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À frente da SRS, Rosângela Paniago fala sobre implantação do SAMU, melhorias na sua gestão e política no Brasil

Foto: Leonardo Leal

Há quatro meses como diretora da SRS (Superintendência Regional de Saúde), Rosângela Paniago, em entrevista exclusiva para O JORNAL de Uberlândia, fala de sua gestão na Regional, das ações de implantação do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) na região, das melhorias que tem feito na área de saúde.

Ela também expõe seu ponto de vista sobre a crise que vai da saúde à política e considera que há um estigma contra o PT. Anteriormente, ela ocupou a Secretaria de Governo da Prefeitura de Uberlândia na gestão de seu marido, o ex-prefeito Gilmar Machado. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Como está o trabalho da Superintendência Regional de Saúde junto ao governo do Estado na questão da implantação do SAMU?

Depois da nossa vinda para cá, faltava o restante das ambulâncias. Nós já conseguimos fazer essa entrega das 31 ambulâncias do SAMU, que já estão aguardando para a implantação total do SAMU. Somente as ambulâncias têm um valor aproximado de R$ 3,88 milhões. E o convênio que nós temos também, de recursos financeiros que faltavam, em torno de R$ 2 milhões. Hoje, só resta a pagar, por parte do Estado, R$ 700 mil. Esse serviço está se completando por etapas.

Existe um cronograma de implantação e antes de Uberlândia tinha uma implantação em Divinópolis, que já aconteceu 15 dias atrás. A próxima a implantar será Uberlândia. Eu quero acreditar, a gente está trabalhando, tendo reuniões em Belo Horizonte para que consigamos implantar nesse segundo semestre.

Quais têm sido as ações de prevenção à febre amarela na região?

Temos que lembrar que aqui, nós fazemos uma ponte com o Estado. Somos o representante da Secretaria de Estado. A função da Regional são ações de capacitação, distribuição de medicamentos, orientação em cima da febre amarela ou da gripe. Capacitação das equipes e também da distribuição da própria vacina.

Com relação à questão da febre amarela, o que a gente pode fazer é estar trabalhando em conjunto com os técnicos da região. Fortalecendo esse trabalho deles. Reciclando. Porque há um tempo não havia febre amarela na região.
Não tivemos casos de febre amarela em humanos. Tivemos casos confirmados em macacos. Eles coletam esse material e nós levamos até Belo Horizonte. A responsabilidade é da Regional, então, nós fazemos, todas essas amostras são levadas por nós até Belo Horizonte. Até que a gente tenha um resultado para que possamos ter novas estratégias.

Como tem sido o trabalho da SRS em relação à distribuição de vacinas?

O trabalho da gente é estar em dia com as vacinas, porque, muitas vezes, elas chegam em cima da hora, do Ministério ou de Belo Horizonte. Se a gente não for buscar, atrasa tudo. Como foi o caso da vacina da gripe. A vacinação seria realizada num sábado e chegou em Belo Horizonte por volta de quarta à noite.

O que a gente fez? Se for esperar Belo Horizonte distribuir para todos os municípios, com certeza ia atrasar. Então, nós pegamos os transportes que temos e mandamos buscar a tempo e a hora para que não ocorra o atraso. É isso que a gente tem feito. E isso depende unicamente de gestão. Adiantamos esse processo para não ter atraso porque sabemos da importância das vacinas.

Devo lembrar que hoje estamos vacinando jovens do sexo masculino contra o HPV. Anteriormente era somente para meninas. Nesse ano houve uma ampliação da vacinação para jovens de 13 a 15 anos. Essa ampliação para os meninos é um avanço dentro da saúde pública.

A Superintendência Regional em Uberlândia distribui medicamentos à população? Como isso está sendo feito?
Eu queria falar uma coisa que me incomodou muito quando cheguei aqui, que era a fila para distribuição de medicamentos. Atendemos em torno de 10 mil pacientes. É o único atendimento direto ao público que temos por meio da farmácia, sendo que 6 mil pessoas são de Uberlândia. Elas retiram esses medicamentos de alta complexidade aqui na nossa cidade.

Quando eu cheguei na Regional, eu percebi que era até um pouco desumano. O fato de as pessoas ficarem muitas horas aqui esperando. Eles vêm com hora marcada, só que todo mundo quer chegar cedo e ficar. A primeira ação que a gente fez foi mudar esse fluxo. Nós fazemos o processo judicial, o processo do medicamento de alto custo.

Fizemos uma reorganização nesse trâmite interno, inclusive no fluxo. Com isso, hoje nós temos mais gente no atendimento no período da manhã, fazendo com que a fila fosse reduzida expressivamente. É lógico que ainda temos problemas, a pessoa vem e não tem aquele medicamento, está atrasado pelo fornecedor. Porque não somos os responsáveis pela aquisição desses medicamentos.

Existem tratativas com a Prefeitura de Uberlândia para ela distribuir os medicamentos, como ocorre com outros municípios?

Hoje, 17 cidades já pegam medicamentos na Regional e distribuem às pessoas. Estamos trabalhando junto em conversa avançada com o município de Uberlândia para que a gente possa repassar esse medicamento a eles, e eles fazerem a distribuição. O que isso muda? A pessoa vai poder tirar esse medicamento mais próximo de sua casa. Isso humaniza, facilita a vida das pessoas. Se ela vai numa unidade já pegar uma outra coisa, ela já aproveita. É a questão da economia do transporte. Economia de tempo.

Estamos trabalhando com o município de Uberlândia para deixar de fazer a entrega para o paciente, nós faremos todo o controle para a Prefeitura. A parte da documentação toda será nossa. A única coisa que o município vai receber é esse medicamento, como ele recebe a vacina. Ao todo é uma lista de mais de 100 medicamentos de alto custo e alta complexidade. São medicamentos para tratamento de esclerose múltipla, esquizofrenia, problemas mentais graves.

Na sua gestão à frente da SRS houve uma inovação de se implantarem residências profissionais em convênio com a UFU?

É uma outra ação que fizemos na SRS. Eu vejo como um avanço. Nós fizemos um convênio com a Universidade Federal de Uberlândia e, pela primeira vez, acolhemos residentes. São pessoas formadas que estão fazendo residência na universidade, em Saúde Coletiva. Atualmente, nós recebemos sete profissionais. Nós sabemos que o município não pode abrir para eles. Nós fomos procurados e abrimos a porta da Regional para que esses residentes possam estar aqui conosco conhecendo como funciona a saúde pública da parte do Estado. Nós temos dois profissionais de Odontologia, um de Psicologia, dois de Enfermagem e dois de Fisioterapia. A gente tem tentado trabalhar nossa equipe para estar pronta porque todo dia capacitamos pessoas aqui na Regional. Isso aqui é uma escola.

Qual a diferença entre ocupar a Secretaria de Governo e agora como Superintendente Regional de Saúde?

Esse cargo é mais especializado. Lá era mais amplo, porque quando você é governo, você trabalha um pouco com a política e também com todas as secretarias. Era muito corrido e você acaba não conseguindo atender tudo. Aqui não, como eu sou da área da saúde, para mim não é novidade. Eu acredito muito no SUS. As pessoas falam muito mal, mas não existe um plano de saúde no mundo como o SUS. Com suas limitações e dificuldades, sim, mas é uma coisa excepcional, tanto que os Estados Unidos já quiseram conhecê-lo.

Precisamos fazer algumas mudanças. Precisamos melhorar a gestão, mas é muito bom. Eu pude dividir essa experiência que tenho. Eu comecei minha profissão no setor público, fui concursada nas três esferas e trabalhei também como chefe de unidade de saúde. Então, a gente queria atuar mais diretamente na nossa área. A experiência na saúde para mim é muito interessante. Aprendo com essa equipe extremamente capacitada que tenho.

Há poucos meses, O JORNAL de Uberlândia fez uma enquete sobre a situação da saúde na cidade. Como a senhora vê a questão da crise na saúde em nível regional e estadual?

Não podemos falar em crise da saúde, sem falar da crise por que passa o País. Primeiro, que é uma crise política. Nós tivemos até certo ponto uma irresponsabilidade de ter perpetuado essa crise política e ela virou uma crise econômica. Houve uma certa irresponsabilidade nesse sentido de deixar ela virar uma crise econômica.

Hoje, todos os recursos são financiamentos que vêm do governo federal para o Estado e do Estado para os municípios. Uma vez que a União está com dificuldade, todo o restante vai sofrer. Nós somos gratos aos nossos profissionais que têm feito da sua habilidade e capacidade, isso não ser pior. Têm dificuldades, falta de medicamento, leitos, mas isso sempre houve. Avança um pouquinho, mas eu acredito que hoje, a crise é geral, se você for olhar em outros Estados. Ela não acontece só em Minas Gerais. Então, não é responsabilidade unicamente do nosso governo do Estado.

Quais são os projetos para os próximos 18 meses à frente da SRS?

Terminar a implantação do SAMU. Essa é uma meta minha, que eu vim sedenta para que isso aconteça. Eu acho que é vergonhoso você ver uma cidade de quase 700 mil habitantes ainda não ter SAMU. Me envergonho, sendo uberlandense, dessa atitude que se teve aqui em Uberlândia de não querer o SAMU.

Também tenho como meta pode organizar a rede e capacitar cada dia mais os nossos técnicos da região, porque a gente sabe que com a mudança de gestão esses profissionais estão um pouco perdidos. A gente quer dar uma melhor condição para que eles possam trabalhar. E verdadeiramente melhorar essas políticas do SUS e implementá-las. O nosso objetivo maior é que as pessoas possam ter acesso à saúde.

Outra meta é descentralizar os medicamentos para que as pessoas recebam de forma mais fácil, mais humana. E alguns serviços que estamos trabalhando para credenciar, como por exemplo, o de ortopedia e traumatologia do Hospital Municipal, foi na minha gestão. Isso é muito bom para Uberlândia e região, porque somente a universidade fazia esse trabalho. Conseguimos também o alvará para que o pronto atendimento do Prata pudesse funcionar. Quero ajudar a regionalização para deixar de sobrecarregar Uberlândia. Estou trabalhando também para que seja colocado em funcionamento o hospital de Monte Carmelo, que é um hospital regional.

Como militante do Partido dos Trabalhadores, como a senhora avalia o contexto político?

Não quero puxar para partido A, B, C ou D, mas tenho de lembrar uma coisa. Por que as punições são maiores para o PT? Uma vez que a pessoa errou, tem que se pagar. Isso é dever da Justiça. Então eu fico pensando o seguinte: por que estamos tão envolvidos, deixando chegar uma crise como está chegando o Brasil por conta de interesses políticos de A, B, C ou D?

Esses interesses políticos têm nos levado a uma situação muito difícil e eu quero saber onde vamos parar. Será que a gente já chegou no fundo do poço. O problema não é só no PT, isso é um problema histórico, vergonhoso do brasileiro. Isso vem do Brasil Colônia.

A corrupção está na essência das pessoas. Não acho que é por causa do partido que as pessoas são desonestas. Eu acho que é questão de caráter, formação de família. Não é pelo partido A ou B porque, se for assim… Eu quero lhe fazer uma pergunta e gostaria que registrasse minha pergunta: qual partido não tem corrupção? Muitas vezes, eles falam assim: “Você não vai sair do partido?”. Aí eu pergunto: “Para ir para qual partido?”. O PP é o mais corrupto da história. Se você vir os números, o PT está envolvido, mas o PP, o número de políticos envolvidos é muito maior. PMDB, nem se fala. Pelo menos nós tivemos o caráter de apurar os fatos que estão sendo apurados.

Do seu ponto de vista existe um estigma contra o PT?

Hoje nós temos uma vergonha descarada com Aécio Neves e em todo momento ele está sendo protegido e quase que absolvido. Agora, por exemplo, o Vaccari, que estava preso, do PT, foi provado e absolvido. Vai voltar atrás para falar que ele não tinha culpa? Depois que estragou a família dele, a vida pessoal dele? A imprensa, a mídia vai voltar com o mesmo tom, que ele foi sacrificado. Hoje existe um estigma em cima do PT para acabar com o partido, e porque acabar, não só pela corrupção, vai ter que pagar pela corrupção, mas pelas bandeiras sociais do partido e democráticas, porque são muitos os avanços, que foram enormes nos governos Lula e Dilma para as pessoas menos favorecidas, nós estávamos erradicando a pobreza no País. Hoje ela volta. Em Uberlândia aumentou expressivamente o número de pedintes e ninguém cobra das autoridades, quando nós éramos cobrados do PT. Se isso acontece no governo Gilmar Machado, tenho certeza que o tratamento não seria o mesmo.

Texto: Leonardo Leal

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