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Chegar atrasado não é bonito

Você quase não leria esse artigo. Mandei atrasado pra O JORNAL. Ah, mas quem manda no dia certo?

Alguém. Justamente aquele que pegará sua vaga no trabalho ou aproveitará uma oportunidade que seria sua, justamente por estar lá antes de você. O atraso virou sistêmico. Um dos mais horrorosos hábitos culturais de um povo que não respeita os prejudicados por tamanho menosprezo.

O show começa as dez? Vou às onze, afinal nem a plateia respeitará o artista chegando mais cedo e nem o artista respeitará o povo subindo ao palco na hora certa. E assim vale pra tudo. O casamento que atrasa, a reunião que enrola, o evento que nunca é pontual. E quando alguém se atreve a cumprir o horário, logo vira o intolerante.
“Absurdo, nem esperou 5 minutinhos.”

Absurdo é você não comparecer quando deveria, amigo. E assim, nessa terra de ninguém, os pontuais acabam virando exceção à terrível regra. O cerimonialista vira “chato”, o artista vira “criterioso”, o estudante vira “cdf”. Mas ninguém vira simplesmente “normal”, como deveria.

Acham que chegar mais tarde os faz parecer importantes, ocupados, alguém que definitivamente não são.
Tenho uma teoria na qual comprovo o atraso como um dos problemas geográficos que a colonização distribuiu em intensidades que se diferem conforme o acesso à civilização se deu nos cantos do país. Repare só: nos países ocidentais colonizados pelos europeus, o Oeste sempre ficava por último. Quanto mais a oeste, mais tempo se esperava por civilidade, parâmetros, regras. Daí as histórias do “Velho Oeste”, “Faroeste”, “bang-bang”.

No nosso país também: quanto mais adentramos o continente, menos civilidade vemos em várias áreas: no trânsito, nas ruas, no convívio social. Os donos da razão duelando em tudo e fazendo as próprias regras e horários. Então se explica porque tanto se chega atrasado aqui por essas bandas de Uberlândia e do Brasil Central. E os poucos que se atrevem a ser corretos têm que ser os mais pacientes. E por falar em pacientes já entramos em outra área campeã de atrasos: o consultório. São incontáveis os atrasos de pacientes e absurdamente grandes os atrasos de médicos. Assunto que merece até um artigo à parte, afinal, nossa página acabou e talvez seu tempo, também. Antes que mais alguém se atrase.

Texto: Daniel Labanca
Comunicador e diretor de cena. Por enquanto, só.

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