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Entrevista da Semana: Felipe Maia, um nadador versátil que se destaca na natação em Uberlândia

Felipe Maia conquistou cinco medalhas no campeonato de natação o World Master Games 2017.

O nadador Felipe Maia segue com a motivação de quando começou a praticar a natação para competir, aos 15 anos. Depois de se dedicar totalmente ao esporte por 16 meses, o atleta voltou dos Jogos Olímpicos Master em Auckland, na Nova Zelândia, com duas medalhas de ouro, duas de prata e uma de bronze nas seis provas de que participou em abril. Em entrevista a O JORNAL de Uberlândia, ele fala que o resultado superou as expectativas previstas, do começo na prática do esporte e de como vê a modalidade hoje em Uberlândia e no Brasil. Leia abaixo os principais trechos.

Como foi a sua participação nos Jogos Olímpicos Master que aconteceram na Nova Zelândia, em Auckland, de 19 a 30 de abril?

Os Jogos Olímpicos Master são o maior evento esportivo amador do mundo. Eles reuniram 28 mil atletas em diversas modalidades como basquete, futebol, natação, ciclismo.

Foi uma experiência muito boa. Competi na categoria 30+, na natação. Nas provas que eu nadei, sempre tinha mais de 80 participantes. Participei de seis provas e trouxe para o Brasil duas medalhas de ouro, duas de prata, uma de bronze e fiquei em quinto lugar em uma das provas.

As medalhas de ouro foram nos 400 metros medley (que são os quatro estilos: borboleta, costas, peito, crawl) e no revezamento 4 por 50 livre. As de prata foram em 200 metros medley e no 4 por 50 medley. O bronze foi nos 100 metros livre. Representei o Brasil na competição que une vários nadadores de todas as regiões do País. Formamos a Delegação Brasil Master, com 21 atletas.

De que forma você se preparou para essa competição?

Eu me preparei por 16 meses, desde janeiro de 2016. Conversei com meu treinador, com meu preparador físico, que a meta era conseguir uma medalha nesse campeonato. Não importava qual, eu queria subir no pódio em ao menos uma prova. À medida que fui treinando e meu rendimento foi melhorando, percebemos que era possível, às vezes, conquistar um ouro ou nadar em mais de uma prova e conquistar mais de uma medalha. Graças a Deus, conquistei esse resultado.

Vivi 16 meses pensando nesse campeonato, abdiquei de tudo, cumpri uma dieta severa. Foi uma preparação total, 100%. Treinava 1h30 dentro d’água e 1 hora fora, de segunda a sábado.

Após os resultados alcançados nas provas, qual a sua avaliação?

Superou as expectativas, porque eu, com 34 anos, o que é considerado velho para a natação, consegui fazer a melhor marca da minha vida, com 4 min 58 seg, nos 400 metros medley, em que ganhei a medalha de ouro. Há 15 anos, eu havia feito 4min e 59 seg, ou seja, a probabilidade é quase zero de uma pessoa melhorar tempo, com 30 anos. Graças a Deus, deu certo, além de ganhar ouro, bati minha própria marca, uma superação que não tem preço.

Como você conheceu a natação e resolveu praticar profissionalmente?

Com três meses de idade, eu tinha muita crise alérgica, bronquite, rinite, sinusite. Por isso, o médico aconselhou minha mãe a me colocar na natação, que era, teoricamente, o melhor remédio. Então passei a praticar a natação para curar as alergias. Isso melhorou minha saúde. O objetivo principal foi atingido, depois vieram os tempos. Com 15 anos eu decidi levar a natação a sério e competir profissionalmente.

A partir do momento em que você decidiu competir, como foi sua dedicação, preparação e motivação?

Tive um treinador, o Eduardo Henrique Domingues, que viu bastante potencial em mim e decidiu investir na minha potencialidade. Graças a Deus, deu frutos.

Comecei a carreira aos 15 anos, o que é considerado um pouco tarde. Geralmente se começa com 7, 8 anos nessa atividade. Na primeira participação do campeonato mineiro, eu fiquei em oitavo lugar. Lembro até hoje, em 1998, em Belo Horizonte, nos 100 metros costas. Que já era um sucesso, uma realização total. Competi pelo Praia Clube, na época com os atletas do Minas Tênis Clube, que hoje são a melhor equipe de natação do País, com atletas de ponta.

Quais foram as outras competições em que você se destacou?

No ano 2000, eu estava bem evoluído, fui convocado pela Seleção Mineira de Natação e fui disputar o campeonato brasileiro. Nessa participação eu consegui o 3º lugar no revezamento, 4 por 50 livre. Até hoje é uma das medalhas mais importantes da minha vida.

Quando você ganhou a primeira medalha de ouro?

A primeira medalha de ouro foi também em 2000, num campeonato estadual aqui em Minas Gerais, nos 400 metros medley, em que consegui o primeiro lugar. Por ironia, foi a mesma prova em que ganhei medalha de ouro nos Jogos Olímpicos Master em Oakland.

Foi um momento e uma sensação única. Vi que todo o esforço tinha valido a pena, consegui ser o melhor do Estado no Campeonato. Cada vez mais a motivação aumentava para continuar treinando.

Como o atleta desenvolve e trabalha a motivação?

A natação é um esporte muito individual, depende muito da pessoa. Muitos a chamam de esporte solitário, porque o nosso passatempo é contar azulejo. Não tem bate-papo, é sempre a cabeça dentro d’água, batendo perna, batendo braço, rodando, rodando. Então, a motivação funciona vindo da própria pessoa. Vendo a sua evolução, seu próprio estímulo, melhora de tempo, rendimento.

E claro, tem o suporte que são a família, os amigos, os companheiros da piscina e o treinador. Todos os treinadores que eu tive até hoje são meus mentores. Respeito-os grandiosamente e devo muito a eles, porque, sem eles, a pessoa não chega a lugar nenhum.

Quais as outras competições em que você se destacou?

Em 2003, eu entrei na categoria Master, que é a partir de 20 anos. Comecei a participar de mais campeonatos de outras federações. Porque tem a Federação Não Master e a Master. Então passei a participar de mais campeonatos estaduais, nacionais e internacionais. Em 2011, fui para o Pan-Americano Master no Rio de Janeiro, nesse campeonato consegui duas medalhas de ouro, cinco de prata e uma de bronze. Em 2014, fui para a Argentina, no Sul-Americano. No ano passado participei do Sul-Americano no Uruguai. Em 2012, fui para o mundial da Itália e, este ano, para a Nova Zelândia.

Qual a competição que mais te marcou, ficou na memória?

Cada uma tem o seu valor, cada uma a gente busca uma forma de motivação, uma inspiração de um momento único. A da Argentina me marcou muito porque foi meu primeiro título sul-americano, ganhei três medalhas de ouro: 200 metros livre, 100 metros livre e 100 metros medley. Em 2016, no Uruguai, foi a primeira vez em que nadei em oito provas e consegui medalhas em todas, sete de prata e uma de bronze.

Na competição na Itália, consegui ficar entre os oito melhores do mundo. A da Nova Zelândia foi a que consegui melhores resultados nos meus 30 anos de natação.

Quais as suas características de competição como atleta?

Sou um nadador de Medley que abrange os quatro estilos. Isso proporciona para mim a participação em uma variedade maior de provas. Consigo nadar os estilos borboleta, costas, peito e crawl, de 50 a 200 metros, todas as metragens. Sou um atleta versátil.

Os atletas vivenciam muitas dificuldades no decorrer da carreira esportiva?

A principal no Brasil, infelizmente, é a falta de apoio financeiro. Essa é a principal dificuldade, a falta de uma empresa te patrocinar, de um clube te patrocinar, uma vez que os custos são altos, passagens aéreas, hospedagens, alimentação. Se vier do seu bolso, por exemplo, o sacrifício que eu fiz de trabalhar o triplo para conseguir me manter. Mas têm muitas pessoas que não têm essa condição, acaba que são talentos desperdiçados.

Qual a avaliação que você faz da natação como modalidade esportiva em Uberlândia atualmente?

Já foi melhor há uns 15 anos. Hoje em dia a natação de Uberlândia se consolidou e se concentrou no Praia Clube. Antigamente tinha o UTC, que é considerado um dos principais clubes do Brasil, em revelação de atletas e treinadores de alto nível. Tinha o SESI, que ainda tem, mas não consegue manter os atletas por falta de apoio. Antigamente, na própria região do Triângulo, tinha em Araguari, Patrocínio, em Patos de Minas. Uberaba, por exemplo, não tem uma equipe competitiva, antes tinha.

Houve uma grande redução do número de participantes, como também dos locais de treinamento para nadadores nos clubes. A queda foi de mais de 50%. Essa redução foi influenciada pela situação econômica do País, crise financeira. Há falta de investimentos, tanto pela situação financeira, como pelo interesse dos empreendedores.

Querendo ou não, nós vivemos no país do futebol, tudo que gira em torno do futebol tem apoio. Mas, quando sai dessa esfera, vôlei, basquete, natação, tudo falta um incentivo maior. E isso desestimula o praticante.

Qual sua sugestão para melhorar a natação profissional na cidade?

Muitas megaempresas estão em Uberlândia, elas poderiam estar fazendo o berço de muitas modalidades esportivas. Está aumentando, mas ainda há muito espaço, poderia dar uma alavancada muito maior.

Se as grandes empresas patrocinassem alguns atletas, elas incentivariam as pequenas e médias empresas também a patrocinarem, porque tem uma série de benefícios que elas ganham, como a isenção de impostos. Elas saem ganhando, mas falta esse primeiro passo. Tem muita gente boa, em várias modalidades, que para porque não tem estímulo, precisa ganhar dinheiro. A família não consegue sustentar a pessoa. Ela vai trabalhar e para de praticar o esporte.

Como um veterano, qual o conselho que você dá para os jovens que querem se destacar no esporte?

Acredite em si mesmo, vão ter muitas pedras no caminho, muitas dificuldades. Acredite em si mesmo, se empenhe, se esforce, porque nada vem de graça. A recompensa vale muito mais do que qualquer esforço que a pessoa tenha feito.

Texto: Leonardo Leal

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