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Presidente da UNEDI destaca a reestruturação da entidade e o projeto de modernização do Distrito Industrial

Foto: Divulgação

José Humberto Resende de Miranda, presidente da UNEDI (União das Empresas do Distrito Industrial), em entrevista a O JORNAL de Uberlândia ressalta as ações de melhoria do Distrito Industrial, como o projeto de modernização. Ele também fala da ampliação do quadro de associados, da necessidade de mudanças na política, incluindo as reformas trabalhista e previdenciária, e está otimista com o País, no médio prazo. Leia abaixo os principais trechos.

Como tem sido o seu trabalho à frente da UNEDI?

De 2001 a 2007, fui presidente da UNEDI; estou nesta nova gestão que começou no final de 2015 e vai até o final de 2017. O meu compromisso tem sido de reestruturar novamente a associação, é o que estamos fazendo. Havia um nível de endividamento, a gente vem trabalhando esse endividamento; tinha uma série de ações de caráter estrutural, estamos ajustando. Então, espero passar para próxima gestão com uma estrutura financeira em dia, uma base de aliados um pouco ampliada, porque ela já dobrou. Também, um dos propósitos é o projeto de modernização do Distrito Industrial. Agora, com relação à parte de representação das empresas, acredito que a gente vem conseguindo fazer com certa presteza.

Quais são as ações e os projetos em andamento na entidade?

Criamos, em parceria com a CODEMIG (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais), com a FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) e buscamos também a prefeitura de Uberlândia para implementar o processo de modernização do Distrito Industrial de Uberlândia. Esse projeto, trabalhado com essas duas instituições, tem o objetivo de atuar em alguns distritos do estado, Uberlândia é um deles. Então, criamos um comitê de governança envolvendo todas as entidades com o intuito de trabalhar projetos de viabilidade de implementação.

Estamos orientados a pegar projetos com capacidade de viabilização no Distrito Industrial, como, por exemplo, o alargamento das ruas, o sistema de iluminação, novos acessos ao distrito para melhorar a logística de chegada das empresas. Um sistema de segurança através de câmeras de monitoramento, tipo olho-vivo. O intuito é desenvolver algumas parcerias para minimizar o impacto no orçamento do município, se possível. O importante é ter viabilidade.

O senhor poderia detalhar alguns dos projetos?

Estamos trabalhando com o projeto de alargamento de ruas, porque o Distrito Industrial foi concebido em uma época em que não tinham os grandes caminhões. Tem também o projeto de acesso por outros pontos, para desafogar as avenidas principais. Colocar mais dois acessos no anel viário para chegar até as empresas. Um deles é em frente à Cargill, onde tem o trevo.

Trabalhar o sistema de iluminação, que é carente hoje. Trabalhar linhas especiais de ônibus para poder favorecer a produtividade. Abertura de segundo e terceiro turnos nas empresas que porventura deslancharem no mercado.
Porque na hora em que o processo reverter e a economia engrenar novamente, vão ter segmentos que vão disparar. Uns com mais, outros com menos velocidade, aqueles que melhor se desenvolverem são carentes. É hora de a gente ajudar o desenvolvimento dele. Ele vai captar mão de obra com mais facilidade, mais volume.

Qual o objetivo da UNEDI e o que ela tem feito para as empresas filiadas?

A UNEDI é uma associação de empresas do Distrito Industrial, já caminha para completar a segunda década de existência. Nosso propósito é, de forma tecnicamente orientada, representar as empresas associadas. Tecnicamente orientada significa que nós não desenvolvemos uma relação político-partidária dentro da UNEDI.

É uma associação que visa a trabalhar em cima da produtividade, da projeção da cidade junto ao mercado, da melhoria da qualidade de vida dos funcionários, na geração de emprego. Esses temas são pautas do nosso dia a dia e através da UNEDI a gente faz uma realimentação e uma integração entre empresas, até criando condição de cooperação.

Muitas vezes, a gente estimula numa empresa que está num programa de reestruturação, transferência de competência para outras, com o objetivo de ter o menor impacto social possível. Essas são algumas das ações de natureza funcional da UNEDI. Nesse aspecto a associação se diferencia de muitas outras. O que é bom aqui, que vem para cá, não é a associação que tira proveito, é direcionado às empresas.

Atualmente a entidade conta com quantos associados?

O Distrito Industrial projeta a UNEDI com 250 associados, mas hoje nosso número é menor. Estamos fazendo uma recuperação também da nossa base de associados, porque passamos um período em que vivemos uma pequena crise local que agora está associada à do País. Então, estamos buscando aumentar nossa base. O nosso potencial é 250 associados, essa é nossa expectativa e o propósito de a gente atingir como meta. Conta desde grandes empresas bem conhecidas como Cargill, Souza Cruz, Martins, as empresas do Grupo Algar, às microempresas que trabalham com quatro a cinco funcionários.

Quais são as demandas da classe empresarial ligadas à entidade?

Temos muitas demandas, depende de qual nós vamos pontuar. Uma demanda que não é só do Distrito Industrial de Uberlândia, mas é de Minas Gerais inteira, e hoje teve mais um aspecto muito negativo, é a parte fiscal.

Nós estamos encurralados no Triângulo Mineiro, incluindo o próprio Estado, com uma tributação desequilibrada. Minas Gerais tributa muito mais do que os outros estados, e isso tira a competitividade e tira empresa também. Pelo fato de a gente estar com uma gestão diferenciada com alíquota diferenciada, por exemplo, do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), muitas empresas já deixaram Uberlândia e passaram para os estados vizinhos. Goiás, São Paulo, Mato Grosso, Distrito Federal; todos praticam uma tributação menor. E por esses dias passou na Assembleia Legislativa mais carga tributária para o mineiro.

Em vez de fazer o dever de casa, no nosso ponto de vista, de trabalhar a parte de custos, a produtividade, o governo do Estado busca receita para compensar essa ineficiência. Essa procura é em cima do bolso do contribuinte. Isso é uma ineficiência de gestão do próprio Estado.

Em relação à nova administração municipal, qual a sua expectativa como presidente da UNEDI?

Como aqui é uma casa que não foca o lado político, todos os governos anteriores, nós nos oferecemos à parceria, independente de qualquer bandeira política. Enxergamos que aqui se trata do partido de Uberlândia. Sempre procuramos estar junto, buscando o desenvolvimento de Uberlândia. Depois que passa, a gente tira a conclusão.
Uma parceria entre a UNEDI e o governo municipal tem tudo para dar bons resultados, depende da postura tanto da parte empresarial como da parte política. Temos uma expectativa muito boa com o governo atual, e reconhecemos também que o cenário para o governo do Odelmo em seu terceiro mandato é muito adverso dos anteriores. Não será uma gestão que ele vai conseguir desenvolver da mesma forma, com os mesmos recursos, com a mesma disponibilidade dos dois anteriores. A situação é mais desafiadora, mas ele é experimentado. Imagino que ele está com muito mais vantagens do que qualquer outro prefeito que a gente tivesse para o momento. Se outro candidato tivesse com chance de ter sucesso, o Odelmo continua com a mesma chance ou até mais.

De que forma a situação econômica do País afetou as empresas do Distrito Industrial?

A pequena crise local associada à do País foi um dos fatores que a gente perdeu empresas, não só em Uberlândia, mas em toda a região. A quantidade de negócios que se inviabilizaram é grande. Se você andar na cidade de Uberlândia, desde o setor imobiliário até a parte industrial, você vê imóveis desocupados.

Acredito que é um período que está no ciclo máximo, no meu ponto de vista. Tem muita discordância nessa linha de pensamento. Não temos estabilidade econômica, não temos estabilidade política, então, se você adivinhar o amanhã, você já está sendo muito bom. Projetar um ano, então… é questão de sorte. Se você falar que acertou é porque você criou uma situação e por acaso coincidiu, mas você falar que algo desse jeito vai acontecer é muito pouco provável.
Mas assim, no tamanho da instabilidade, eu tenho a certeza de que nós estamos chegando ao ponto aonde a gente vai ancorar. O nosso problema está muito em cima de credibilidade e segurança. Então credibilidade na economia, na política, nas ações de natureza social, nas reformas. E a necessidade de conviver com um pouco mais de transparência porque o cidadão brasileiro também tem que sair da condição de coadjuvante para ator principal.

Qual a sua avaliação do Brasil no presente em relação à economia, aos trabalhadores e às empresas?

Hoje no Brasil, nós somos uma sociedade conformada. Com medo de perder, a gente aceita tudo que vem de benesses para você. O brasileiro está orientado a valorizar uma Bolsa Família, uma Bolsa Escola, qualquer tipo de benefício, em detrimento de ele ter que trabalhar ou não. Isso acaba com a sociedade, estraga o perfil de produtividade do trabalhador brasileiro.

Haja vista que quando você compara a eficiência nossa de mão de obra do Brasil versus outros países, somos muito ruins em produtividade. Em qualidade, não, mas em produtividade, sim. O que um trabalhador americano faz, a gente gasta quatro brasileiros para poder equiparar. Então, só por esse aspecto, se tem um custo Brasil muito alto.
O segundo ponto: o Brasil hoje comporta mais ou menos 3% da massa de trabalho do mundo e corresponde a 80% das demandas trabalhistas do mundo. Então, tem coisa errada. Nós precisamos ser mais responsáveis com a relação capital-trabalho, que deve ser desenvolvida numa relação de equilíbrio e compromisso.

E quais são suas perspectivas para o futuro?

A gente enxerga um momento de mudança, até destaco um ponto importante, que é com algum conservadorismo, não é destruir. Quando você pega algumas alas políticas para consertar, considera que tem que destruir. Não tem que destruir. Tem que consertar mantendo aquilo que funciona bem, sem criar condição de destruição. Então isso também tem que ser trabalhado.

A começar pelos governos militares para cá tem muita coisa boa. A política, para poder projetar, quer destruir a concorrência. Isso é uma pobreza de espírito, no meu ponto de vista. Mas é conveniente, porque se quer tomar do outro. Isso também não faz parte de uma sociedade desenvolvida. Se pensar no lado religioso, aí que não deveria fazer.

Como empresário, qual o seu ponto de vista em relação às propostas da reforma trabalhista que o governo propôs?
Essas reformas, tanto trabalhista quanto da Previdência, precisam ser levadas a sério e aprovadas, mesmo que algum desequilíbrio tenha que ser ajustado. A reforma trabalhista vai dar condição de a gente moralizar a relação capital-trabalho. O profissional trabalhador tem que ser responsável pela própria carreira. Combinou, cumpre, porque a base da legislação não muda. Ela flexibilizou, está dando valor àquilo que possa ser combinado entre as partes. Respeitando isso, que é o princípio da moralidade.

E em relação à reforma da Previdência, qual a sua avaliação?

Com relação à reforma da Previdência, têm dois fatores que são importantes. O primeiro é criar condição de sustentabilidade dela, com políticas, reformulando os perfis de aposentadoria, como está sendo pensado de forma que, dentro de um processo de longevidade, o trabalhador possa se beneficiar, porque não adianta dar um benefício após morte. Mas, concomitantemente, fazer a realização dos recebíveis. É muito dinheiro que está na sonegação, que não está entrando nos cofres da Previdência. Faça as duas coisas que nós vamos ter uma segurança maior dentro da Previdência.

A reforma deve ser feita dando uma tranquilidade maior no fluxo de recebimento, fluxo de caixa positivo, mas deve receber também dos inadimplentes. São os grandes que na teoria falam que têm dinheiro e não pagam. Quem está devendo tem que pagar.

Mesmo com o cenário de crise do momento, em médio prazo a mudança é positiva?

O Brasil tem que dar a volta por cima. Ele vai dar a volta por cima. Pode ser mais rápido se a sociedade entender que nós precisamos fazer as coisas acontecerem. Se a gente entender que mais importante do que ficar nessa ciranda política, deixando a economia para cima e para baixo, é cuidar efetivamente da economia e dos nossos negócios. Porque a vida política dos atuais políticos, eu gostaria que elas estivessem no final de ciclo. E que nascesse uma geração diferente em que contribuir para a sociedade fosse mais importante do que tirar benefício próprio.

Se a gente entender isso, a gente faz o Brasil crescer, de forma moral, respeitosa, e que as coisas vão proporcionar um desenvolvimento muito mais acelerado. Porque só o fato de termos visto algumas ações em andamento, independente de todo esse desarranjo moral e político no Brasil, já teve uma melhora. 2018 é o ano da travessia, porque se votarmos bem e tivermos pessoas comprometidas para fazer um processo de mudança, o Brasil é a grande potência do futuro.

Texto: Leonardo Leal

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