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Caminhando com olhos bem abertos

Uma lógica antiga (Heráclito, 540 a.C. – 470 a.C.) para nos acolher diante dos inevitáveis tropeços desta vida lembra: “De permanente, só a mudança”. Penso, contudo, que em cada etapa histórica, ou em cada geração, ou tropeço, a essência dessa frase faz-se presente com um colorido próprio.

No momento atual, ponho-me diante de uma série de alternativas para as quais encontrei – e divido com todos – uma referência literário-poética para o inesperado e suas consequências do agora: o Cisne Negro (Cygnus atratus), ave natural da Austrália e acidentalmente introduzida na Europa, para pasmo geral, a partir da expedição do capitão James Cook (1770). Não apenas para ornitólogos, mas para o público em geral, o contraste era evidente em cada jardim público (aquilo existe e é um cisne negro, diferente!).

Sim, mas como tais fatos nos alcançam?

A associação factual na busca de uma ilustração, de uma associação plausível para ocorrências ou opções diante do inesperado de cada dia, isso devemos ao Ph.D Nassim Nicholas Taleb, decano em Ciências da Incerteza, autor reconhecido na Europa e nos EUA de obras como “A lógica do cisne negro – gerenciando o desconhecido” (Ed. Best Business, 2016).

Nessa seara, fugindo de dissertações exaustivas – estas, a cargo de cada leitor –, identificamos alguns “cisnes negros” que nos cercam e características que possam dirigir nosso passo além do impacto inicial.
Creio que o mais evidente seja a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA. O que trouxe? O “conceito econômico” de que a interdependência fere a soberania; o sedutor, aleatório e ineficaz emprego de meios militares (superbomba e mísseis); a relativização de instituições transnacionais, como a OTAN, a UE e a OMC. Qual será o cenário consequente?

De teor análogo, contemplamos outros “cisnes”: no Brexit, os custos econômicos, sociais e políticos começam a ser contabilizados pela Inglaterra, e temidos; o acelerado avanço do programa nuclear da Coreia do Norte, acarretando dúvidas sobre a arquitetura da não proliferação; o terrorismo transfronteiriço, em suas articulações de recrutamento e execução; a recente eleição presidencial francesa, com preliminares e resultados que repercutem no mundo, particularizando as gestões sobre o Brexit inglês, a ideologia do governo Trump e a “estratégia” da Rússia, de Putin; e bem próximo de nós, geograficamente, a incerteza gerada pelo colapso do bolivarianismo, em seu berço venezuelano.

Dediquemos, agora, nossa atenção ao panorama nacional. Que descobertas nos surpreendem?

Emergindo em 2014, quase simultaneamente a um impeachment incompleto, à luz da Constituição, nos defrontamos com o maior processo de investigação e condenação de agentes do Estado, sobre corrupção, lavagem de dinheiro e propina em benefício de personagens, particularmente, do Executivo e Legislativo, nos três níveis da República. O total desviado, segundo a Coordenação dos Trabalhos pela Procuradoria Geral da República, alcança o total inacreditável de R$ 200 bilhões, desviados anualmente, originados de obras públicas superfaturadas e instituições estatais, como a Petrobras e o BNDES.

Tais fatos, enfim, já se constituem em domínio público e sua extensão e profundidade, bem representados por importante semanário nacional em abril último, ilustrando o impacto, além de toda e qualquer previsibilidade – nosso cisne negro –, com a caricatura das Armas da República, encimada pelo lema “República Federativa da Odebrecht, com a goela muito aberta”.

Concluindo, cabe lembrar, por óbvio, que o horror de um morticínio sem paralelo orquestrado pela Coreia do Norte, passando pelas migrações desestabilizadoras, limpezas étnicas, fome e o mais que nos aterroriza a cada dia, enfim, tudo que constitui a essência de um “desconhecido” ou do “cisne negro” traz como contraparte, à luz da História, que a capacidade de reconstruir e reforçar sociedades faz parte do fator humano, presente, por exemplo, na motivação que derrubou o Muro de Berlim. E que todo processo de mudança é uma construção coletiva e, por isso, em nosso tempo, talvez mais do que nunca, é preciso caminhar com os olhos bem abertos.

Texto: José Augusto de Barros

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