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Tese propõe aplicativo de navegação indoor para cadeirantes

Foto: Divulgação

A falta de acessibilidade ainda é um problema em todo o país. Há calçadas, banheiros, ônibus e vários locais públicos que não são adaptados para o livre acesso de deficientes físicos. Mas o problema não está somente nos espaços abertos. Nos ambientes fechados, como o interior de uma casa, um prédio e até universidades, a locomoção de cadeirantes, por exemplo, é complicada, pois pode haver obstáculos no meio do caminho que os impedem de chegar a determinado local.

Pensando nisso, a cientista da computação Luciene Chagas desenvolveu, em sua tese de doutorado em Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), uma tecnologia de realidade aumentada móvel aplicada na navegação indoor para cadeirantes. Trata-se de um aplicativo para celular que indica o caminho mais acessível, sem obstáculos e independente do tempo para o cadeirante se locomover em locais fechados.

O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e orientador da pesquisa, Edgard Afonso Lamounier Júnior, explica que o conceito de indoor está ligado a ambientes fechados, como sugere a tradução do termo em inglês. “Você está procurando um shopping, coloca o endereço no GPS e ele te leva até a porta do shopping: isso é outdoor, fora do prédio. Já o indoor é dentro do prédio”, diz Lamounier. Outro ponto levantado pelo coordenador é que atualmente não há projetos indoor nem para cadeirantes nem para as pessoas em geral, pois a tecnologia não está tão avançada nesse quesito.

Luciene Chagas, que trabalha com acessibilidade para cadeirantes há seis anos, observou as demandas mais frequentes: “eles sempre falavam dessas dificuldades, como encontrar banheiros, chegar nos lugares e outros”. A pesquisa, que precisou ser submetida à aprovação da Comissão de Ética da UFU, por envolver testes com pessoas, teve financiamento do Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o desenvolvimento foi feito no Laboratório de Computação Gráfica da Faculdade de Engenharia Elétrica (Feelt/UFU).

Para ajudar o cadeirante a se deslocar pelo espaço, Chagas desenvolveu um algoritmo de realidade aumentada, que mostra, dentro de um ambiente físico, informações virtuais. Assim, o algoritmo indica não o caminho mais curto para se chegar a determinado local, mas o melhor caminho, para que o cadeirante não tenha obstáculos, como escadas, que impossibilitem sua chegada.

O usuário pode baixar o aplicativo no celular, indicar o local de destino e o sistema lhe oferecerá a rota do caminho. Assim, o aplicativo acessa a câmera do celular, que deve ser direcionada aos marcadores disponíveis no local. Esses marcadores são placas coladas nas paredes, que através da câmera do celular mostrará setas em 3D, para direita ou esquerda, a direção que o cadeirante deve seguir. Os marcadores são colocados em lugares estratégicos para melhor locomoção.

Além disso, o aplicativo contém a tecnologia dos beacons, dispositivos que localizam quantos e onde estão os cadeirantes do local. Os beacons servem para auxiliar na comunicação entre os cadeirantes. “Às vezes, um cadeirante tem acesso ao aplicativo e outros não, aí ele vê onde eles estão e os ajuda a navegar dentro do ambiente,” explica Chagas. Dentro do aplicativo, o usuário tem também a opção de digitar o local ou utilizar o comando de voz.

Os testes foram feitos nos blocos 5S e 1E da UFU com seis cadeirantes – cinco paraplégicos e um tetraplégico – da Associação dos Paraplégicos de Uberlândia (Aparu). A aceitação foi unânime: 67% dos usuários responderam que ficaram muito satisfeitos com a tecnologia e 33% se disseram satisfeitos. “A maioria já queria sair e usar e perguntavam quando ia ficar pronto”, conta Chagas.

Com o apoio das áreas da tecnologia assistida e da engenharia elétrica, a tese de Chagas, para Lamounier, “é uma sensação de inclusão social. Os cadeirantes devem perceber que eles são pessoas ativas e que têm muito o que contribuir para a sociedade”, diz o orientador. Já Adriano de Oliveira Andrade, coordenador do curso de Engenharia Biomédica da UFU e um dos orientadores da pesquisa, acredita que o cenário de Uberlândia ainda é bem atrasado quando o assunto é acessibilidade. “Quando você vai ao shopping, você já encontrou quantos cadeirantes por lá?”, indaga Andrade. Desse modo, o coordenador acredita que a pesquisa possibilita ao cadeirante uma liberdade de locomoção e “isso, para eles, não tem preço; literalmente, a independência não tem preço”, diz o coordenador.

A expectativa de Chagas é dar continuidade à pesquisa em um pós-doutorado e futuramente disponibilizar o aplicativo ao público. A alegria e o entusiasmo da pesquisadora vêm da disponibilidade e da gratificação de poder ajudar pessoas. “Os cadeirantes não colocaram obstáculos para vir, vinham de ônibus e teve uma que veio na chuva”, recorda.

Texto: Ascom UFU

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