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Um dos maiores ídolos de todos os tempos do U.E.C.!

Sei que o leitor é um jovem apaixonado pelo Verdão. Tem hoje em mãos celular, televisão, tira-teimas e dezenas de comentaristas e locutores esmiuçando todas as jogadas de um confronto de futebol. Mesmo assim, a arbitragem comete erros. Agravando a situação, a maioria dos equívocos é contra times interioranos.

Fechem os olhos por segundos. Imaginem os anos 60. Televisão, além de poucos recursos tecnológicos, não se metia no futebol. Sobrava a nós acreditar nas opiniões parciais de cronistas esportivos apaixonados pelos seus times da capital mineira.

Essa é a época vivenciada pelo Furacão Verde da Mogiana. Apesar das adversidades, deu memoráveis alegrias a sua grande e fanática Nação Esmeraldina. O lendário Juca Ribeiro, temido em trovas e versos pelos grandes times, foi palco de vitórias homéricas. Até gaviões voavam longe do alçapão Juquinha. Receavam a bravura do valente Periquito.

A maior estrela do Verdão na época, Zinho. Seguido por Dunga, Serafim e Maercio.

Os técnicos de futebol, uns cabeças-duras, adoravam peitar a galera. Talvez porque a mídia não fosse tão incisiva como hoje.

Às 13 horas dos domingos, já estava eu na arquibancada, saboreando meu picolé de tamarindo, aguardando a próxima vítima. Nessa ocasião, havia preliminares dos aspirantes. Eram vitrines fortes. Davam chances para inúmeros atletas subirem para o time profissional. Um grande destaque desses jogos dos reservas era Fazendeiro, o qual, por exigência da massa, ficaria no banco do elenco principal nessa peleja complicada.

O adversário bicho-papão seria o Valério. Nesses anos de ouro, o Valério figurava entre equipes de ponta no certame. Recebia polpudas quantias da Vale do Rio Doce, como patrocinadora.

Edson Gonzaga, o Fazendeiro, já fazia parte de um rol dos xodós da massa uberlandina. Seu biotipo não se impunha como atleta. Andar desengonçado; magérrimo e franzino. Adentrava o gramado de meias arriadas, sem caneleiras, camisa fora do calção. Cá pra nós, um marmota. Nosso craque tinha um foguete nos pés. Batia com os dois pés. É claro que era um de cada vez, né, amigo? Pensou que me pegava, né? Driblava curto e para frente.

Diretoria, segundo os cornetas, havia sugerido deixar pelo menos no banco, o Fazendeiro. Isso aplacaria a ira do povo. Apenas deixar um mel na boca da multidão. Os dirigentes foram sensatos. O clima estava insustentável. Não seria prudente arriscar-se com fogo e paixão, não relacionando Fazendeiro. Quantas vezes víamos Fazendeiro, na entrada do estádio, papeando com o povão na maior paciência.

O Verde havia subido recentemente para a elite do Mineiro. Foi num domingo ensolarado. Entrou em campo o Valério, um dos cabeças da tabela. Atletas gigantes e imponentes. Verde surgiu no túnel. Galera explodiu. Juca atirando gente para o mato, de tão cheio. Verde tentando contra-ataques. Valério, superior tecnicamente, bloqueava tudo. Goleiro do Furacão superbombardeado, fora balaços no travessão. Chegou a tomar dois sem pulos no papo. Torcida apreensiva e receosa. Ouviam-se o burburinho:

– O empate ‘tá ótimo!

Veio o pior: camisa 8 visitante disparou um bólido que bateu no pé da trava, beijando as redes verdes. Valério, 1 a 0. O massacre continuou. Não demorou, enfiaram 2 a 0 aos 28 minutos do segundo tempo. Um balde de água gelada! Galera foi embora? Errado! Nação Guerreira não desiste nunca! Começaram a gritar “Fazendeiro! Fazendeiro! Fazendeiro!”. Balançavam com tanta energia os alambrados que o treinador nem aqueceu direito o menino querido do Furacão.

Faltavam 17 minutos para o tempo final.

A primeira bola que recebeu, Fazendeiro tentou um drible e perdeu.

– Ohhhhhhhh!

Na segunda, o becão foi fazer graça e perdeu a redonda. Foi driblado. Fazendeiro disparou um canudo da meia-lua, no ângulo superior. Bem no ninho da coruja. Verde, 1 a 2.

O embate prosseguiu difícil. Aos quarenta e dois minutos da fase derradeira, num bate-rebate, Fazendeiro fez 2 a 2. Daí em diante, foi loucura sem limites. Nossos locutores de rádio, tive receio que engolissem os microfones, dada tamanha alegria. Árbitro, ansioso para acabar aquele confronto maluco.

Mas, aos 44’30’’ do segundo tempo, nosso queridinho recebeu a bola na zona do agrião. Fintou um cabeça de área que não descolava dele. Escapou de uma botinada do Nenezão. Enganou com um jogo de corpo o lateral direito, que fechava para socorrer o beque central, o qual também foi fintado, ficando estendido no gramado, sem pai nem mãe. O goleiro saiu com tudo, fechando o ângulo. Foi enganado e a bola, enfiada com muita categoria para o fundo das malhas valerianas. Explodiu tudo! Despencou uma bomba atômica de alegria no Juca Ribeiro.

Só de lembrar, estou arrepiado. Se eu pudesse, congelaria aquele momento mágico de tanta felicidade. Acho que, até 3 horas após o jogo, havia torcedores no Juca, admirando o cenário vazio.

Depois falo mais das peripécias de Edson Gonzaga, o querido Fazendeiro.

Texto: Lucimar César

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