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Oscar Virgílio Pereira, um olhar sobre o passado e a esperança no futuro de Uberlândia

Oscar Virgilio Pereira fala sobre o primeiro prefeito da cidade e suas ações. O momento atual e a importância de um compromisso com o progresso da cidade

O advogado, historiador e ex-procurador da prefeitura de Uberlândia, Oscar Virgílio Pereira observa que o espírito de união foi fundamental para o progresso e desenvolvimento da cidade. Ao acompanhar da sala da procuradoria do município, o desenrolar de diversos acontecimentos, resolveu então pesquisar as origens da cidade e as influências históricas que formaram Uberlândia. Nesta entrevista, ele fala sobre o primeiro prefeito da cidade e a contribuição dele para o progresso da então São Pedro de Uberabinha. O momento atual e a importância de um compromisso com o progresso da cidade. Leia abaixo os principais trechos.

Qual a contribuição do senhor para o progresso de Uberlândia?

Não digo que fiz ações, eu participei com muito entusiasmo de várias fases. As pessoas que fizeram, o conjunto de batalhadores dos quais eu fiz parte, são os responsáveis pela autoria de muita coisa boa.

Uberlândia como o Brasil, como Minas Gerais e o Triângulo Mineiro tiveram os seus momentos fundamentais. Nas pesquisas que gosto de fazer sobre a nossa história. O pensamento, a preocupação com as questões sociais e econômicas têm sido muito favorecido com algumas ideias importantes, algumas posturas muito interessantes, a começar, por exemplo, o nosso primeiro agente executivo, Augusto César Ferreira e Souza.
Pouca gente sabe que o município de Uberlândia se emancipou em 1888, logo depois da abolição da escravatura. Pouco tempo depois da criação do município veio a República. Uberlândia nasceu então junto com a República, significando que estavam mudando aquelas concepções antigas, superadas, do Império.

Qual a influência desse momento histórico na formação da cidade?

Quando o município nasceu, ele passou quatro anos, tentando primeiro se organizar. Ninguém sabia como organizar o município recém-criado. Recorreu-se então a uma pessoa da região que era o ex-deputado provincial, Augusto César Ferreira e Souza. Um cidadão de mentalidade republicana, um presente de Deus para uma cidade caipira, que estava tentando se organizar.

Aqui vale destacar a importância das pessoas que pensam. Augusto César era muito culto e de formação republicana. Um homem adequado para o momento, tanto que as duas correntes políticas do município se juntaram para escolhê-lo como agente executivo. Ele foi eleito por unanimidade. Os eleitores eram poucos, mas eram os que tínhamos.

Qual a ação de destaque realizada nos anos iniciais de Uberlândia?

Alguns lances de pensamento extraordinário foram adotados pela primeira Câmara de Uberlândia. Por exemplo, Augusto César fez um convênio com a Câmara de Morrinhos no Estado de Goiás. Morrinhos era de uma extensão territorial muito grande, na época abrangia o atual município e também Itumbiara e Caldas Novas. Nesse convênio, ele estabeleceu uma cooperação em que Morrinhos construiria uma estrada carreira até o porto de Santa Rita que é hoje Itumbiara, do lado goiano. São Pedro de Uberabinha, por sua vez, construiria uma estrada carreira até às margens do Rio Paranaíba, no lado mineiro.

Uberabinha então organizou um transporte de balsas. Uma transportava as mercadorias vendidas pelo comércio daqui para o comércio de Goiás e a produção agrícola daquele Estado era exportada pelo mesmo caminho. Assim, nasceu o embrião do entreposto de Uberlândia. Esse grande centro de comércio e indústria que existe hoje.
Através dessa formulação, nós temos um momento da história que definiu o caráter da cidade. Essa era a concepção dele, foi o nosso primeiro consórcio intermunicipal. Aliás, até interestadual no Brasil, com dois municípios distantes e diferentes, com um pensamento desses. Assim que surgiu o comércio de Uberlândia. Quando eu digo estradas carreiras era carro de boi, não era automóvel.

Quais foram as consequências dessa formulação para o futuro da cidade?

Essa formulação projetou para o futuro, uma realidade urbana para o município de Uberlândia. Em cima disso tudo, se firmou uma situação de trabalho e depois essas estradas carreiras foram aproveitadas para as linhas de automóvel. Quando surgiu o automóvel no Brasil, poucos municípios estavam preparados com caminhos para enfrentar o transporte. Então, alguns dos automóveis que chegaram ao país, por incrível que pareça, foram importados por gente aqui de São Pedro de Uberabinha.

Esses fatos simbolizam uma atitude feliz de pensamento político, econômico e social que visava o desenvolvimento da região. Principalmente, um desenvolvimento com sede no novo município de Uberlândia. Nesse momento histórico, o pensamento definiu os rumos e aproveitou as situações existentes favoráveis para construir algo de importante. Isso demonstra que Uberlândia não é uma cidade de rotinas, É uma cidade de reformas e inovações.

De que forma Uberlândia recebeu os novos ideais republicanos recém-estabelecidos?

Uberlândia conseguiu nascer na República e evoluir nesse contexto. A primeira República foi uma tentativa de transformar o Brasil em um país republicano, mas conservando os hábitos imperiais. Era um país contraditório. Nós aqui em São Pedro de Uberabinha pensando como fazer o município se desenvolver. Precisava de escolas, mas vinham aquelas concepções do império. Havia traumas muito grandes. Tinha ocorrido a separação, entre Igreja e Estado. Os republicanos tentando assumir uma postura que realmente consolidasse essa separação. Então, foi um processo muito difícil.

A lei número um de Uberlândia, tinha o seguinte texto: dispõe sobre a instrução pública. Augusto César estabeleceu a organização das escolas do município. Um trabalho magistral que serve de modelo até hoje. Os municípios novos podiam usar esse modelo de distribuição de conteúdo. Veja que interessante, a visão que o primeiro prefeito Augusto César tinha e como é o pensamento aliado à vontade de melhorar.

Para o senhor a união e o compromisso são os fatores mais importantes para o crescimento de uma cidade?

Gosto de dizer que quando foi atacado o problema do saneamento básico, a cidade foi tomada por um espírito de entusiasmo, de seriedade, e de compromisso. Todos têm compromisso, quem não tem compromisso se chama usufrutuário. Apenas usufrui daquilo que os outros estão fazendo, mas a pessoa que têm compromisso, você classifica as atitudes delas com simplicidade.

Quando você vê um cidadão, às vezes até de nível universitário, passa no seu automóvel e joga a embalagem do refrigerante na rua. Esse indivíduo não está comprometido com nada, não faz falta se for embora da cidade. Ele é um agente poluidor. Nada do que ele faça terá a qualidade necessária. Ele demonstra isso nas coisas mais corriqueiras. O senhor atribui a criação da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) ao espírito de união?

O espírito de união também esteve presente na construção da universidade. A primeira manifestação que houve foi do presidente Costa e Silva ao ouvir o Rondon Pacheco que na época era o chefe da Casa Civil. Rondon Pacheco falou que Uberlândia queria criar uma escola de medicina. O presidente ficou assim um tanto espantado e disse, “mas lá nesse sertão”.

Costa e Silva achou uma atitude muito corajosa. Pouco tempo depois, em certa ocasião, ele fez uma visita à região e verificou que já existia o projeto da construção e disposição. Os arquitetos tinham feito um projeto magnífico, bonito, sem cobrar nada. O prefeito tinha dado um apoio muito grande. E, na cidade inteira, existiam carnês de contribuição para construção das escolas de ensino superior.

Todo mundo assinava uma nota promissória e pagava mensalmente. Até o pessoal que ganhava um salário pequeno no comércio, contribuía mensalmente. Então, o presidente sentiu esse espírito e percebeu que o ingrediente principal já existia. Dinheiro vem depois, dificuldades técnicas são superadas.

Ao olhar para o passado e comparar com o momento atual, qual a análise que o senhor faz?

É importante que todos reflitam sobre a razão de Uberlândia, em momentos tão difíceis ter conseguido, se armar, e resolver coisas importantes como o saneamento básico, a melhoria da saúde da população e a construção de uma estrutura que permitiu que se instalasse um parque industrial. Esse espírito deve ser fundamental. Nós sabemos que há uma série de problemas a resolver, problemas muito grandes, problemas muito sérios, mas todos esses problemas têm solução.

Uberlândia tem sabido dar soluções pioneiras a todas as experiências de problemas. Desde o atraso cultural e econômico. Essas soluções foram encontradas na criatividade das pessoas. No espírito de resolver as questões. Enquanto muitos municípios permanecem nas trevas do atraso e buscam eternamente os culpados pelo seu atraso, a tradição de Uberlândia é de buscar, aqueles que possam resolver, de lutar para isso.

Noto que no momento presente, houve uma delegação dessa comunidade imensa de Uberlândia à atividade política para que ela trace rumos condizentes com as necessidades e aspirações do povo. Esse comportamento é o que deve ser exigido da classe política.

Como o senhor vê o presente e o futuro de Uberlândia?

Uberlândia está em um estágio interessante porque se tornou um município polo com um desenvolvimento muito grande. Sediando empreendimentos comerciais e residenciais muito importantes. Essa condição de polo gera uma condição de vida melhor, com os atendimentos básicos das necessidades da população. Mas gera problemas, porque o polo atrai problemas de toda a região.

Uberlândia tem se dedicado a se tornar a cidade destinatária das caminhadas de muita gente que aporta até aqui, buscando uma vida melhor. Sempre foi o espírito de Uberlândia acolher e se desenvolver com o esforço de todo mundo. Não é uma cidade que fez discriminação de pessoas pela sua origem, mas tem que atender as necessidades dessas pessoas.

O senhor não vê ‘rivalidade’ entre uberlandenses e uberlandinos?

Todos são uberlandenses desde que paguem a passagem do compromisso. Se ele não tem compromisso com a cidade, não é uberlandense nem uberlandino, nem coisa nenhuma. É um usufrutuário passageiro que, na primeira oportunidade, irá embora.

O prefeito Odelmo Leão assumiu a prefeitura com os salários em atraso dos funcionários deixados pelo governo anterior. Essa foi a maior dificuldade dele nos 100 dias de governo?

O Virgílio Galassi disse uma vez algo muito interessante. Ele gostava de ser o sucessor do Renato de Freitas, porque encontrava a casa limpa, dinheiro em caixa, tudo organizado, sem problema, sem minas de efeito retardado.
Quando não acontece isso, fica difícil, porque você tem que começar a montar as coisas, e às vezes, algumas coisas maldosas são deixadas. Os salários atrasados e tudo mais que foi gasto e não foi pago, constitui um problema e há um modo que a lei põe para resolver isso. São os compromissos não atendidos. Então, tudo tem que ser apurado, mas para pagar essas coisas atrasadas, você vai precisar ter um aumento da receita. Você não pode pagar com a receita desse ano. A receita do exercício de 2017 tem que atender às despesas desse ano.

O sacrifício de quem transgride a regra do equilíbrio da receita com a despesa não é do prefeito novo que chegou não. Aquele que deixou essa situação atingiu o povo. Quando o Virgílio Galassi assumiu em 1989 achou a mesma coisa, dívida rolada. A primeira vez que o Odelmo Leão assumiu também. Ele já está acostumado a ver isso. Mas quando ele deixou a prefeitura. Estava zerado, que é o certo.

Qual a sua opinião sobre as investigações da operação Lava jato e os resultados que ela tem alcançado?

Não é a primeira vez que isso acontece. De vez em quando é preciso dar um reaperto nos parafusos, porque quando falta a fiscalização, falta avaliação. Quando há o distanciamento entre a população e aqueles que devem executar as políticas e as atividades importantes, algumas pessoas se aproveitam, mas não é todo mundo que é réu da operação Lava Jato. Fora da operação, há pessoas de bem, pessoas sérias, existem milhões delas, e essas pessoas é que fazem a diferença.

Esse pessoal envolvido é a minoria do erro, do aproveitamento. Mas, a maioria é aquela que levantou para trabalhar de manhã cedo, em qualquer cidade do Brasil. Basta respeitar essa maioria, que ela certamente indicará os rumos certos. Não é a primeira vez que se ataca a corrupção, tomara que se atinja na sua profundidade, que se revele tudo e todos se unam em torno de um compromisso. É importante identificar aqueles que encerram compromisso com aqueles que encerram um desejo de locupletamento, de enriquecimento ilícito.

Qual foi o objetivo de pesquisar sobre a história de Uberlândia e escrever o livro, “Das Sesmarias ao Polo Urbano: Formação e Transformação de uma Cidade”?

A ideia inicial do livro era fazer um índice da legislação municipal. Entretanto, ela é um retrato do que as pessoas pensavam e faziam nas diferentes épocas. Então, a motivação daquelas leis, buscar essa motivação, estudá-las de uma maneira sistemática, integrada no processo de formação da cidade. Quais os momentos que determinaram aquelas leis. Elas dão um retrato em cada época do que era a sociedade. Isso me levou a buscar todas as informações e assim resolvi condensar em um livro. Ele é volumoso porque aborda vários aspectos dessa formação, até os dias atuais.

Se o senhor pudesse voltar no tempo, o que faria de diferente?

Existe uma teoria que um dia nós vamos conseguir voltar no tempo. Só que ocorre o seguinte, se eu conseguisse voltar no ano em que nasci 1933, eu voltaria menino. Então, tinha que ser tudo do mesmo jeito. Não iria voltar sabendo o que sei hoje. Se tivesse sorte, ia repetir o mesmo que aconteceu. Essa ideia de poder voltar pensando e sabendo o que sei hoje, naquele tempo, isso é impraticável.

Com toda a sua vivência pessoal e profissional, qual o conselho que o senhor dá para a juventude?

Ter compromisso com a vida, pensar bem no que vai fazer dela. Nunca pensar que se é uma pessoa isolada. Todos precisam de todos. A raiz de todos os males é essa questão do isolamento. Quem tem bons companheiros, quem consegue encontrar as pessoas que estão preocupadas com as mesmas coisas que ele, sempre será uma pessoa realizada. Entenda que essa vida será boa quando você está buscando sair da mesmice.

Texto: Leonardo Leal

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