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Disfunção tireoidiana e exercício físico: seu esforço sem resultados

Eduardo Haddad é educador físico

Olá, meu amigo leitor! Você conhece pessoas que fazem dieta e não conseguem perder peso? Já ouviu histórias e depoimentos de quem se exercita regularmente e mesmo assim sofre com o desafio da balança? Pois bem, sempre tenho lhes informado que, em relação ao exercício, o que importa é a constância e a evolução gradual dos treinos para obter resultados associados à saúde!

Para essas pessoas que, mesmo com dieta e com exercício, sofrem por não ter resultados, podemos suspeitar de um quadro clínico preocupante: as doenças da glândula tireoide. Isso mesmo! Existem quadros clínicos sérios envolvendo os pacientes que têm uma das duas complicações da tireoide: o hipotireoidismo e o hipertireoidismo.

Para nos ajudar a entender um pouco sobre essas doenças e o impacto do exercício nessas pessoas estamos hoje com o Dr. Alexandre Gonçalves, profissional de Educação Física – fisiologista do exercício, cujo mestrado e doutorado foram feitos desenvolvendo pesquisas com prescrição de exercício para esses pacientes.

Haddad

Qual a importância da glândula tireoide para as pessoas saudáveis? O que muda na vida da pessoa na presença de hipo ou de hipertireoidismo?

Dr. Alexandre

R: A glândula tireoide é responsável por produzir e secretar os chamados hormônios tireoidianos. Dentre eles destacam-se o T4 e T3. Estes hormônios atuam em praticamente todos os sistemas do nosso organismo, sendo responsáveis pelo controle de todo o metabolismo do corpo humano. Assim, uma pessoa que tenha deficiência na produção desses hormônios (hipotireoidismo) terá sua taxa metabólica diminuída, o que acarretará sintomas como sonolência, fadiga ao menor esforço, aumento de peso causado, principalmente, por uma grande retenção hídrica. Já naquelas pessoas que possuem níveis elevados desses hormônios, o organismo é submetido a um estado que chamamos de hipermetabolismo, ou seja, a taxa metabólica fica extremamente elevada, o que acarreta um gasto energético muito elevado o qual poderá causar sérios danos aos tecidos do corpo do paciente.

Haddad

Em seus trabalhos, o senhor desenvolveu pesquisas com pacientes que tinham comprometimento da tireoide. Quais são as características dessas doenças? Qual a mais frequente?

Dr. Alexandre

R: Como dito anteriormente, no caso do hipotireoidismo as características mais evidentes são aumento de peso rápido com dificuldade de perdê-lo, sonolência, fadiga ao realizar as atividades costumeiras do dia a dia. Já no hipertireoidismo, temos o contrário. Perda excessiva de peso, insônia e uma sensação ao final do dia que não conseguir descansar o corpo, pois este está com um taxa metabólica elevada e não consegue repor os chamados substratos energéticos (carboidratos, proteínas e gorduras) essenciais para nossa saúde em quantidade adequadas. É importante salientar que todos esses sintomas estão intimamente ligados a alterações que ocorrem, seja no hipo ou no hipertireoidismo, principalmente nos sistemas muscular e cardiovascular do paciente. Dentre essas alterações tireoidianas, a mais predominante é o quadro de hipotireoidismo.

Haddad

Em suas pesquisas, que tipo de exercício foi prescrito para essas pessoas? Que resultados foram encontrados até agora?

Dr. Alexandre

R: Então… Até 2003, quando fui apresentado a esta linha pesquisa pelo Dr. Elmiro Santos Resende, do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Uberlândia, existiam muito poucos estudos, para não dizer quase nenhum, sobre o tema. Assim, inicialmente, propusemos verificar o impacto do exercício aeróbio sobre o sistema cardiovascular, muscular e tolerância ao esforço. Contudo, ao dar prosseguimento aos estudos, observamos que o exercício resistido também poderia ser de grande valia para esses pacientes. Até o momento, nossos estudos estão numa fase que chamamos pré-clínica. Ou seja, fazemos experimentos com cobaias (ratos de laboratório) para verificar o impacto da associação do tratamento medicamentoso com o exercício. Nossos resultados preliminares têm demonstrado que o exercício pode ser um auxílio valioso no tratamento desses pacientes, principalmente por melhorar sua condição cardiorrespiratória e muscular, levando a eles aprimoramento na tolerância a realizar esforços físicos, principalmente em suas atividades do dia a dia. Ao causar esse tipo de adaptação, o exercício faz com que o paciente tenha menos sobrecarga sobre seu coração e assim evitam-se maiores riscos ao sistema cardiovascular. Assim, a associação de exercício ao tratamento medicamentoso padrão leva a uma grande melhoria na qualidade de vida do paciente com distúrbios da tireoide.

Haddad

Se uma pessoa tem hipotireoidismo ou hipertireoidismo, existe alguma contraindicação para a prática de exercícios? Como eles deveriam se exercitar?

Dr. Alexandre

R: Esta é a grande pergunta que nossos estudos estão procurando responder. Por se tratar de uma linha relativamente nova de estudo, ainda não existem diretrizes claras para prescrição de exercícios, seja no hipo ou no hipertireoidismo. No entanto, a partir dos resultados de nossas pesquisas no Laboratório de Medicina Experimental da Universidade Federal de Uberlândia, podemos destacar alguns pontos a serem considerados:
No hipotireoidismo, o paciente, antes de qualquer coisa, deve ser medicado para restabelecer seus níveis hormonais normais. Feito isso, sugerimos que o protocolo de exercício seja realizado unindo-se exercícios cardiorrespiratórios e exercícios resistidos. Contudo, chamamos a atenção para intensidade e duração das sessões. A sugestão é que a intensidade seja sublimiar, ou seja, uma intensidade que não leve o paciente a quadro de acidose metabólica e que a duração não ultrapasse uma hora. Intensidade muito alta e/ou duração muito prolongada poderá levar o paciente a ter prejuízo no seu tratamento, uma vez que a maior secreção do hormônio cortisol, liberado em tais situações, poderá prejudicar a ação dos hormônios tireoidianos no organismo.
Já em relação ao hipertireoidismo, nos chama a atenção que nesses casos o paciente tem uma sobrecarga cardíaca em repouso muito grande. Assim, exercícios de alta intensidade seriam contraindicados. Também acreditamos que, neste quadro em específico, exercícios resistidos (musculação) devam ser priorizados em relação aos aeróbios. A justificativa é que o excesso do hormônio tireoidiano leva a uma alta degradação de massa muscular e perda de força. Estudos têm demonstrado que o exercício resistido, prescrito considerando o quadro clínico instalado, tem um fator protetor sobre a massa muscular desses pacientes.

Haddad

A prática de exercícios por esses pacientes representa a cura? O que o senhor gostaria de deixar como mensagem para os pacientes e para todos que nos leem?

Dr. Alexandre

R: Infelizmente os distúrbios da tireoide não têm cura. Mas têm controle. A pessoa consegue ter uma excelente qualidade de vida, desde que feito o devido tratamento. O tratamento, acredito, que deve superar o tão somente tratamento medicamentoso. Mas alternativas não medicamentosas, como exercício físico, com certeza poderão auxiliar, e muito, no progresso do paciente. Assim, seja para o paciente com distúrbios tireoidianos, seja para qualquer outro sujeito com alguma alteração em seu estado de saúde, lembrem-se de que atualmente os estudos têm demonstrado que a prática regular de exercícios físicos é fundamental para melhoria de seu estado físico, mental e social.

Texto: Eduardo Haddad
Foto: Pixabay

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