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Brasil, campeão do planeta!

O futebol é o esporte mais amado e estapafúrdio do Universo.

Diversas das grandes agremiações parecem times suíços, de tão organizadas, contudo, não ganham nada. Fugindo da lógica do politicamente correto.

Às vésperas da Copa de 1958, a Seleção Brasileira navegava num infinito caos. Havíamos perdido a competição de 54 na Suíça, além de não esquecer o vexame de 50 no Maracanã. O prestígio de nossa paixão nacional residia no porão.

O certame maior da FIFA seria agora na Suécia. Até aquele momento, nenhum país europeu havia deixado o título escapar de seu território. A maior nação da América Latina também jamais suplantara seus rivais pela força de seu talento.

O clima permanecia embaçado. Suamos sangue para vencer no Maracanã o Peru por 1 a 0. Foi um gol de falta de Didi, de “folha seca”. Assistiam ao drama brasileiro quase 140.000 sofredores, que comiam unhas ansiosamente. Temiam não nos classificarmos para os jogos dessa Copa. A galera apelidara as faltas cobradas por Didi de “folha seca” porque, no meio do caminho, a gorduchinha fazia uma curva no ar, enganando goleiros.

Os cartolas, às vésperas do campeonato, pressionados, mudaram tudo em nome da modernização. Contrataram até psicólogo. Conta-se que o tal doutor da mente ordenou a todos os atletas que escrevessem algo num papel em branco, para avaliar o equilíbrio mental de cada um.

Nilton Santos, astuto, flagrou o médico falando asperamente com um dirigente da seleção. Exigia dispensa de Mané Garrincha.

Assombrado, Nilton chamou Garrincha perante a cúpula de branco, exigindo justificativas para aquela caricatura horrível, desenhada por ele:

– Mané! O que significa essa aberração, parceiro?

– Ah, ah, ah! É o cabeção do Quarentinha!

Quarentinha era centroavante do Botafogo.

O psiquiatra ficou iradamente maluco. Segundo boatos, foi um custo para o conciliador Nilton convencê-lo a não dispensar nosso camisa 7.

No embarque para o Velho Mundo, o ataque titular seria Joel, Moacir, Índio, Dida e Pepe. No decorrer dos jogos terminou Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo.

Começou a maior festa futebolística do planeta. Brasil arrasador! Garrincha fazendo chover! Havia conquistado todos com seus dribles desconcertantes, deixando seus marcadores sem pai, nem mãe. Goleadas e trator passando em cima dos adversários. Pelé, ainda um garoto de 17 anos!

Pintou, num dos confrontos da fase final, a perigosa União Soviética. Usavam a força do corpo a corpo e batiam muito. Para complicar, seu goleiro era o melhor do planeta. Lev Yashim, o “Aranha Negra”. Agravando o clima, o lateral canhoto russo conversou abobrinha com relação a Garrincha.

– Eu, um atleta perfeito e forte, não dar conta de marcar um praticamente aleijado, das pernas tortas?
Como diria a Filó hoje:

– Ah, coitado! Mais um joão bobo!

Brasil 2 a 0, fácil. Garrincha estraçalhou novamente. Botava Vavá na cara do gol a todo instante.

Nessa época, não havia televisão. Em todos os botecos da cidade, estava um rádio com o som nas nuvens, que mais parecia guarda-roupas. Circulando-o, inúmeros brasileiros vibrando. Seus gritos alegres ecoavam na cidade inteira.

Curtiam as narrações dos famosos locutores. Eles descreviam as maravilhas do senhor Mané Garrincha no gramado.
Com o semideus, o mero menino do interior carioca, vestido com a amarelinha, não havia dúvidas, pelos seus milagres: seríamos inéditos donos do degrau mais alto do pódio mais cobiçado do Universo.

Os donos da verdade e críticos do futebol apontavam como favorita a França. Ela tinha um ataque arrasador. Just Fontaine, seu terrível matador, com 13 gols, até hoje nunca foi superado. Havia também Copag, um habilidoso monstro nas quatro linhas. Felizmente, os azuis não tinham Mané Garrincha. Brasil passeou. Meteu-lhes 5 a 2.

Diziam que, nesse jogo, o vencedor seria o campeão da Copa. Dessa vez tinham razão os analistas. Após a derrota, franceses se curvaram diante de nossa superioridade. Afirmaram não pertencerem a esse mundo, nossos canarinhos.
Na sua simplicidade, Garrincha perguntava a seu mestre e protetor Nilton Santos:

– Tem mais adversário a ser batido?

De posse do caneco, que rodava dentro do avião na vinda ao Brasil, ao transitar no corredor, Nilton Santos foi convidado pelo médico brasileiro para um dedo de prosa. Ao sentar-se, ouviu:

– Obrigado, Nilton Santos!

– Por que esse agradecimento, doutor?

– Agradeço-o por convencer-me a não dispensar o Garrincha por aquele desenho maluco dele.

– Verdade, doutor! Esse Mané é uma sinuca de bico. É uma criança abençoada! Nem Freud explicaria esse fenômeno.

Depois falaremos mais do Mané e sua genialidade na Copa de 62!

Texto: Lucimar César

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