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Entrevista da Semana

À frente do Núcleo Social Jesus de Nazaré, Mauro Moraes fala das ações beneficentes em prol dos pacientes com transtornos mentais de Uberlândia

Mauro Moraes, 37 anos de serviços beneficentes

O enfermeiro Mauro Moraes há 37 anos realiza ações em favor da sociedade. À frente do Núcleo Social Jesus de Nazaré, ele fala das ações beneficentes em prol dos pacientes com transtornos mentais de Uberlândia, um trabalho que começou no final dos anos 1980 com a criação de uma clínica de reabilitação.

Desde 2010, a clínica também presta assistência ao idoso. A entidade, que atende 482 pacientes e 62 idosos, conta com dois locais e uma equipe de mais de 80 voluntários, 42 funcionários, entre eles, cinco médicos. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Quando surgiu o Núcleo Social Jesus de Nazaré?

O Núcleo Social Jesus de Nazaré foi fundado em 1943, tivemos diversas diretorias e hoje estou como presidente. Em 1990, nós fundamos a Clínica de Reabilitação Jesus de Nazaré, uma entidade que atende pessoas portadoras de transtornos mentais.

Em 2010, foi realizada uma ampliação e a clínica também passou a atender pessoas da terceira idade. Nessa época, estava faltando espaço para atender o idoso em Uberlândia e nós recebemos um convite da Secretaria de Desenvolvimento Social, então passamos a receber pessoas da terceira idade.

De que forma ocorreu a criação da clínica para atendimento às pessoas com transtornos mentais?

Em 1987, o Sanatório Espírita de Uberlândia estava fechando. Ele atendia somente mulheres e faltava atendimento para os homens, então a clínica foi criada pelo Núcleo Social Jesus de Nazaré em 1990, para atender os pacientes do sexo masculino.

De repente, o sanatório fechou e todo o atendimento passou a ser feito pela clínica. Iniciamos a clínica com 32 pacientes e hoje são atendidos 482 pacientes, sendo 400 no ambulatório e 82 no sistema de atendimento/dia, em que o paciente vai de manhã para a clínica, passa o dia e retorna à noite para casa. Chegamos a ter mais de 600 pacientes até 1998, todos os pacientes da cidade eram atendidos pela clínica. Com a implantação do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), o número foi reduzido porque ele também passou a atender a essa demanda.

A clínica de reabilitação conta com dois locais de atendimento?

A matriz fica na Rua Cinco das Chácaras Valparaíso. O sítio conta com duas unidades separadas, uma para atendimento aos pacientes com transtornos mentais e outra para os idosos.

A filial fica na Rua Benjamin Constant, no Bairro Aparecida (setor central). Nos dois locais, os pacientes passam por atendimento médico e participam de oficinas. Entre elas, de atividades psicossociais, música, teatro, terapia em grupo e orientação à saúde.

Na clínica há pacientes internados?

Nós só acolhemos seis pacientes, o que se chama acolhimento provisório, resultado de um convênio que temos com a Secretaria de Saúde de Uberlândia. Nós temos pacientes que vieram de longa internação. Eles passam o dia todo com a gente, recebem alimentação e participam de atividades como a oficina de horta. Nós trabalhamos no que é chamado de a moderna psiquiatria.

Nossa instituição foi a que mais leitos desospitalizou. Havia pessoas que estavam internadas por longo tempo. A gente trabalhava com eles, organizava e passava para o sistema de ir e voltar todo dia. Esse trabalho consistia em orientar a família.

Hoje, trabalhamos com o usuário, o paciente, a família e a unidade. Para a família entender a doença, o quadro que o familiar possui, e saber coordená-los no dia a dia. Como, por exemplo, não deixar faltar medicamento, levar até o ponto de ônibus, buscar no horário combinado e não deixar o paciente ter crises. Não deixar o paciente regredir.

Quais os desafios que a clínica enfrenta?

A dificuldade que todas as entidades beneficentes passam é a instabilidade que o País enfrenta. Tem ano que está bem, em seguida aparecem alguns problemas econômicos e isso prejudica. Por exemplo, neste ambulatório, temos convênio com o SUS (Sistema Único de Saúde), que paga R$ 10 a consulta para o atendimento com o médico. Percebe-se que é muito defasado. A gente tem que buscar recursos e ajuda da sociedade para cobrir as despesas. O SUS paga R$ 6,90 para o atendimento com o psicólogo. Um valor muito abaixo do valor real, é insignificante.

Em 2015, nós reunimos todas as entidades que cuidam dos idosos e fizemos uma planilha com o custo de cada uma. Chegou-se ao valor de R$ 2,4 mil por mês, por pessoa. Então é necessário ter nutricionista, fisioterapeuta, enfermeiros, técnicos, toda uma equipe preparada para atender bem, então esse custo é alto.

A manutenção é alta porque o idoso às vezes tem demência, doença de Alzheimer, e não tem noção de onde está. Então quebra chuveiros, pias de lavatório. As paredes também precisam de conserto porque as cadeiras de roda encostam.

Quando o país passa por uma crise econômica, ocorre um aumento no número de pacientes atendidos?

Tratando-se de transtornos mentais, sim. O doente mental realmente tem uma regredida, às vezes porque eles estão em tratamento, sofrem um pouco com a situação do momento e isso agrava a saúde. Agora, o idoso, a situação é complicada porque o País ainda não está preparado para atender as pessoas da terceira idade. Temos um número grande de idosos que necessita de ajuda e o País não está preparado.

Além da ajuda do Município, é necessário o apoio da sociedade para a assistência ao idoso?

Para o atendimento ao idoso, temos uma ajuda do Município de Uberlândia por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social, Trabalho e Habitação de aproximadamente de R$ 800 por idoso. A entidade tem permissão, conforme o Estatuto do Idoso, de usar 70% do salário da aposentadoria, o restante tem que buscar na sociedade.

Tem que vir, em nível de recursos financeiros, de alimentos, de objetos, ele tem que chegar para a entidade se manter em funcionamento. Então sem a ajuda da sociedade é impossível hoje manter uma entidade desse nível com esse número de pacientes idosos. E essa situação é semelhante para todas as entidades.

Nesses primeiros 100 dias da nova gestão na prefeitura, a Secretaria de Desenvolvimento Social, Trabalho e Habitação tem realizado um bom trabalho com as entidades assistenciais?

Os três primeiros meses foram difíceis, mas voltou ao estado normal de a secretaria manter os convênios que já havia. Estão fazendo o depósito no quinto dia útil. Nos primeiros meses contamos muito com a ajuda da sociedade.

O último ano foi muito difícil também para as entidades, no governo anterior. A gente tem procurado muito a sociedade para manter a folha de pagamento e não atrasar os compromissos financeiros.

E como tem sido a ajuda da comunidade para as entidades beneficentes?

A sociedade tem colaborado, em períodos de crise financeira, cai um pouco, mas no nosso caso nós recebemos ajuda da sociedade, que tem sido presente. As ações são realizadas porque a sociedade comparece. E essa ajuda tem sido muito importante, a contrapartida da sociedade é grande. A ajuda é grande, a partir do momento em que a gente convoca, divulga e pede. Ela participa. Isso é muito importante.

Quando o senhor começou a fazer serviço assistencial?

Eu venho de um grupo de jovens espírita, da Mocidade Espírita. A gente visitava famílias de baixa renda, levava cestas básicas, e a ideia de atender pessoas necessitadas foi crescendo. Na época, em 1985, fizemos uma pesquisa e os pacientes com transtornos mentais de Uberlândia estavam sendo levados para ser internados em outras cidades. Então vimos essa necessidade e começamos a construção da clínica.

No nosso grupo havia várias pessoas, como assistente social, psicólogos, médicos e a ideia foi esta: ter uma equipe multiprofissional para prestar esse serviço. Trabalhar de forma voluntária. E desde aquela época, as situações mudam. Há uma rotatividade dos membros.

Como surgiu essa vontade de ajudar o próximo?

Com os exemplos do meu pai e da minha mãe, que sempre ajudaram as pessoas. A doutrina espírita também reforça essa ideia de ajudar o próximo, então, a gente vai convivendo com a situação de servir às pessoas, ajudar, de ser útil. A partir dessa vivência, a gente se envolve e se dedica a servir o próximo.

Nesses 37 anos de serviços beneficentes, qual o balanço que o senhor faz?

Há momentos em que a gente pensa em desistir, mas de repente vê uma pessoa que chega e fala que recebeu muita ajuda e foi tão importante… E com isso a gente recobra o ânimo. Mas, a gente tem muitas perseguições, indiferença.

O núcleo de pessoas bondosas é bem maior, mas tem alguma indiferença no meio. Se a gente não tiver com muita vontade, a gente abandona o trabalho. Temos visto muita gente abandonar. Tenho perdido muitos companheiros por dificuldades na família.

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