Destaque Música Rock

Um adeus a Gregg Allman

Gregg Allman performs at The Fox Theatre in January 2014, in Atlanta, Ga.
MICHAEL LOCCISANO / GETTY IMAGES

Anderson Tissa, autor da coluna “Vida Longa, Baby”.
Imagem: Douglas Luzz

Meus dois últimos textos para esta coluna foram sobre roqueiros que infelizmente nos deixaram. Chris Cornell e Kid Vinil mereciam uma dedicação maior de minha parte ao mencioná-los como ícones do rock neste espaço. Eu deveria ter pesquisado mais, caprichado mais e me dedicado mais ao escrever sobre esses dois importantes personagens. Por mais que tenha me empenhado, releio os textos e vejo que poderia ter sido melhor. Queria ter contado um pouco mais, apresentado mais detalhes da carreira e personalidade de cada um. Ao mesmo tempo percebo que se tivesse escrito os melhores textos da minha vida, não seriam suficientes para ilustrar tamanha grandiosidade de Chris e Kid.

Hoje me encontro novamente com o mesmo sentimento. No último domingo, levantei da cama, tomei um banho e após o café da manhã, abri o navegador para ler as notícias. Dei de cara com a manchete da morte de Gregory LeNoir Allman, o multi-instrumentista, cantor e compositor Gregg Allman. Para quem não o conhece, ele, junto ao irmão Duane (o Cachorro Louco), fundaram a minha banda preferida e uma das mais influentes de southern rock, o Allman Brothers.

Greeg Allman não fica atrás para nenhum gênio do rock. Nenhum. Sua mente é tão ou mais criativa que grandes nomes, como: Paul, Freddie ou Zappa. Foi um artista provocativo. Antes mesmo do Allman Brothers, misturou brancos e negros numa mesma banda, caso que preocupou sua mãe. Influenciou e inspirou até quem não era da música, o jornalista Cameron Crowe produziu o filme Quase Famosos (2000) por conta de uma entrevista cedida por Greeg. Gostava de fazer diferente, colocou dois bateristas na banda e deu certo. Sem contar o talento estrondoso para a composição, escreveu hinos como: Midnight Rider, Whipping Post e Dreams.

Gregg se foi no sábado (27). O músico sofria de diversos problemas de saúde, foi diagnosticado com hepatite C, em 1999, e passou por um transplante de fígado em 2007. Faleceu de maneira pacífica em sua residência em Savannah, na Geórgia. Em sua autobiografia My Cross to Bear (2012), Gregg relata sua meteórica ascensão a fama, seu romance com a estrela pop Cher, o alto consumo de drogas e seus diversos casamentos. Uma vida nada fora dos padrões para um rock star.

Uma coincidência me chamou a atenção. Gregg partiu aos 69 anos. E sua banda, o Allman Brothers, nasceu em 69. Curioso, não? 1969 foi categórico para o rock. Os Beatles lançaram Abbey Road, o Led Zeppelin chocou o mundo com seu primeiro e clássico álbum homônimo, o Jethro Tull estava no segundo disco Stand Up, David Bowie apresentou o seu maior single Space Oddity, no Brasil, os Mutantes já estavam há três anos na estrada; em agosto, ainda aconteceu o lendário festival Woodstock, e três meses depois, surgiu o som dos Allmans, uma fusão de country blues com muito improviso. E foi um absurdo.

A banda acabou em 1975. Nessa altura Duane Allman já estava morto a quatro anos depois de um trágico acidente de moto, o restante do grupo não controlava seu alto apetite pelas drogas, e Gregg sofria com grau de exposição após seu casamento com Cher. Apesar do fim do Allman Brothers, Gregg continuou sua carreira solo. Em 89, a banda ganhou uma nova formação e entre idas e vindas, tocaram até 2014. A última vez foi em NY.

Greeg Allman será um nome imortal no mundo da música. Merece porque sua obra toca de verdade. Ao ouvir, você vai sentir aquela voz rouca e grave cheia de tristeza, calejada e distante. Mas sempre, independente do que a letra quer dizer, transmitindo esperança. Na verdade é um baita som caipira repleto de sentimento em cada nota e verso.

A playlist do dia reúne alguns clássicos do Allman Brothers e canções da carreira solo de Gregg Allman.

Texto: Anderson Tissa

Notícias relacionadas