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Estádio Juca Ribeiro: bons tempos aqueles!

Bons tempos aqueles! Ia domingo cedinho na padaria, pertinho do Juca Ribeiro. Tio Zé David, o zelador de anos e anos, com a lentidão da idade, marcava caprichosamente o gramado bem cuidado. Seu filho, o menino Chu, e seus amigos colocavam as redes nos gols. Outros varriam as arquibancadas. Quem ajudava o tio entrava de graça nos jogos, no máximo cinco garotos. Quantas vezes, na panificadora, tomávamos café ao lado de alguns de nossos ídolos que jogariam à tarde. Até comentavam conosco o desafio que enfrentariam naquele dia. O craque Reis explicava:
– O lateral Pedro Paulo, do Cruzeiro, é muito forte. Não posso deixá-lo encostar o corpo em mim. Só parto pra cima dele com bola dominada. O resto é ser levado pelos gritos de alegrias das arquibancadas. É nesse momento que as criatividades aparecem em nosso repertório.

Imaginou, amigo leitor, um papo solto desses com o ídolo de sua admiração hoje? Que luxo, hein? Não existia concentração. À tarde, aquele cenário de paz, vazio e sereno, se transformaria num formigueiro alucinante de paixões, amor, alegrias e frustrações. Essa é a lei do futebol. O jogo seria às 16 horas, contudo, às 13 horas, todos os portões estavam lacrados. Não cabia mais ninguém. Boa época? Não sei… A única certeza é que haviam vendido quase 20.000 ingressos. Juquinha bufando de cheio. Para trocar ideias, teria que sair do estádio.

Desconheço a razão, entretanto, a massa sentia-se mais feliz, apesar do maiúsculo desconforto, inclusive o sol escaldante beijando a face de todos. Hoje, essa felicidade do povo seria condenada pelos donos da verdade em manchetes garrafais na mídia uberlandina. O futebol no tapete verde superava todo o sofrimento do torcedor.

Era colírio assistir aos shows de Tostão, Dirceu Lopes, Wilson Piazza, Raul, o goleiro da camisa amarela. Raul fazia de suas defesas um espetáculo à parte. Cheio de estilo e gestos milimetricamente estudados. Transformava seu pequeno espaço de guarda-metas num palco luxuoso de teatro. Não havia jeito de a torcida ignorá-lo. Os namorados e esposos não conseguiam frear os chiliques de suas amadas no carinho pelo Raul. A única vingança era chamá-lo de bicha! Tudo, um divertimento à parte! O Dadá Jacaré, nada mais que um grande palhaço. Entrava em campo. Corria para frente do povão e dizia: “Vou meter um gol em cima de vocês!”. Saía sorrindo. Saía aplaudido! Por outro lado, o Verdão não devia nada. Tinha Fazendeiro, Reis, Ferreira, Quinzito. Eram outros tempos. Não havia galeras organizadas. As torcidas se misturavam. Vibravam nos gols de seus times preferidos, lado a lado. O máximo que acontecia era sonora vaia. No alçapão da Floriano Peixoto, até os grandes da capital tinham minoria ínfima na assistência para apoiá-los. O alarido da Nação Esmeraldina sufocava tudo, com as jogadaças e os dribles desconcertantes do terrível Reis, parecendo um bailarino com a bola nos pés, as cabeçadas fatais de Ferreira ou as investidas mortais indecentes de Fazendeiro, deixando zagueiros famosos estendidos no gramado com suas fintas secas. Talentos que sufocavam qualquer tristeza ou mau humor dos presentes.

Da janela de minha casa, minha mãe assistia à multidão transitar na rua da frente. Pelos comentários, ela sabia se o Verdão fora ou não bem. Através destes, saberia a qualidade da carranca que meu velho exibiria ao chegar do Juquinha.

Texto: Lucimar César

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