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Gustavo Heck, presidente da ADESG, fala sobre estratégia, política e o cenário atual do Brasil

Foto: Leonardo Leal

O presidente da ADESG (Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra), Gustavo Alberto Trompowsky Heck, esteve esta semana em Uberlândia para ministrar a aula inaugural da 20ª turma do CEPE (Ciclo de Estudos de Política e Estratégia). Na ocasião, ele concedeu entrevista a O JORNAL de Uberlândia e falou sobre o papel da ADESG e suas ações em nível local e nacional, o trabalho de reconstrução da cidadania no País, a importância da ética e da moral. Heck abordou também a situação econômica e a fragmentação do poder político no Brasil e afirmou estar otimista com o País. Leia abaixo a entrevista.

Qual é o papel estratégico, em nível nacional, da ADESG?

A ADESG é uma associação criada para difundir as ideias e o pensamento da ESG (Escola Superior de Guerra). A base desse pensamento é difundir uma mensagem de que, mais do que nunca, nós precisamos conjugar civis e militares, estudando os grandes problemas do País, pensando em propostas que possam efetivamente contribuir para a efetiva soberania do País. Para ser soberano, o País precisa ter segurança, desenvolvimento e capacidade de defesa. Essa tríade é fundamental para que se possa dizer que se tem a soberania garantida.

Como funciona o trabalho da ADESG?

A ADESG tenta reproduzir, em cursos e atividades acadêmicas, os cursos e atividades que a Escola Superior de Guerra desenvolve. Entre as ações estão seminários, debates, palestras. É um trabalho de difusão por meio da rede que a associação tem. A ADESG está presente em todos os Estados e em algumas cidades. Estamos praticamente em 100 localidades.

A delegacia de Uberlândia é uma delegacia bem consolidada. Surgiu há muito tempo, já desenvolveu vários cursos. Estamos hoje em uma sessão de uma aula inaugural do 20º CEPE – Ciclo de Estudos em Política e Estratégia. Mas, evidentemente, a ADESG em Uberlândia não se limitou à execução desses cursos, realizando seminários, encontros, atividades culturais, reuniões de antigos participantes do CEPE. Ela procura criar um clima de intensa discussão e, sempre, debatendo as reais preocupações relacionadas ao País.

O momento atual de crise no País é visto pelo senhor como excepcional para a ADESG?

A base do pensamento da ESG e, consequentemente, da ADESG, sua primeira preocupação é o comportamento ético e moral. A ADESG nasceu de uma proposta. O primeiro presidente foi o Almirante Benjamin Sodré. Ele pregava que todo e qualquer trabalho, toda e qualquer ação de pensar o País precisava estar embasada nos princípios da ética e da moral. Leve esse conceito para o momento atual e veja a importância de estarmos realizando esse trabalho.

Estamos apresentando ao ministro da Defesa um trabalho e, certamente, vamos fazê-lo aqui em Uberlândia, que é de trazer jovens de 15 a 19 anos e incutir neles preocupações em relação à ética, ao comportamento moral, à cidadania. Nosso objetivo é mostrar a eles o que é brasilidade, a importância dos Símbolos Nacionais.

Alguma coisa que existiu no passado e depois, eu diria uma palavra muito dura, foi erradicado. Os mais velhos como eu, da terceira idade, se lembram de que a gente tinha Educação Moral e Cívica, Estudos de Problemas Brasileiros no colégio. Isso foi eliminado. Precisamos trazer de volta essa preocupação. A juventude tem que ser chamada para esse debate. Este é um trabalho, uma proposta que estamos levando ao ministro da Defesa junto com a Escola Superior de Guerra. Vamos desenvolvê-lo em todos os espaços que a ADESG tem no território nacional.

Como vai funcionar esse trabalho de recuperação da ética e da cidadania?

Serão palestras, cursos, atividades, por exemplo, de culto à bandeira. O que representam os Símbolos Nacionais. O nome que eu gosto é “difundir brasilidade”. Sem esquecer um detalhe importante, criar no País uma cultura de defesa, para que a juventude entenda por que nós devemos ter Forças Armadas. A sua importância na defesa da riqueza e patrimônio do País.

Nesta semana a revista inglesa The Economist publicou numa reportagem que o Exército Brasileiro estava se direcionando para a segurança interna, semelhante à Policia Militar, e que o Brasil não teria necessidade de realizar ações militares externas. Como o senhor avalia essa posição?

É uma boa pergunta. A função precípua das Forças Armadas é capacitar suas forças para defender o País contra agressões externas. Qual é a agressão externa? O Brasil tem enormes riquezas, como a maior reserva de água potável, minerais estratégicos, riquezas em energias alternativas. Tem o agronegócio, que daqui a pouco vai superar o agronegócio dos Estados Unidos.

Com todas essas riquezas, quem protege esse patrimônio? Quem protege são as Forças Armadas, por isso elas têm que estar capacitadas para defender esse patrimônio. Não se trata de nós termos Forças Armadas ofensivas no sentido de projetar poder, conquistar espaço. É proteger o nosso patrimônio.

O que acontece no momento presente é que a questão da segurança pública atingiu um patamar de escalada de violência tão forte que a segurança pública começa a se confundir com a segurança nacional.

A segurança nacional é esse patamar contra as agressões externas, mas essa violência urbana descomunal – eu vivo isso de perto por morar na cidade do Rio de Janeiro – isso está atingindo um patamar que, de repente, as Forças Armadas podem ser chamadas, exatamente, para colaborar na solução desse problema. É isso que está um pouco em discussão agora. Essa não é a função precípua das Forças Armadas, mas a escalada da violência está numa proporção tal que elas estão sendo chamadas para atuar nesse campo.

Quais os principais projetos da ADESG relacionados ao desenvolvimento e à segurança?

Quando a ADESG foi concebida no final da década de 1940, início da década de 1950, foi discutido um binômio que se chamava segurança e desenvolvimento. Você não teria segurança se não tivesse desenvolvimento e não teria desenvolvimento se não tivesse segurança. Então, os nossos cursos abordavam essa questão de como se promove o desenvolvimento.

Promove-se o desenvolvimento manejando as expressões do poder nacional, que são o poder político, econômico, científico, tecnológico. O poder psicossocial e o poder militar. Conjugando o estudo dessas expressões do poder nacional, se consegue criar um modelo em que se identifica o que tem que ser feito para o nosso desenvolvimento.

Quando eu digo o que tem que ser feito, estou numa linha de definição política. O que fazer? Então se estabelece o que é importante. Uma vez feito isso: como vou atingir? O que tenho que fazer para chegar a isso que foi definido como importante? Através da estratégia, que é o modo de ação para atingir esses objetivos fixados pela política. Daí essa ideia do Curso de Estudos Políticos e Estratégicos.

Qual ponto específico o senhor destacaria nesse binômio segurança e desenvolvimento?

Hoje, os temas importantes, sem dúvida, são os ligados à segurança e à educação. Em outubro, vamos realizar uma convenção nacional que conduzimos a cada dois anos. Esses dois pontos serão discutidos. A questão da educação sempre foi um tema de grande preocupação para nós. Não adianta você ter as riquezas que o Brasil tem, não adianta ter a potencialidade para ser uma grande nação, para ser efetivamente uma potência, se não tiver recursos humanos capacitados para utilizar e manejar esses recursos.

A educação segue sendo, na minha opinião, extremamente importante, não basta colocar o aluno na escola. É preciso garantir a ele qualidade da educação. Garantir que o professor tenha condições suficientes para repassar os ensinamentos que os estudantes têm que ter. Isso que é uma visão de educação em seu sentido mais amplo.

Algumas escolas militares têm conseguido bons resultados na educação. Em Manaus tem aumentado o número de escolas administradas pela Polícia Militar com o objetivo de colocar ordem, disciplina e cidadania. Mais escolas militares é um caminho para os desafios da educação?

Vou responder com um questionamento. Qual é a grande questão hoje do professor em uma escola pública? O professor hoje tem medo porque a escola pública não tem mais ordem, disciplina. Nas escolas militares você tem ordem e disciplina. Isso é fundamental. Estabelecer limites é alguma coisa que a gente perdeu. Houve uma decomposição do tecido social da sociedade brasileira. A família perdeu o papel essencial que tem na sociedade. Estou em Minas Gerais, que sempre foi um Estado conhecido pela velha tradição da família.

Não adianta ter uma escola com capacidade para ensinar, se não tiver uma família para educar, transmitir noções do que é certo e errado para essa juventude. A família é essencial e hoje você assiste ao quê? A uma decomposição dessa família. Esses desequilíbrios estão levando a uma sociedade violenta, sem princípios, absolutamente desfigurada, o que amplia exatamente a escalada da violência no campo da segurança pública.

Como o senhor analisa a situação do País?

O País, hoje, apresenta um quadro extremamente complicado no sentido de que há uma indefinição no quadro político. Isso está levando a uma sensação de que não se consegue antever o dia de amanhã no quadro político brasileiro, mas por outro lado a gente tem que reconhecer que o governo Temer teve uma visão de separar o econômico do político.

No campo econômico, ele conseguiu trazer pessoas de conhecida capacidade. Pessoas de respeitabilidade. E não deixou que houvesse nenhuma interferência do quadro político na indicação desse grupo de primeira linha do campo econômico.
Então, com toda essa situação que nós estamos vivendo, você pode reparar que no campo econômico o Brasil está apresentando indicadores extremamente interessantes. A bolsa de valores, que é um reflexo imediato do interesse do mundo dos negócios, estava num patamar de 44 mil a 45 mil pontos na época do governo Dilma. Na segunda-feira (10), ela bateu 63 mil pontos. Está acima de 60 mil pontos.

Os resultados positivos na economia revelam um otimismo do mercado?

Isso mostra que o mundo dos negócios está vendo perspectiva. Recentemente, foram apresentados números de crescimento da produção industrial. Mesmo nesse quadro confuso, isso está aparecendo e mostra que a condução da economia está em mãos de pessoas capazes. O trabalho de reestruturação da Petrobras que está sendo feito é um exemplo. Isso assegura algo que diz assim: “O Brasil tem jeito, não é inviável. O Brasil tem uma vitalidade, uma potencialidade que basta conduzir bem, que ele vai disparar”.

Quando você tem gente capaz conduzindo a economia, você traz de volta duas coisas essenciais, que são credibilidade e confiança. O mercado está sempre preocupado se há credibilidade e confiança no campo econômico. Isso está se mostrando, existem esses dois aspectos. Positivamente, os investimentos externos estão entrando. O Brasil é um país gigantesco, de safras recordes, é um país do futuro. Independentemente dessa confusão política, se tem uma economia muito sólida, essa é a grande verdade.

Do ponto de vista estratégico, o senhor vê o Brasil com perspectiva de crescimento?

Ele não tem como não crescer. O Brasil é um jovem atleta com todo o potencial pela frente, em um mundo em que se têm países inviáveis. O mundo europeu, para sobreviver, precisa da União Europeia. Eles têm que estar unidos porque os países têm dimensões e escalas em que um depende do outro.

O Brasil é um gigante. Os grandes atores internacionais estão de olho no Brasil. Estados Unidos, Rússia, China, todos estão de olho no Brasil devido a sua vitalidade. Outra coisa: é um país autossuficiente. Isso é importante. Existem três autonomias para um país ser uma potência. Autonomia alimentar, nós temos. Autonomia energética, também temos. E autonomia militar, essa tem que ser garantida para proteger as outras duas e permitir que a gente tenha soberania. Veja que o Brasil é alguma coisa de uma dimensão gigantesca. Os outros países sabem e estão olhando, por isso que a juventude não pode desanimar. A gente tem que trazer uma mensagem de confiança. De acreditar no país que está ‘condenado’ a ser uma grande potência.

Como o senhor avalia a fragmentação do poder político no País?

A ADESG não discute a questão política partidária. A ADESG discute o Brasil, propostas para o País. Nós analisamos o quadro político à luz da expressão política do poder nacional.

Não parece que estamos num processo de purificação? Não estaríamos nós em um processo de limpar a velha política, a oligarquia que ocupou e dominou a política nesse País? A gente não está tendo esse sentimento?

Os outros países não estão exatamente diante disso. Como o caso da França. Um sujeito que criou um partido, não tem dois anos de existência. O partido dominou a Assembleia Legislativa. Quer dizer, está dominando a França porque é alguém independente.

Acabei de ler uma entrevista do ministro Luiz Fux em que ele diz que a gente tem que pensar em ter candidatos independentes. Ou seja, a pessoa ter o direito de se apresentar no espaço político sem necessariamente estar vinculada a um partido político. Isso existe em vários lugares do mundo. O candidato independente é uma alternativa.

O presidente francês foi, praticamente, um candidato independente. Ele criou um partido, se apresentou, havia sido ministro, saiu por discordar da orientação do Hollande. Candidatou-se, venceu a própria direita extremada, que se apresentava como uma grande força. Agora está com uma proposta de mudanças no Poder Legislativo, como a redução do número de deputados. Ele está com uma proposta ousada. Evidente que isso pode ter uma repercussão.

Texto: Leonardo Leal

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