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Um dos melhores times de futebol nos anos 50 e 60

Um dos melhores times de futebol nos anos 50 e 60 foi o Botafogo do Rio de Janeiro. Seu ataque praticamente era o da Seleção Brasileira: Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagalo, que ganhou seguidamente duas Copas do Mundo, na Suécia e no Chile. Garrincha, um fora de série. Num teste no Flamengo, foi dispensado por ter as pernas tortuosas. Segundo os médicos, inviável para o futebol. O homem das pernas tortas, um caipira simples do interior do estado do Rio, mal sabia escrever o nome. Seu hobby: criar e imitar passarinhos! Conta-se que o maior lateral esquerdo de todos os tempos do futebol mundial, Nilton Santos, da Estrela Solitária, invadiu o escritório dos cartolas que discutiam se deviam ou não contratar Mané Garrincha, depois de um período de testes na equipe. Disse-lhes Nilton:

– Contratem esse cara logo! Não quero ser humilhado enfrentando esse fora de série nos gramados pelo mundo da bola. Não veem o salseiro que ele apronta nos treinos com a defesa titular nossa? É um molecão irresponsável, entretanto, deixem que cuido dele.

Pelo visto, acataram a opinião de seu bambambã, também chamado de “Enciclopédia do Futebol”.

Meu pai, um fanático botafoguense, e eu, com meus 8 anos de idade, em 1962 fomos ao Maracanã ver a decisão carioca Flamengo x Botafogo. Ao Rubro-Negro, com um timaço, bastava o empate. Foi um vareio de bola. O bom lateral Jordan, do Mengo, foi humilhado pelos dribles escandalosos que tomou de Garrincha. Mengão perdeu de 3 a 0. Poderia ser mais! Dessa época em diante, os marcadores de Garrincha passaram a ter o apelido de João Bobo. O duro foi suportar as gozações de meu velho no retorno dessa longa viagem, num Fusquinha 1200.

Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo.

As apresentações do Botafogo nos amistosos, sem Garrincha, valiam um terço daquelas de quando ele estava presente no gramado. Várias vezes entrou machucado em campo, para em seguida ser substituído. Muitos na época afirmavam ser Garrincha melhor que Pelé. Talvez, pelas peripécias, dribles desconcertantes e comemorações com a galera. Pelé, mais sério, preocupava-se mais com sua imagem. Mané Garrincha foi extremamente explorado. Seus contratos eram assinados em branco. Dizem que, mesmo com joelho estourado, faziam-lhe infiltrações, atitude que abreviou sua carreira no futebol.

Houve uma ocasião em que o U.E.C. estava numa fase espetacular. Quem caísse no Juquinha, fazia de tudo para não ser goleado. Não importava se fosse grande ou pequeno. Estávamos otimistas. Não havia dúvidas de que poderíamos vencer o Fogão. Nosso lateral esquerdo, há pouco, havia sido eleito um dos melhores de Minas Gerais. Com muita persistência da diretoria esmeraldina, pagando uma fortuna para a época, conseguiu-se um amistoso contra o badalado aurinegro de General Severiano no alçapão da Floriano. Pensei com meus botões: “Esse Foguinho verá o que é bom para sua saúde em nosso alçapão!”. Barulhei os ouvidos de meu pai quase um mês antes do jogo: “O senhor verá esse Mané ser colocado no bolso pelo nosso melhor lateral do estado!”. Talvez com pena de minha paixão pelo Furacão, papai apenas sorria, malicioso.

Chegou o domingo! Não dormi à noite, pela ansiedade. Fui para o estádio às 12 horas. Juca Ribeiro bufando de lotado, de cheio. Torcida confiante, cantando o tempo todo. Finalmente chegou a hora H. O Verde entrou saltitante. Nosso badalado lateral sendo o centro das atenções. Provocara o homem das pernas tortas a semana inteira nas rádios e nos jornais. Vendo Garrincha com sua simplicidade adentrando o gramado, imaginei: “Ah, coitado! Não verá a cor da bola!”.

Verde partiu pra cima! O início da jogada foi um drible que Garrincha tomou de Maércio. De cara, o goleiro Manga fez uma defesa sensacional. A alegria da massa aumentou! Daí pra frente, foi meu suplício. O tal de Mané a toda hora driblava nossa defesa o quanto queria. Nosso lateral chegou a trombar no alambrado. Noutro drible, que eu nunca havia visto antes, ficou rodopiando. Não sabia onde a bola estava. O óbvio era que o homem só saía para a direita. Mesmo assim, não se conseguia parar aquele danado. Vejam que omiti o nome de nosso ala por respeito a sua longa e vitoriosa carreira. Não é por um jogo que o queimaria. Vendo a debilidade contra aqueles monstros do futebol, a galera passou a aplaudi-los. Tomamos de 6 a 2. Após o show, Garrincha agradeceu a lealdade da equipe do Verde. Poucas vezes, encontrou tanta desportividade e respeito por si.

Com pena de mim, meu pai, amigo, não balbuciou uma palavra sequer que me magoasse. Passamos na Padaria Brasil, na Floriano Peixoto. Como consolo, ainda me pagou uma vitamina. Ela, embora deliciosa, desceu queimando minha garganta.

Outra hora, falaremos mais ainda desse gênio, Mané Garrincha!

Texto: Lucimar César

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