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Magnitude do futebol!

No final dos anos 60, Tostão era a maior estrela do Cruzeiro, dentro de uma enorme constelação. A Raposa fazia jus ao nome de “Estrelado”. Compunha-se de craques fora de série. Raul, Piazza, José Carlos, Dirceu Lopes, Natal e muitos outros.

Tostão contrariava tudo que o futebol exigia. Frágil, culto, calado, humilde, evitava badalações e microfones. Fazia gols quando não tinha opção, mesmo. Preferia servir os companheiros, botando-os na cara do gol, com passes magistrais, mamão com açúcar. Em plena era Pelé e Santos voando, Tostão comandou um humilhante 6 a 2 em pleno Mineirão, conquistando a Copa Brasil.

Em 12 de junho de 1969, Tostão foi convocado para a Seleção Brasileira, num jogo contra a Inglaterra, no Maracanã. Nessa época quem mandava na CBD, e não CBF como é hoje, eram os cariocas e os paulistas. A convocação do mineirinho calado e tímido dava indigestão na grande mídia fora de Minas. Alegavam que Tostão não poderia jogar ao lado de Pelé. Ocupava os mesmos espaços no gramado do rei.

Cabeça fria e centrado, Tostão ignorava essas opiniões parciais e apaixonadas. Eu achava espetacular a frieza de Tostão. Num espaço onde mal cabia a gorduchinha, conseguia dar uns dribles secos, deixando os zagueiros sem pai, nem mãe. Parecia fantasia vê-lo deslizar nos tapetes verdes com sua elegância primorosa.

Nesse 12 de junho, Brasil e Inglaterra se enfrentavam no maior e mais famoso estádio do mundo. Os ingleses se compunham de zagueiros fortes, gigantes. Tostão, com seu 1,72 m, entre aqueles monstros, não conseguia dominar as bolas, que lhe chegavam quadradas, pipocando ou no chuveirinho.

Na época, brilhava o locutor Valdir Amaral, da Rádio Globo do Rio, também mais badalado do País. O aparelho de televisão existia apenas nas residências de classe média alta.

Os ingleses davam um vareio de bola no Brasil. Tomarmos um gol seria questão de minutos. Não suportando a paixão exacerbada, irritado, o grande Valdir Amaral desabafou no seu famoso microfone, durante sua narração:

– A torcida brasileira sabe que não aprecio dar opiniões no ar. Abomino palpitar. Entretanto, é cristalino que esse Tostão não está à altura do escrete canarinho. Pode ser bom lá para os mineiros. É mais um que joga apenas no seu time. Na Seleção Brasileira, a camisa amarela pesa demais. Não é qualquer um que está à altura de vestir esse manto sagrado.

Nisso…

– Desce mais uma vez o Brasil para o ataque. Recebeu a bola Tostão! Querem ver? Vai perder a jogada de novo! Ainda Tostão! Prende a pelota demasiado! Fintou o becão Norman! Driblou mais um! Mais outro! Solta essa bola, mineirinho! Invadiu a área. Cortou o goleiro! Goooolllll do Brasil! Gol de placa do ousado Tostão! A galera levanta e explode o Maracanã de alegria! Tostão! Tostão! Tostão! Indivíduo competente, o Tostão! Que loucura esse Tostão!

Foi aí que Valdir Amaral mostrou sua grandeza:

– Desculpem-me, ouvintes! Detesto dar minha opinião no ar! E quando o faço, fui infeliz! Esse gênio de Minas queimou minha língua. Queimar, não! Torrou minha língua!

Nos programas em que assisti ao Valdir Amaral atuar, sempre ele lembrava esse fato!

Essa é a beleza do futebol!

Em outras oportunidades falaremos mais do simples e discreto Tostão!

Texto: Lucimar César

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