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Alessandro Tucci e a produção de mel orgânico do Apiário Harmonia

Foto: Arquivo Pessoal

O apicultor Alessandro Tucci desenvolve em sua propriedade de 90 hectares em Uberlândia, na saída para Campo Florido, um projeto de apicultura orgânica, e destaca as floradas do cerrado na produção de mel. Apesar de atualmente não viver da produção das abelhas, ele tem se dedicado à atividade, conseguindo colher bons resultados e preservando as florestas.

A harmonia com a natureza é uma feliz coincidência com o nome da estrada em que fica a propriedade, razão também de nomear o apiário. Na entrevista a seguir, Tucci fala sobre o projeto, as características da apicultura, o produto e o início da atividade, ocorrido acidentalmente.

Você começou a produzir mel há cerca de trinta anos, ficou uns 10 anos sem produzir e voltou agora com um novo projeto de Apicultura Orgânica. Como funciona esse projeto?

O projeto é 50% por gostar da atividade e 50% por profissão. Financeiramente, ele acaba sendo um apoio de renda. Mas, meu objetivo é trabalhar dentro daquilo em que acredito. Produzir um mel mais orgânico possível, com praticamente 100% de florada nativa do cerrado, não é de lavoura que recebe inseticidas.

Também não praticamos algumas técnicas que a maioria dos apicultores realiza, como, por exemplo, dar alimentação artificial com proteína artificial, feita antes das floradas, para fortalecer os enxames.

Eu produzo 100% sem interferências, minhas caixas recebem um tratamento para ter certificação de orgânico. Apesar de que não tenho o selo de orgânico, porque é muito caro e compensa somente para grandes produtores.

Na prática, em que consiste ser orgânico?

É uma série de técnicas que você tem que fazer, por exemplo, as caixas não podem ser pintadas com tinta comum, elas recebem um tratamento à base de própolis e cera de abelha. O arame, onde você derrete a cera, tudo isso é observado. Os materiais de processamento têm que ser todos de inox.

São procedimentos que a gente segue dentro dessas normas. Já a colheita do mel é um procedimento padrão, não tem muita diferença dentro das normas da Vigilância Sanitária.

O mel orgânico tem alguma relação com o tipo de florada?

Essa é uma crítica que eu faço. Para a certificação do mel orgânico se olham os procedimentos, mas não se observa de onde o mel vem. Pode-se, por exemplo, produzir um mel de uma lavoura de laranja, que recebe um monte de pesticidas, e mesmo assim, é considerado um mel orgânico. Isso ocorre talvez pela dificuldade de se encontrarem áreas onde poderia se produzir um mel de origem 100% orgânica. Mas eu não considero orgânico com esse tipo de origem.

Assim, como tenho uma área de cerrado enorme, do lado da minha casa, eu posso produzir mel com essa origem. E, por não ser a minha fonte de renda principal, não tenho a preocupação com a quantidade produzida. Hoje estou produzindo em torno de 700 kg e o projeto é dobrar a produção dentro de um ano. Planejo produzir também em áreas de plantação de eucalipto, mas ainda está em fase de testes. Ainda não tenho certeza se vai produzir.

O tipo de florada que produz o mel influencia o sabor do produto?

Sim, totalmente. O mel é um produto floral. Conforme a florada há alterações de sabor, cor, densidade. Depende da flor, cada uma gera uma produção de mel diferente, uma vez que ele é produzido a partir do néctar das flores. Você tem variações de cor, que vão do transparente ao preto na cor; diferentes tipos de densidade e cheiro.

O mel do cerrado, apesar de apresentar muitas variações de acordo com os períodos do ano, é muito bem aceito. Qualquer que seja a florada, ele é bem aceito. O mel produzido de cipó é considerado um dos melhores. As pessoas têm uma preferência por um mel mais claro, mais perfumado.

Quais os benefícios do mel?

Ele é um superalimento, tem muitas vitaminas. Carrega todas as qualidades das flores das árvores de origem. De uma maneira geral, ele é um antisséptico, antibactericida e um fortalecedor natural. Além de fortalecer o sistema imunológico, ajuda na digestão e no funcionamento do intestino. Erroneamente, as pessoas usam como remédio, tomando quando ficam gripadas ou com a garganta inflamada. O certo é tomar todo dia, para criar resistência.

 

Foto: Arquivo Pessoal

E a questão da cristalização do mel, em que consiste?

Infelizmente, no Brasil, o mercado não compra mel cristalizado. Já na Europa se vende mel cristalizado tranquilamente. A gente vê bandejinhas com bloco de mel, semelhante a um tablete de margarina. Por não ser aceito no Brasil, os apicultores são obrigados a pré-aquecer o mel. Assim, se descristaliza o produto. Se esse aquecimento for feito de forma consciente, com temperatura controlada, o produto não perde o nutriente e as características. Agora, se aquecer demais, perdem-se os nutrientes e ocorre uma inversão dos açúcares. Muitos apicultores pré-aquecem o produto para evitar que o mel cristalize na prateleira do revendedor. É um processo que não faço.

Hoje se tem mais informação, muita gente sabe que o mel cristaliza e não reclama. Antes, se cristalizava, as pessoas jogavam fora e diziam que era falso. Todo mel puro cristaliza, ocorrem variações na intensidade e na forma. Alguns cristalizam por inteiro, rápido, outros cristalizam lentamente. Têm alguns que cristalizam somente uma parte. O frio interfere, acelerando o processo de cristalização. Por isso, não se deve guardar o mel na geladeira. Eles também cristalizam em relação às floradas, o de eucalipto, por exemplo, cristaliza super rápido. Já o de flor de laranjeira praticamente não cristaliza e o de cerrado apresenta diversas variações.

Qual a diferença entre cristalizar e açucarar?

Açucarar é quando tem açúcar no mel, aí ele vira uma pedra, se torna duro, quebradiço. O mel cristalizado, não. Ele fica pastoso, com a mesma densidade do doce de leite, por exemplo.

Para diferenciar um e outro, basta olhar: se ficar duro, é açúcar. Atualmente, acredito que o grande problema não é tanto a falsificação. O grande problema está na lida, como pré-aquecer o mel para ele não cristalizar, tratar as abelhas com açúcar. Não ter os equipamentos de inox, colher a produção de qualquer jeito, armazenar em um vasilhame inadequado, usado para outras atividades.

Quando os produtores se juntam em associações, o cuidado com os procedimentos é maior. Isso gera uma melhor qualidade?

Sim, pode ter. Varia de acordo com a associação. Tem associação em que os apicultores têm uma casa do mel em conjunto e outras, não. Já levam o mel processado. Agora, se eles contarem com uma casa do mel em comum, se tem uma vigilância maior, do contrário, não faz muita diferença. Em Uberlândia, que eu saiba, não existe uma casa do mel, nem associação.

Os produtores são independentes. Quando eu comecei há trinta anos, existia associação em Araguari. Eles tinham um rótulo da associação, vendiam pela associação. Aqui em Uberlândia, nunca conseguimos fazer isso. O povo aqui é muito individualista, não conseguem ver o outro como um companheiro, um parceiro. Enxergam mais como um concorrente.

Em Araguari, os produtores conseguem se unir e trabalhar pelo bem comum, em Uberlândia, só se trabalha pelo bem comum se o produtor estiver levando vantagem. Eu mexi com mel trinta anos atrás, por cerca de 10 anos, depois parei, fiquei 20 anos sem mexer, e agora estou voltando. Nessa época em que eu vivia disso, fizemos associação, tentamos.

Como você iniciou na apicultura?

Comecei por acidente. Entrou um enxame no forro da casa da fazenda. Eu quis tirar, mas não queria matar as abelhas, então fui me informar. Descobri um apicultor em Araguari que me passou umas informações básicas, me indicou um marceneiro que fazia caixas de abelhas, comprei uma caixa e fui tirar esse enxame, aí peguei gosto. Achei muito legal e comecei a criar abelhas na fazenda.

Isso tomou vulto e passei a viver da apicultura na época, de 1985 a 1995. Depois fui trabalhar com informática e abandonei a apicultura. Já faz um tempo que saí do ramo da informática, agora estou voltando à apicultura. Ela é uma das coisas que eu gosto de lidar.

Também voltei por acidente. Tinha umas caixas, ficaram guardadas na fazenda. Com a separação das áreas minha e do meu irmão, peguei essas caixas guardadas que estavam na parte do meu irmão e trouxe para casa, coloquei na varanda, em pouco tempo começou a entrar enxame. Então eu disse para mim mesmo: “Está tendo muito enxame, vou colocar umas caixas aqui para tirar o mel”. Tenho uma área de 90 hectares, fica do lado da fazenda do Exército, que tem 2 mil hectares, tenho outro vizinho que com 250 hectares de cerrado. Então, tenho floresta por todos os lados.

Você também produz própolis?

Coloquei algumas caixas de própolis e estou fazendo alguns testes. Tem apicultor que só produz própolis porque tem um valor agregado maior. A produção ocorre o ano inteiro e, dependendo da qualidade, ela é bem valorizada e se torna o produto principal. No meu caso, é um subproduto.

Os apicultores conseguem produzir própolis, mel, cera e geleia real. Alguns produtores produzem pólen, que, apesar de ser viável financeiramente, é muito trabalhoso. Exige uma florada específica. A cera de abelha é usada em cosméticos. A geleia real é um superalimento, porém é muito trabalhoso.

Há rumores de que as abelhas estão em extinção, por outro lado algumas lavouras são dependentes das abelhas. Como você analisa essa situação?

Existe essa questão de as abelhas estarem diminuindo, já estão descobrindo que é devido aos pesticidas usados nas lavouras. Alguns, que são os fungicidas, não matam as abelhas diretamente, não são inseticidas, porém, eles vão minando o sistema de defesa delas. O enxame enfraquece e se torna suscetível a doenças e acaba morrendo. Nos locais onde se têm lavouras, deveria haver uma preocupação maior com as abelhas devido à polinização, e não se tem.

Em outros lugares, o cerrado, a mata nativa está acabando, cada dia que passa se desmata mais. Então, tem essa ligação direta das abelhas com as florestas. Como na fazenda eu tenho muito mato, elas seguem o ciclo normal. Na minha área rural, eu não vejo essa diminuição.

Hoje também está tendo o aluguel de enxame. Algumas lavouras são dependentes diretas de abelhas. Como não está tendo mais cerrado, quase não se vê abelha nativa, alguns produtores rurais, de girassol ou café, por exemplo, alugam colmeias de apicultores para polinizar as flores, assim se aumenta a produção da lavoura. O girassol dá produtos maiores, em maior quantidade. Alguns são 100% dependentes de abelha. No caso da lavoura de laranjeira ocorre uma troca entre o agricultor e o apicultor, porque o aumento na produção é vantajoso para ambos.

Quais os fatores que influenciam a produção?

O fator que influencia a produção é a florada. Eu tenho apiário fixo, as abelhas ficam em um único lugar. A minha produção está diretamente ligada à florada da região, em um raio de 2 km.

Os apicultores profissionais praticam a apicultura migratória. Eles levam as caixas onde estão tendo floradas, de eucalipto, do cerrado, laranjeiras, etc. Assim eles conseguem produzir até 100 kg de mel por caixa. Em cada lugar que está com florada, ele já entra produzindo.

No caso de um apiário fixo, a média é de uma a duas vezes por ano, tem a safra e a safrinha. Uma produção grande, que vai de julho a setembro, e depois tem uma produção pequena, em janeiro e fevereiro. Já no apiário móvel se produz o ano inteiro. Se tem muito trabalho, o custo é alto e para compensar é preciso ter uma grande produção, exige um caminhão e uma certa estrutura.

Do ponto de vista financeiro, a atividade compensa?

A apicultura é um negócio muito trabalhoso, financeiramente não é muito bom. Depende, se você tem 30 a 50 caixas é uma coisa, se você tem 500 caixas é outra coisa. Se você tem uma visão empresarial ou se você tem uma visão artesanal. Quando se entra na visão empresarial, se consegue ganhar dinheiro, mas requer muito trabalho, o serviço é pesado e se fica exposto ao sol.

Tenho absoluta certeza de que quem trabalha com apicultura é porque gosta, pode ser que não tenha outra opção financeira, do contrário a pessoa vai fazer outra coisa que dá o mesmo rendimento com muito menos trabalho. Normalmente, é quem gosta de ficar em contato com a natureza, não gosta de estresse, não gosta de lidar com muitas pessoas. A própria organização das abelhas, comunicação entre elas, isso é muito apaixonante.

Mas é muito bom como complemento de renda. O pequeno produtor consegue ter um alimento saudável em casa e consegue um apoio de renda, vendendo o excesso da produção. Nesse sentido, é uma atividade que deveria ser incentivada.

Texto: Leonardo Leal

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