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Entrevista da Semana: Coronel Jayme fala das ações em prol da ADESG e do momento atual do Brasil

Foto: Leonardo Leal

Após servir 40 anos no Exército Brasileiro, o Cel. Jayme Pinto Jorge Filho aceitou o desafio de colaborar com a ADESG (Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra). Nos últimos 20 anos, ele tem trabalhado na formação dos alunos do CEPE (Curso de Estudos de Política e Estratégia), contribuindo com sua experiência profissional e buscando novos conhecimentos para compartilhar com os estudantes. Em entrevista a O JORNAL de Uberlândia, ele fala das ações formativas da ADESG, da situação política do País e relembra alguns momentos de sua carreira como militar. Leia abaixo os principais trechos.

O senhor foi diretor de ensino da ADESG (Associação de Diplomados da Escola Superior de Guerra) e atualmente segue como professor da entidade. Como foi o início do trabalho e como está a continuidade das ações?

Conheço a ADESG há 20 anos. Nesse período, muitas folhas de papel rodaram através dos meus computadores, das minhas impressoras, para que os cursos pudessem se suceder. Era o 6º CEPE (Curso de Estudos de Política e Estratégia). Hoje estamos no 20º. Apesar de eu estar há 20 anos ligado à ADESG, em alguns anos não houve cursos, foram 20 menos 5. Esse é 15º CEPE de que vou participar.

Houve já tempos em que o curso foi um convênio com a UNITRI e teve um valor de pós-graduação. Não creio que ter valor de pós-graduação seja algo que chame atenção e que atraia o pessoal para fazer. Então, a finalidade nossa está em fazer com que o indivíduo tenha consciência do papel do cidadão, do papel das instituições sociais e das instituições de governo. Isso é o que tem sido privilegiado no conteúdo programático dos cursos de estudos realizados ao longo do tempo.

Como se originou a ADESG em Uberlândia?

Começou em 1973 em Uberlândia. De sua origem até 1997, foram feitos seis CEPES, em 21 anos. De lá para cá, nós tivemos mais sucesso porque conseguimos implantar uma estrutura de ensino que se assemelha a tudo o que existe nas instituições de ensino de nível superior.

Além da pequena divulgação, a ADESG é pouco conhecida. Qual a área de atuação da associação?

Nunca houve uma possibilidade de uma projeção maior da ADESG. Não são muitos que conhecem. Quando se fala em “Superior de Guerra”, pensam que é algo voltado para a guerra, e não é. A doutrina, naquela época, se fazia transmitir através da ESG (Escola Superior de Guerra), então a ESG estuda os destinos do Brasil. Para estudar o destino do País, tem que estudar política, e para isso é preciso saber como aqueles que estão nessa sociedade política conduzem o destino através dos regulamentos, das normas e do uso do poder, utilizando os recursos propiciados ao governo para que ele possa exercer a ação de governo e a manutenção de tudo que é necessário para que a sociedade funcione organizadamente.

A bagunça de hoje [na sociedade] é uma deformação fruto de um período em que a evolução social não se faz com prevalência da área do conhecimento, e sim através de busca de objetivos que eles queriam ver abreviadamente serem atingidos, em vez de se preparar, de se organizar e trabalhar para que isso pudesse ser alcançado.

A educação e a ampliação do conhecimento são os principais aspectos na formação dos alunos?

Sempre a ESG primou por uma filosofia que não é própria dela, vem do século XIII, com São Tomás de Aquino, que diz o que é o bem comum. É exatamente um ideal que deve ser buscado pelo cidadão, que, além de traduzir um nível de desenvolvimento dele, o promove numa visão de cultura, que ele tem uma compreensão, e que o homem é um ser que deve ser espiritualizado. Ele tem que acreditar em algo que o envolva e seja capaz de reforçar os seus estímulos para que busque, através do trabalho e dessa estrutura de organização, alcançar melhores níveis de vida.

O conhecimento é muito interligado, você não convive na área da Psicologia, ou só da Política, você se vale de uma gama de conhecimentos para fazer um curso de Política e Estratégia. Pela natureza do curso, o trabalho do grupo de estudos é privilegiado, mais ainda, você tem que se enfronhar nesse conviver, nesse aceitar, e se envolver em termos de problemas que antes você não tinha a habilidade e a capacidade de participar deles e entendê-los. Agora, passa a percebê-los e encontrar alternativas.

As áreas da Psicologia, da Filosofia e da Sociologia deveriam estar em todos os currículos. Para dizer assim, a busca do saber está onde? Está na pergunta, na indagação. Você é capaz de indagar? Formular alguma pergunta? Isso é Filosofia. Quem eu sou? De onde venho? Para onde vou? Qual a minha missão?

Qual tem sido o papel do Exército na formação das turmas?

O apoio do Batalhão de Infantaria em Uberlândia tem sido fundamental para a ADESG. O atual comandante, o Cel. Marcus Vinicius, é uma pessoa espetacular, de uma visão muito boa, de um conhecimento e uma percepção de que todas essas áreas confluem para a formação.

Através do Batalhão, a gente considera que a sociedade uberlandense sempre tratou muito bem a ADESG, com seus recursos humanos, talentos que a gente vai buscar em todas as áreas, sem restrição. O importante é ser cidadão.

De que forma ocorre a formação e qual a mudança que acontece nos alunos ao participarem do CEPE?

Entre as atividades, levamos o aluno a Brasília. Eles passam a ter uma visão de onde trabalham os deputados, os senadores, conhecem o Gabinete de Segurança Institucional que o País tem. Quando vão a outros lugares, conhecem a Marinha de Guerra, o controle das rotas de chegada dos aviões, através da Infraero.

Ocorre uma grande diferença. Eles crescem ao longo de seis meses e aquilo que no início acham: “Aqui é ótimo, sabendo isso vou trabalhar de alguma maneira mais favorável”. Entretanto, é a história da gota d’água. É muito bom formar 20, 30, 40 alunos, mas em população somos quase 700 mil em Uberlândia, 200 milhões no Brasil.

Quais pontos de Política e Estratégia o senhor destaca do curso?

Dizem que a política é a arte de governar. Está nos faltando! E estão sobrando nichos de poder. A consciência de que essa capacidade de governar se faz num nível de conhecimento. Montesquieu pensou uma pirâmide de três faces em que tivesse um Executivo, um Legislativo e um Judiciário que, se bem organizados, seriam suficientes para fazer com que a democracia prosperasse. Essa democracia podia ser sob qualquer regime. Alguns países que adotam a monarquia, como a Inglaterra, são bem-sucedidos.

Como o senhor vê a situação política e o futuro do País?

A calamidade que assolou esse País, ultimamente, nos prejudicou muito, dilapidou os nossos recursos em termos de patrimônio, mas também em termos de dignidade de moral social, de poder se sentir orgulhoso daquilo que nossas empresas fazem e que o nosso poder político faz. Então, isso eu acho que é terrível.

Vejo com muito pesar, porque acho que tivemos décadas perdidas. O poder foi caindo em mãos de pessoas que construíram o poder de algumas organizações em detrimento do alimento que era para ser dividido com toda a sociedade.

Mas o progresso social se faz com marchas e contramarchas. Vivemos um período de grandes dificuldades por causa disso. Temos que superar isso. É preciso formar líderes capazes de enfrentar essas dificuldades e de vislumbrar soluções, porque nós não somos um mundo à parte, integramos um mundo globalizado e cada nicho de mercado tem que ser explorado.

O senhor vislumbra algum otimismo em relação ao Brasil para os próximos anos?

Quisera eu ter uma visão… Entretanto, cada pessoa que surge na esfera política com uma certa determinação, como o prefeito João Doria, de São Paulo, é uma esperança. Mas, tem que se confirmar por suas ações. Quando eu vejo a calamidade daquela Cracolândia… Meu Deus, quanto desperdício de pessoas, homens, cidadãos que não têm qualquer perspectiva. É uma tristeza. Agora, quando você vê um Estado Islâmico que também reúne recursos e é capaz de alimentar a guerra e que faz a conscrição de jovens que não têm esperança de alguma coisa e acham que vão para lá para lutar por um idealismo que não existe na nossa concepção… Então, também digo assim, nem tanto um lado, nem tanto o outro.

Como o senhor avalia a decisão do presidente Temer de convocar o Exército para proteger os ministérios que foram depredados em Brasília na quarta-feira (24)?

Avalio como uma necessidade urgente, imperiosa, porque o patrimônio está sendo dilapidado. E se não houve uma ação preventiva capaz de coibir, é necessário fazer uma ação repressiva para que aquele mal seja extirpado e as pessoas que o cometeram sejam responsabilizadas.

Mudando de assunto, como se deu a sua propensão para fazer parte dos quadros da Academia Militar?

Sou natural do Rio de Janeiro, de família de condições limitadas, perdi o pai cedo, éramos quatro irmãos, dois homens e duas mulheres, eu era o mais novo. Eles me ajudaram, sem sombra de dúvida, para que eu pudesse fazer o curso superior. Tivesse o descortino de fazer um curso superior.

O importante na vida é vida é você ter motivações que fazem com que você se impulsione e busque sempre objetivos e metas que possam satisfazer o desejo interior de cada um. Com isso, eu fui fazendo os meus estudos iniciais e prestei o concurso para a Academia Militar. O curso, na época, a academia era um templo maravilhoso que visitei e fiquei impressionado. Realmente, ainda é. Em Resende (RJ), a magnificência da obra, foi muito bem construída, muito bem edificada.

Fiz concurso na própria academia, o pessoal da capital do Rio de Janeiro ia para Resende para fazer o concurso. Fiquei entusiasmado quando vi as instalações da academia. Graças a Deus, fui aprovado, consegui fazer o meu curso.

Como ocorreu o desenvolvimento da sua carreira no Exército Brasileiro?

Fui para a Arma de Engenharia, lá, escolhi ir para o Sul do País, ter a minha primeira missão militar. Fui na época para um Batalhão Ferroviário, na cidade de Bento Gonçalves (RS), onde permaneci mais tempo do que devia porque a gente vai se apaixonando pela missão, vai procurando ficar, mas de lá eu rodei o Brasil, fui para a Amazônia. Da Amazônia, fui chamado para fazer um curso como capitão, já no Rio de Janeiro e, dali, voltei para ser instrutor da academia, já como capitão.

Passei um período lá e vim conhecer o Triângulo Mineiro, na cidade de Araguari, onde vivi um período prolongado, fiquei por cinco anos. Comecei a estudar na Universidade Federal de Uberlândia, não consegui concluir o curso porque fui chamado para outro curso da área militar.

Fui para o Rio de Janeiro. Assim, a vida da gente vai assumindo fisionomias de acordo com o ambiente em que você vive. A vida acadêmica é muito motivadora porque você se renova quando convive com a missão de formar oficiais.
Após o período em que cheguei a comandar o curso de Engenharia, cheguei a ser subcomandante do corpo de cadetes em Resende. Com isso vivi minha vida até passar para a reserva em 1994. Então, vim residir em Uberlândia e já estou aqui há 23 anos.

Qual foi o momento marcante de sua carreira militar?

O momento marcante é quando a gente consegue fazer o curso da Escola de Comando do Estado Maior do Exército. Porque o trabalho absorve muito, você só estuda problemas específicos, não estuda generalidades. A cabeça da gente começa a se abrir, por exemplo, eu vou para a Espanha, convivo com alemão, italiano, francês, sul-americano, norte-americano. Fiz o curso em 1984 e 1985 na Espanha, a gente tem um nível de convivência muito bom.

E como ação militar ou na formação de alunos, qual foi o momento que ficou na sua lembrança?

Sem dúvida que ser comandante de um curso de Engenharia na Academia Militar é uma responsabilidade e uma satisfação inigualável. Você sente que tudo que critica, agora passa a ser dono da solução. O que nos falta é isso. Cada um tem que se sentir responsável pela solução, e não um opinativo. “Ah, isso é errado”. E qual é o certo? Como que faz com essa lei que está entrando em tramitação? Eu acho que está certo aumentar o tempo de serviço. Servi durante 40 anos, e quando passei para a reserva, passei por força da lei. Não passei porque quero ir para casa para não fazer nada. Já tinha atingido o tempo de serviço e não podia continuar. Tanto que fui me dedicar a outras coisas, não foi para ganhar dinheiro.

Texto: Leonardo Leal

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