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A visão empresarial de Humberto Carneiro e o momento de transição do Brasil

Humberto Carneiro teve mais de 100 empresas e atualmente é presidente do Grupo UP Brasil

O empresário Humberto Pereira Carneiro começou a trabalhar com 12 anos de idade. Com uma trajetória de sucesso, já teve mais de 100 empresas e atualmente é presidente do Grupo UP Brasil, resultado da fusão da Policard com uma multinacional francesa do setor de cartões de benefícios. Também é vice-presidente da ACIUB (Associação Comercial e Industrial de Uberlândia).

Em entrevista a O JORNAL de Uberlândia, ele fala do momento atual do País, da esperança na mudança do cenário político-econômico e compartilha um pouco da sua visão estratégica. Leia abaixo os principais trechos:

Como o senhor vê o momento atual do Brasil?

As pessoas estão começando a enxergar que este Estado comunista em que nós vivíamos está dando seus últimos suspiros. Igual peixe quando você tira fora d’água. Eles estão apavorados. Hoje nós estamos tendo a oportunidade de tirar a obrigatoriedade sindical. Imagina você ser obrigado a trabalhar um dia por ano, por conta de sindicato que nunca te representou.

Então você percebe que, à medida que você tem disciplina, você consegue ter resultado. O mundo tem percebido que esse lado socialista pensa em ter direito sem ter obrigação. Temos uma legislação que apoia o bandido, e não quem produz. Que se vangloria do emprego, mas crucifica quem o gera.

Fico muito triste quando você vê o País da forma que está. Mas acredito que ele vai encontrar seu caminho. Você não pode enganar todo o povo por tanto tempo.

Essa situação gera consequências na economia?

Estado hoje virou uma legislação criminosa, que rouba do cidadão diariamente, através de impostos. Criando leis e normativas tão difíceis de entender que você tem duas opções: ou você vira amigo do Estado e deixa de ser fiscalizado porque o sistema é corrupto, ou você parte para a sonegação – se você partir para a sonegação, além de virar inimigo do Estado, você passa a ser criminoso perseguido.

As pessoas estão percebendo claramente isso e estão fechando seus negócios. Em 2016, foram fechadas 107 mil empresas, lojas, no Brasil. Para se ter uma noção da dimensão disso, todos os shoppings do Brasil hoje somam 100 mil lojas. E o que é pior: em 2015, foram fechadas mais 101 mil lojas. Com isso, a arrecadação caiu, e acontece uma peculiaridade: o Estado cria leis para protegê-lo, e não para proteger o cidadão.

Você começa a perceber a ignorância e a falência do Estado, que fala todo dia em aumentar impostos. Ele nunca fala em aumentar arrecadação. O propósito real é aumentar arrecadação. Aumenta-se a arrecadação cobrando pouco de muitos. Porque se você cobrar muito de poucos, ou eles vão fechar, ou vão partir para outras alternativas. O Estado ainda não percebeu que capital é um bicho arisco. Se ele não achou guarida aqui, ele vai para outro lugar.

Atualmente, a sociedade brasileira está mais esclarecida?

Hoje as pessoas estão cobrando resultados melhores, dias melhores, condições melhores. Estamos passando um momento mágico em que a sociedade brasileira nunca participou tão ativamente como está participando agora, tanto no meio político como no meio econômico. A coisa chegou num patamar tal que as mudanças se fazem necessárias.

Do ponto de vista empresarial, quais as mudanças necessárias para o País crescer?

Primeira coisa, você precisa mudar a estrutura. O Brasil é um país que você precisa jogar no chão e fazer de novo. Nós temos que ter coragem de fazer isso. Temos que criar mecanismos para ser competitivos e estimular a geração de emprego.

Tenho oportunidade de investimentos em outros lugares. Nos Estados Unidos, para cada emprego gerado se ganha uma isenção de 70 mil dólares de imposto. Ele dá incentivo, terra, lugar e lá, o contrato é respeitado.

Você quer ver o tamanho da ignorância do Brasil e o que é vaidade partidária? Se nós tivéssemos dado há 20 ou 30 anos, uma concessão para um trem bala Rio-São Paulo, nós já o teríamos há muito tempo. A iniciativa privada tem interesse. Agora, não tem interesse de ficar do lado do Estado, como é o exemplo da Odebrecht.

No campo da política, o que precisa ser mudado?

Político para nos representar tem que ter curso superior. Para ser médico é preciso estudar, por exemplo. Também, a pessoa para votar, no mínimo, tem que ser alfabetizada. E o analfabeto? É massa de manobra, é discurso de comunista ou de gente que quer influenciá-lo. Dê incentivo para essas pessoas se alfabetizarem. Não existe almoço de graça. O Estado não tem que suprir de graça. Aquilo que é de graça não tem valor.

Mesmo com o cenário político ruim, o senhor mantém a confiança no País?

Porque eu sou otimista com relação ao Brasil. Nós temos 200 milhões de hectares cultiváveis. Temos a melhor luminosidade do mundo, somos o celeiro do mundo hoje e temos a maior reserva cultivável, que pode ser explorada sem afetar nenhum meio ambiente.

A grande extensão territorial do País é um aspecto positivo para atrair investimentos?

O Brasil tem tudo para ser feito. O mundo hoje gera um PIB de 80 trilhões de dólares por ano. Existe um capital circulante, diariamente no mundo, de 300 trilhões de dólares. Este dinheiro está apto, procurando investimento, bons investimentos. Imagine um país como o nosso, que tem tudo para fazer: usina, estrada, ponte, ferrovia, metrô… A hora em que for criado um sistema que respeite contratos e dê garantia para quem investe, o mundo inteiro vai voltar a colocar dinheiro no País.

Essa volta dos investimentos no País será a curto, médio ou longo prazo?

Isso vai acontecer mais rápido do que você imagina, mas não acontece antes de 2019. Porque conseguimos trocar as bases da Prefeitura, que são 70%, só que toda a estrutura que lá está – Judiciário, estrutura governamental federal, etc., ainda é tudo da máquina antiga. Então você tem que tirar isso de lá. Ou precisamos de uma eleição, ou de um evento forte. O que pode ser evento forte? Uma assunção militar. Ou a própria prisão do Lula, que vai gerar uma convulsão nacional positiva. Porque esses vermelhos que aí estão, acredito que estão com seus dias contados. Isso não deu certo em lugar nenhum.

Por que isso não acontece antes de 2019?

Porque você tem uma estrutura política montada. Até 2018, os deputados, senadores que aí estão vão ser um problema. A não ser que chegue alguém lá e diga: “O voto de vocês não vale”. Isso deveria ser feito. Mas nós temos um Judiciário corrompido, um Legislativo e um Executivo corrompidos. O Executivo, agora estamos conseguindo trocar. O Legislativo ainda demora até a próxima eleição. Até lá nos vamos ter que ir amargando. Então, o papel do povo é pressionar, estar junto, fiscalizar. Não dar sossego para esses bandidos, porque agora nós sabemos o caminho.

Em 2019, você tem uma mudança, provavelmente vão entrar alguns novos gestores. Não precisamos de políticos. Uma prova viva disso é o prefeito de São Paulo, o João Doria. Ele está dando um exemplo de gestão. Ele jogou a política no lixo, essa de conchavo, acerto, favoritismo.

O Temer é o que sobrou. O Temer ainda tem que tocar, ajustando com essa turma de bandidos que está lá. Mas acredito que eles estão com seus dias contados.

As privatizações são o caminho para o País progredir?

O Brasil é fácil de resolver, primeiro, se nós tivermos um dirigente que primeiro privatize, transforme no Estado mínimo possível. Com isso você tira os cabides de emprego, você tira as mamatas, o pessoal tem que ir para o mercado. Se você abrir a economia, começa a gerar uma mão de obra farta e dinheiro entrando. Para você ter uma noção, não vamos dar conta de gerar a energia que precisa devido ao tamanho da aceleração.

Aí você começa a ver a estupidez, esses conflitos que são gerados aí, justamente para desestabilizar e gerar um processo de pobreza e perpetuar um governo corrupto e autoritário. Temos o exemplo da Venezuela, que tem a maior reserva de petróleo do mundo. Então, para quem gasta mal, todo tanto é pouco.

Como o senhor vê a iniciativa de privatização de equipamentos públicos defendida pelo prefeito de São Paulo, João Doria?

Extremamente positivo, o Estado não tem que assumir coisas que não lhe pertencem. Toda empresa estatal hoje é cabide de emprego, é rolo. Para que nós temos que ter uma Petrobras? Para pagar a gasolina mais cara do mundo. Deixa dois ou três aqui dentro, vamos ser competitivos.

Uberlândia poderia ter uma política de privatizações ou parcerias com a iniciativa privada?

Acredito que aos poucos já está tendo, as associações estão reconhecendo que não é o Estado que vai resolver sozinho. Esses dias, na ACIUB, a classe empresarial se juntou para acertar uma posição com as UAIs (Unidade de Atendimento Integrado), de logística. Fizemos a doação de 80 smartphones. Hoje você tem como agendar uma consulta. Você começa a ter conectividade. A UNEDI (União das Empresas do Distrito Industrial) também fez a doação de equipamentos de proteção individual para os agentes de combate à dengue. Se todos nos unirmos, a cidade é nossa.

Como você vê o futuro próximo de Uberlândia?

Vejo de forma extremamente positiva, nós temos um bom gestor. A sociedade está engajada em ajudar. Logicamente você vai ter a turma do contra, que cada dia mais eles estão se mostrando ineficientes. O PT, por exemplo, foi tão incompetente que não deu conta de manter o governo e perdeu por incompetência. Um mau gestor. Se fosse um bom gestor, ficaria os 40 anos que ele queria.

Não adianta você levar miséria para o povo. A população quer bem-estar, serenidade. Como é permitido, por exemplo, o sujeito invade uma área de terra e, do dia para a noite, passa a ter direito à propriedade dela. O antigo não tinha? Quem invade terra não pode ter direito à propriedade.

O seu pai, Milton Carneiro, ocupou cargo público e contribuiu com Uberlândia. Em algum momento da sua vida você não tem interesse em contribuir de forma semelhante?

Acho que já contribuo na medida em que eu sou, gratuitamente, vice-presidente da ACIUB. Assim posso ajudar. Tenho que ter um exemplo de vida para cobrar dessas pessoas. O problema hoje no Brasil é quando você passa a ser partidário, você toma uma decisão e uma linha. Hoje, nós não precisamos mais ser partidários. O partido nosso tem que ser o Brasil. A forma de pensamento tem que ser diferenciada. Vou apoiar as pessoas em quem acredito.

Pela sua experiência profissional nos negócios e pela visão estratégica, você não seria um bom gestor no Poder Executivo?

Acredito que não. Acho que o problema do Brasil está no Legislativo. Nós precisamos primeiro trocar esses deputados. A gente consegue melhorar com a troca. Por ter uma visão estratégica, considero que o problema é estrutural. Coitado de quem pega uma prefeitura aqui. Primeiro que tem um cabide de emprego, funcionário que você não pode mandar embora. Se eu entrar numa repartição e vir muita incompetência, vou ter dificuldade.

Como surgiu a Policard, que atualmente se chama UP?

A Policard foi criada há 22 anos, na época não existia nem consignado. Nós fomos o primeiro consignado. Em 1995, eu percebi uma oportunidade, o nosso grupo era constituído por 33 empresas, em que os funcionários tinham dificuldade de fazer convênio com uma farmácia. Eles reclamavam que tinham que pagar o preço estipulado pela farmácia, já que o convênio era só com uma. Falei para o pessoal de RH para colocar mais farmácias, e eles disseram que era muito ruim de controlar.

No mesmo período, comprei uma empresa que se chamava Polidata, para construir um software que queria com meu consórcio. Percebi que lá dentro eles faziam gestão de um convênio com o grupo Algar. Juntei aquilo com a ideia que tinha, também procurei a Prefeitura e criamos o produto Policard.

O negócio foi crescendo e hoje nós estamos em 200 mil pontos de vendas no Brasil e em 5 mil municípios. Fiz uma fusão com o grupo francês UP. Hoje estamos em 17 países, somos líderes na Turquia, na França e no México. Estamos trabalhando para ser líderes no Brasil nos próximos quatro anos. Também temos presença na Polônia, na Romênia, na Grécia, na Alemanha, na Itália.

Como encontrar o equilíbrio na vida profissional?

Hoje a humanidade passa por três problemas sérios, um é ansiedade, quando você quer trazer o futuro para o presente. Outro é a depressão, ao querer trazer o passado para o presente. O terceiro é o estresse, o excesso de presente. Então, é importante que na vida se aprenda a trazer esse equilíbrio nos negócios, nos relacionamentos. Quando a gente aprende a conviver com o que é suficiente, passa a ter outros valores que vão ajudando a tocar a vida para frente. Aprende que amizade é um negócio raro e precioso. Cultiva os amigos, convive com as pessoas que te fazem bem e se afasta das que fazem mal.

O senhor estudou Filosofia? Como adquiriu um grande conhecimento e uma amplitude de visão?

Não, isso eu aprendi muito com a vida. Para você ter uma noção, eu já tive mais de 100 empresas, muitos sócios e nunca tive problema com eles. Porque toda vez que eu tenho um problema, eu pago e saio. Procuro resolver os problemas conversando, ajustando e sendo transparente, com o objetivo de continuar crescendo.

O conceito de sociedade é importante porque uma vez que o mundo é cada vez mais compartilhado… então é preciso dividir interesse para multiplicar resultado. À medida que você conhece o mundo inteiro e tem oportunidade de ter vários negócios e sócios, você adquire e desenvolve um poder de percepção muito grande, se torna um bom observador.

Quais são os valores que um empresário de sucesso deve desenvolver?

Você tem muitas oportunidades, aquilo que é ruim você descarta, fecha. Contabiliza o prejuízo e sai fora. Não fica insistindo. O ser humano tem o hábito, às vezes, de insistir numa posição porque lhe falta humildade. A humildade é uma ferramenta fortíssima. Ela te ensina a ter desapego. E o apego te mata. Porque essa ideia foi minha, fui eu que fiz. Você vê muitos exemplos de famílias que ficam brigando por causa de um poste de cerca.

Com isso eu aprendi que, quem deixa ideias, deixa esperança. Quem deixa patrimônio geralmente deixa conflito. Então hoje, o que você vai fazer da sua vida? Do que tenho, 80% eu quero reverter para a humanidade e 20% eu deixo para minha família. Agora, por que você não dá isso para o Estado? Porque ele é um mau gestor. Um dólar na minha mão é melhor que dez na mão dele. Eu sei fazer com que aquilo dê um resultado melhor para a sociedade, para a comunidade.

Texto: Leonardo Leal

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