Esportes Expresso Futebol

Histórias do futebol

Havia inúmeros campos de futebol de saibro inundando as vilas de nossa cidade. O treinador, um senhor João qualquer, querido pelo povo, batia o olho num terreno baldio e pronto. Lá seria o alçapão do time da sua vila.

Um negócio sério. Quem morasse no bairro, não poderia jogar por outro povoado. Considerava-se traição grave. A Prefeitura plainava o terreno. Os gols e as redes, a comunidade doava ao novo time do coração. Em volta do campo, mais de mil pessoas assistindo aos jogos pegados. Pipocas, espetinhos, vendedores de frutas faziam parte do ambiente. Uma confusão e desordem organizada! Vencer fora de casa era quase impossível. A pressão sobre a arbitragem fazia o homem de preto ser caseiro, já que não existia policiamento algum.

Havia árbitros diferenciados: Nelson Paganini, Rubiquinho despontavam com enorme prestígio. Não se deixavam levar pela pressão. No peito e na raça, encaravam a galera, sendo bastante respeitados.

Lembro-me de um jogo eletrizante entre Mogiana e S.E. Aparecida, num campo que existia na Benjamin Constant com a Rua Prata. Espaço lotado! Nem carros conseguiam passar pela rua. Um jogadaço! Lá e cá! Vaguito, goleiro do Aparecida, pegando tudo. Fazia defesas miraculosas. O becaço Paulo César Martoli tirando bola de sua área de qualquer jeito. Sofria demais com as incursões de Pai Nego e Jayme, duas grandes estrelas do campeão da cidade, Mogiana. Numa escapada, Gatinho fez 1 x 0 Aparecida. A rua explodiu de euforia. O Mogiana era o melhor time da cidade. A companhia de estrada de ferro lhes pagava bem nos seus empregos. Tanto que recusaram propostas para jogar até no Verdão da Floriano Peixoto. Ganhar deles era uma zoação, o mês inteiro, no mundo da bola da região.

No apagar das luzes do espetáculo, a Vila Operária já comemorava a vitória do seu Aparecida da camisa amarela. Pai Nego tabelou com Jayme, numa bola longa espichada do José Macaco. Driblou o becão Tõe Caolho e o volante Nego Pedreiro. Entrou na meia-lua, trombou com o ponta Coelho, que recuava para auxiliar a defesa. Levantou mais rápido, driblou Vaguito, que saiu do gol, desesperado. Quando ia fuzilar as redes inimigas, Paulo Martoli deu um carrinho, levando tudo, menos a pelota, para o fundo das redes. Duas mil pessoas gritaram bravamente: “Foi na bola! O Paulo pegou só a bola!”.

Nelson Paganini estufou o peito. Fez uma pose à la Cristiano Ronaldo. Só faltou o placar eletrônico para sua pose na exibição. Meteu o dedão para a marca da cal e deu a penalidade máxima. O povão fechou o tempo. Só se via a ex-cabecinha loira do senhor Nelson naquele caldeirão enfurecido. Um por um, educadamente, o corajoso árbitro pediu para se retirar do campo.

Após quase 20 minutos, bola na pinta máxima. Vaguito dançando para lá e para cá. Pai Neguinho, fazendo firula, colocou a gorduchinha onde a coruja dorme. Vaguito voou bonito. Deu uma casquinha sutil na bola. Ela caprichosamente bateu no travessão e saiu para a linha de fundo. Não deu para segurar a avalanche de gente. As quatro linhas foram tomadas literalmente de alegria e felicidade. Nelson Paganini foi elogiado pelos dois times gigantes no final da batalha.

Muita saudade dessa época!

Texto: Lucimar César

Notícias relacionadas