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O que houve com os estudantes brasileiros?

Foto: Pixabay

Passou quase despercebido da grande mídia. Não houve maiores consequências. Apenas mais um fato banal que ocorreu no meio cultural e acadêmico brasileiro em 2013. Num debate sobre cotas raciais durante a Festa Literária Internacional de Cachoeira na Bahia, um dos debatedores – Demétrio Magnoli – foi impedido de falar. Eu não estava presente ao debate. Logo, dele só fiquei sabendo por meio dos jornais. Eles noticiaram apenas que estudantes da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), em protesto e, em alguns casos, seminus, impediram o debatedor de falar e acusaram-no de ser racista, baseados, unicamente, no fato de ele ser contrário à existência das cotas raciais. Ecoou nos jornais a frase de uma estudante de Jornalismo da UFRB que dizia: “Cachoeira é terra de preto, remanescente de quilombo”. Sim, a estudante que se manifestou contra a liberdade de expressão fazia, justamente, Jornalismo!

Houve muito tumulto, tentativas de negociação que incluíam até mudar o tema do debate, mas a vontade dos estudantes prevaleceu: o debatedor não pode manifestar-se. Outra mesa também foi cancelada. Nela haveria a participação de outro debatedor com ideias consideradas de Direita: Luiz Felipe Pondé. Segundo um dos organizadores – Emanuel Mirdad – as mesas foram canceladas em razão de os organizadores não terem condições de garantir a integridade física dos dois debatedores. Venceu a “lei” da mordaça. Não houve notícias acerca do que ocorreu com os estudantes que impediram o debate. Aparentemente não foram presos. Provavelmente nem foram punidos em sua universidade. Talvez tenham até recebido parabéns de colegas ativistas. Afirmo isso, pois, na internet, alguns jornais de Extrema Esquerda apoiaram e festejaram a atitude dos estudantes.

Antes de comentar a banalização que esse fato esconde no que concerne ao crime contra a liberdade de expressão, acho importante imaginar a situação contrária: em um debate em Blumenau/SC, um palestrante negro é impedido de falar, por estudantes universitários locais. A razão seria unicamente por defender ele, hipoteticamente, a existência das cotas raciais. Alguns estudantes chamariam o expositor de racista por defender as cotas e um estudante de Jornalismo afirmaria: “Blumenau é terra de branco, remanescente da imigração germânica”. Não é necessário dizer que o caso ganharia proporções muito maiores. Provavelmente seria dada voz de prisão contra os estudantes e eles seriam expulsos da universidade. Haveria, com certa razão, comoção na sociedade brasileira. Os ativistas seriam massacrados pela mídia e responderiam a processo criminal por racismo e crime contra a liberdade de expressão.

Alguns mais afoitos irão dizer que a comparação não é válida, pois o primeiro caso esconde “apenas” um crime contra a liberdade de expressão e o segundo constitui caso claro de racismo. Para estes resta dizer que a definição de racismo existente em um tradicional dicionário de língua portuguesa disponível online em fins de 2015 era a seguinte (Dicionário Aurélio, 2015): “Sistema que afirma a superioridade de um grupo racial sobre os outros, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria (racismo antissemita dos nazistas)”. Outras definições consignadas em dicionários de língua portuguesa afirmam que racismo é (Dicionário Dicio, 2015): “Sistema doutrinário ou político que estabelece a exaltação de uma raça, em detrimento das demais…” ou “Preconceito efetivado, através da discriminação, e direcionado aos indivíduos pertencentes a uma raça ou etnia diferente daquela de quem discrimina”. Difícil, em análise que seja imparcial e distante das paixões inflamadas, negar que não houve, na manifestação ocorrida na Bahia, também fortes indícios de comportamento racista: a única diferença entre os dois casos seria a de que, no caso hipotético de Blumenau, a atitude racista seria muito mais explícita, pois viria de um grupo menos vitimizado. Com isso não nego que o grupo social composto pelos que possuem a pele negra não tenha, na média e historicamente, sido vítima de racismo no Brasil de forma mais contundente e explícita que os demais. Afirmo apenas que não foram os únicos que sofreram esse mal. Basta lembrar que judeus, árabes, poloneses, japoneses, chineses e diversos outros grupos étnicos, até mesmo os alemães, sofreram racismo ao longo da história. E que o fato de pertencer a um grupo que muito penou com esse mal não dá direito a ninguém de reproduzi-lo, mesmo que seja de forma sutil. Logo, se em um caso existiu um ato racista, no outro também ocorreu o mesmo mal.

No entanto, o objetivo deste texto é discutir o problema a que remete o fato inicialmente narrado: o atentado contra a liberdade de expressão.

Minha infância e parte da minha adolescência vivenciaram o Brasil da ditadura militar; uma ditadura de Direita em fase terminal. Havia ainda limitações à liberdade de expressão, no entanto, as universidades já eram dominadas pelo pensamento de Esquerda. E um dos gritos mais fortes que ecoava de dentro delas era o pela liberdade de expressão. Ao findar essa ditadura, em meados dos anos oitenta, ganha força na sociedade brasileira o pedido de Censura Nunca Mais!

Confesso que, nessa época, no início da minha juventude, ainda vivia na ilusão propagada em minha mente pelos meus professores colegiais e reforçada pela revolta da intelectualidade brasileira contra a ditadura, que a censura era um mal da Direita. Que apenas governos de Direita censuravam a liberdade de expressão.

Passaram-se trinta anos. Hoje, vivemos em uma democracia. Com todos os seus problemas, mas ainda assim uma democracia. Treze anos de governo de Esquerda deixaram suas marcas. As universidades estão ainda mais à Esquerda do que estava o governo destituído. Não são raros os cursos em universidades federais onde predomina um discurso de Extrema Esquerda. Principalmente naqueles de Ciências Humanas. Qualquer tentativa de censura a esses grupos não é, de forma nenhuma, tolerada. Sendo assim, aparentemente viveríamos em um ambiente de extrema liberdade. No entanto, a situação não é bem essa. Parte da academia brasileira, não satisfeita com a ampla liberdade de expressão conquistada, se esforça agora para reprimi-la e estabelecer seus pontos de vista sobre a sociedade, com o objetivo de impor a ela uma nova forma de ver o mundo. Doutrinam-se jovens em uma mentalidade de Esquerda, não raro de Extrema Esquerda, e eles são incentivados a “partir para o embate”, ou seja, a tentar construir e instituir no mundo, para além da academia, aquela maneira de pensar e de agir que foi amadurecida nos corredores e salas de aula das universidades. Trata-se de uma “ditadura” um pouco diferente. Uma “ditadura” que, pelo menos no atual momento, é muito mais ideológica. Ao invés de impor à força limites à ação das pessoas, essa nova “ditadura” tenta moldar a maneira de pensar da sociedade e a partir daí agir sobre a legislação e se tornar hegemônica. E essa ideologia que nasceu e cresceu nas universidades é pouco afeita a contestações. Alguns a chamam de “Ditadura” do Politicamente Correto. Luiz Felipe Pondé, um dos censurados em Cachoeira/BA pelos estudantes da UFRB, denomina esse movimento de Ditadura dos Ofendidos. Todas estas são excelentes denominações e trazem em si muito de verdade. Entretanto, creio que o melhor seja simplesmente chamar de Fascismo, pois o mal deve ser conhecido pelo seu verdadeiro nome. Trata-se de um Fascismo que cresce e amadurece na academia brasileira e que de lá já sai para as ruas clamando pelo poder e determinando, mesmo antes da tomada definitiva desse poder, não só como as pessoas devem agir, mas o que devem pensar.

O acontecimento narrado no início deste texto é um dos resultados desse movimento. Apenas um, entre numerosos outros eventos semelhantes. Mas um caso exemplar do que se transformou a juventude atual. Os jovens universitários que trinta anos atrás arriscariam sua integridade física para garantir que um palestrante tivesse liberdade de expressão foram substituídos por outros que fazem justamente o contrário: ameaçam a integridade física de um debatedor que tenha ideias contrárias às suas para impedir que ele possa usufruir de sua liberdade de expressão.

Como degeneramos tanto e tão rapidamente?

Como chegamos ao ponto de termos estudantes de Jornalismo de universidades federais contrários à liberdade de expressão e atuando de fato para cercear essa liberdade a um debatedor? Que tipo de formação estamos dando, no seio de nossas universidades públicas, a esses alunos?

Será que também temos em nossas melhores universidades estudantes de Direito contrários ao direito de defesa de um réu? Não sei responder a essa pergunta, mas temo que, se o réu for filiado a uma ideologia de Direita, provavelmente, sim. Ora, se da perspectiva do Direito não sei responder com exatidão à questão que propus, à luz de outras perspectivas epistemológicas cabe sugerir a resposta. Em meus anos de academia tenho visto com frequência, nas melhores universidades brasileiras, vários exemplos de estudantes e professores de Geografia que negam a ação da natureza na vida das pessoas e que nunca utilizam mapas em suas aulas e análises. Conheço estudantes de Filosofia que consideram estudar Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e diversos outros filósofos “clássicos” como perda de tempo. Professores e estudantes de Sociologia que leem apenas autores marxistas. Estudantes e professores de Belas Artes que querem destruir a beleza na arte e assim por diante.

Repito a pergunta: como degeneramos tanto e tão rapidamente? Como um movimento pela liberdade de expressão se tornou em menos de trinta anos um movimento contra a autonomia de pensamento?

Não existe uma resposta simples para essa pergunta. Mas um caminho para entender a origem do problema é aceitar o fato de que em muitos dos departamentos e cursos ditos de Ciências Humanas das universidades federais do Brasil, o pensamento científico foi substituído pelo discurso político! Por um discurso político marxista de Extrema Esquerda que, lobo na pele de cordeiro, finge ser erudito e científico. A universidade brasileira forma cada vez menos profissionais e cada vez mais ativistas que, se sentindo donos da verdade, tentam nos obrigar a pensar como eles. O Fascismo do Politicamente Correto, no Brasil, foi gestado, criado e alimentado em universidades federais. Foi lá que a víbora fez seu ninho!

Por consequência, ou mudamos o que ocorre lá dentro, ou em breve, no Brasil, não haverá mais liberdade alguma. O “caso de Cachoeira/BA” exemplifica muito bem isso!

 

Texto: Pedro Hanks

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