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Entenda o comportamento da taxa SELIC

Desde o impeachment, o Brasil vem experimentando um flagrante processo de queda na taxa de juros. No intervalo de um ano a contar desde abril de 2016, a taxa SELIC foi reduzida em 3 pontos percentuais, saindo de 14,25% para os atuais 11,25%. Esse movimento consiste numa das mudanças mais bruscas da política monetária desde que o Brasil adotou o regime de metas de inflação em 1999. Mas o que de fato está por trás desse movimento?

Evidentemente que os fatores condicionantes a essa queda são a rápida convergência da inflação para o centro da meta (provocada pela recessão ainda em curso), somada ao realinhamento dos preços administrados realizados em 2015, tudo isso somado à aprovação ano passado da PEC do Teto dos Gastos, que despertou um otimismo de longo prazo quanto à capacidade de solvência do governo federal. Esse é, deste modo, o tripé da queda na taxa de juros da economia brasileira e que a diferencia, portanto, do movimento de queda praticado em 2011, durante o governo Dilma, no qual a combinação de políticas fiscais e monetárias frouxas estabelecia uma perspectiva de inflação futura acima do teto da meta, o que não se deu exatamente pelo represamento de preços públicos.

No entanto, a política fiscal frouxa ainda permeia a ação política no Brasil e está evidente na elevação da previsão do déficit primário de 2018, antes previsto em R$79 bilhões e agora revisto para R$129 bi. Além disso, a promessa de um ajuste fiscal de longo prazo proposta pela PEC do Teto dos Gastos vai se esvaziando conforme a capacidade do governo de aprovar reformas (como a da Previdência) vai se tornando evidente. Diante disso, o Banco Central se move rapidamente para tentar apagar o incêndio da crise política, tentando criar uma agenda econômica positiva, apostando que uma queda rápida e aguda na SELIC pode promover uma melhora no crescimento.

Mas qual o real alcance dessa estratégia?

A primeira questão a se levantar é que um avião não é capaz de voar se apenas uma de suas turbinas estiver funcionando. Da mesma forma, o Brasil não voltará a apresentar bons resultados econômicos ancorados meramente em estímulos do BC, por várias razões.

Primeiramente devido ao fato de que o principal mecanismo de transmissão da política monetária, o crédito, está diante de uma séria obstrução, a grande inadimplência das pessoas físicas e jurídicas herdada da Nova Matriz Heterodoxa torna praticamente nula a demanda por crédito no País, ainda que haja uma maior oferta. Portanto, o expansionismo monetário ora vigente exerce seus efeitos conhecidos na valorização dos ativos financeiros e no câmbio, mas no que se refere ao seu principal objetivo, a indução ao crescimento via crédito, ele falha.

Além disso, a operacionalidade da política monetária prevê um timing de 6 a 9 meses entre o movimento na taxa básica de juros e os movimentos nos demais agregados monetários. Logo, os efeitos da primeira queda na taxa de juros (0,25 p.p.) em outubro de 2016 irão começar a fazer efeito apenas agora, enquanto que as quedas mais robustas vistas ao longo do começo deste ano teriam efeitos apenas no final de 2017. Com esse timing, talvez o hidrante da política monetária seja incapaz de apagar o incêndio da crise política que ameaça o governo.

Em terceiro lugar, existe a própria limitação da capacidade da taxa de juros em criar crescimento econômico, e da existência de uma taxa real de longo prazo na economia, ou seja, num mundo de Lucas (1976), cujas expectativas são racionais e os agentes fixam preços olhando para o futuro, o BC tem pouca ou nenhuma influência sobre o crescimento econômico, visto que esse comportamento depende de um produto natural de longo prazo.

Em jogo, pesa a credibilidade da equipe econômica como um todo, cujo trabalho até aqui produziu otimismo nos agentes quanto à solução do problema fiscal expresso na PEC dos Gastos e na perspectiva da reforma da Previdência. Sem esta, é questão de tempo para que a inflação volte a pressionar e os juros voltem a subir.

Texto: Benito Salomão
Bacharel e Mestre em economia, empresário e professor universitário

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