando eu morei em São Paulo e vinha para Uberlândia, não tinha esse rolê de drink, no máximo que a gente tomava era um Mojito. E olha lá.

Do seu ponto de vista, a nova geração está mais exigente?
Acredito que sim. Exigente, não em questão de valor, e sim pelo leque de opções. O jovem quer algo que traga o que ele está buscando. Se eu estou buscando uma cerveja gelada, não vou aceitar uma cerveja meio quente com gelo. Se paga para ir a uma balada e quando tem uma experiência contrária, sabe que não é isso que ele quer ter.
A informação hoje é muito democrática. Tanto o certo e o errado, o bom e o ruim. Todo mundo fica sabendo. A partir do momento em que você se predispõe a criar uma coisa nova, um bar ou qualquer outra coisa, aqui em Uberlândia ou em outro lugar, você tem que fazer isso na clareza. Com uma expressão do que você é, do que vende e da experiência que oferece.
Às vezes, as pessoas demoram para entender o que você quer ser, mas pela clareza do que você é, faz e vende, elas começam a entender e querem mais.

De que forma a sua formação em Turismo e Hotelaria ajudou nos negócios dos bares?
Turismo e Hotelaria, assim como grande parcela das profissões, envolve muito a expectativa das pessoas. Quando eu comecei a querer brincar com essa parte de noite, e querer abrir bar, entendi duas coisas que têm tudo a ver com a expectativa.
A pessoa que vai para o bar, de duas uma: ou porque está muito feliz e quer celebrar, quer dividir a emoção com as pessoas que ama, ou está querendo esquecer alguma coisa.
Então, trabalhar na noite vai além de vender um produto, uma cerveja, ou qualquer coisa que seja. É também um trabalho psicológico, porque o bêbado vira criança, então é preciso saber conversar. Estar ali para resolver o problema da pessoa, não para aumentar. E isso é algo que trazemos para dentro dos nossos bares. Interação e ajuda.

Texto: Leonardo Leal

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