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Peripécias do Ídolo fazendeiro nos gramados!

Foto: Divulgação

Esse Verdão de eterna juventude apesar de seus quase 100 anos de vida, que o amigo aprendeu a amar, também apronta das suas. É um legítimo moleque travesso.

Em 1963, o Periquito subiu para a elite do Mineiro. O Uberaba já estava na divisão especial há muito. Gozava de um respeito considerável nos bastidores do esporte bretão. Olhavam-nos de canto de olho, com excesso de superioridade arrogante.

Como caçula, a FMF cravou a faca na gente, presenteando-nos com uma tabela madrasta. E o carinho vindo da entidade máxima do futebol das Minas Gerais para o Verde foi enfrentar o Cruzeiro, com Tostão & Cia. Essa parada dura ilimitada foi no dia 11 de agosto, em Belo Horizonte, no tradicional Independência.

DEUS, nesse dia, estava bem-humorado. Caprichou na pintura de um céu azul inigualável, decorando-o com uma iluminação de um sol soberanamente esplendoroso, num domingo radiante. Eu e meu pai no estádio, estávamos de verde, perdidos e misturados naquele mundão de gente vestida de azul. Na época, inexistia torcida organizada. Via-se o jogo todos lado a lado, um zoando o outro.

Assim que o alto-falante anunciou o Uberlândia com Guga, Zé Roberto, Dimas, Dunga e Serafim; Waldemar, Maércio e Zinho; Fazendeiro, Sabará e Waltinho, vibramos demais e fomos chamados de caipiras, rsrsrs.
Acirrando nossa fúria, o locutor fanfarrão do estádio sorriu largamente e disse: -– O time deles tem até fazendeiro! Será que vai jogar de botina amarela?

A piada fez muitos rirem do mau gosto. Na época, não era como hoje, em que qualquer piadinha fora da ética gera processos de perdas e danos!

Campo lotado, e o carismático Tostão atraía torcedores de todos os cantos.

O Estrelado entrou no gramado ovacionado ensurdecedoramente pela sua galera. Enquanto isso, o Periquito penetrou na arena mineira de fininho, discretamente.

Iniciou-se o jogo. Time do Juca Ribeiro partiu pra cima. Parecia que o caçula do campeonato era o time grande favorito, em virtude de sua ousada agressividade inicial!

Meu pai comentou:
– O técnico Edgard de Brito ficou maluco? Partir pra cima deles assim? Não vamos aguentar esse ritmo, filhão! É suicídio!

Nesse momento, levantei, gritando, eufórico! Fazendeiro deu um nó no lateral Massinha e também no becão Vavá, que veio socorrer o companheiro. Num lampejo, pressentiu o 9 Sabará afunilando. Inteligente e antevendo a jogada, passou-lhe a bola na marca penal. Nosso centroavante meteu um pombo sem asa, que saiu zunindo, tirando tinta do ângulo esquerdo de Fábio.

O Verde prosseguiu dando as cartas da contenda! Dunga tomou a bola de Tostão na meia-lua defensiva, entregando-a a Maércio. Nosso meio-campista fez uma graça no círculo central, chapelando Dalmar, lançando Fazendeiro na direita. A gorduchinha corria veloz, num vazio. Fazendeiro e o ala Juca apostavam corrida para chegar à bola. O ídolo do Triângulo chegou primeiro. Num toque curto e seco, cortou o adversário. Partiu para a área. Driblou o volante e o quarto-zagueiro. Cruzou na cuca legal de Zinho. Gritamos “Gooo….”, mas Fábio fez um milagre. Espalmou a bola para escanteio.

Os torcedores celestes pararam de tirar sarro em nós. Apenas perguntavam:
– Quem é esse ponta? Cara ousado, né? O salário dele deve ser uma fortuna! Esse magricela é de outro planeta!
O massacre esmeraldino prosseguia. Até que aos 24 minutos do primeiro tempo, mesmo com dois marcadores na cola, Fazendeiro, numa jogada genial, enganando o bom Fábio, fez U.E.C. 1 a 0.

Nunca vi meu pai vibrar tanto. Eu saltei no pescoço dele. Ouviam-se nas arquibancadas o silêncio e os nossos gritos de alegria.

Meu pai profetizou:
– Agora nosso técnico vai colocar mais um volante, fazer cera e segurar o jogo.

Meu velho errou feio: o Furacão continuou agredindo a Raposa. Fazendeiro estava impossível. Carimbou a trave rival duas vezes. O segundo gol ia acontecer a qualquer momento, de tão maduro.

Aos 32 minutos da etapa inicial, numa bola esticada de Serafim, Fazendeiro partiu fintando todo mundo. O estádio todo de pé, não sabendo o que estava acontecendo com aquele mágico maluco impossível de segurar. Fechado por 3 adversários, nosso craque viu Valtinho adentrando livre e solto a zona do agrião belorizontina. Enfiou-lhe um passe açucarado. Eu vi pegar fogo no boné do guarda com essa jogadaça. Verdão 2 a 0.

No tempo derradeiro, o time da Floriano Peixoto passou a tocar a bola com inteligência. O treinador procurou segurar o ímpeto de Fazendeiro, temendo uma contusão séria do astro da equipe. Apesar disso, Fazendeiro aprontava das suas, para o colírio da plateia, que a essa altura passou a curtir sua genialidade. Malandramente, alguns jogadores de renome evitavam dar o bote em nosso ídolo, receosos de um drible desconcertante.

No final do show de bola, o Uberlândia saiu aplaudido das quatro linhas. O Cruzeiro mostrou sua grandeza e tradição. Resignado, aceitou a superioridade do rival triangulino. Reconheceu que, naquele dia inspirado, nem a melhor seleção do universo seguraria Fazendeiro. Em instante algum a Raposa praticou jogo desleal.
Saímos do Independência tranquilamente, bastante cumprimentados. Foi mais um dia inesquecível de muitas alegrias proporcionadas pelo nosso time do coração!

 

Texto: Lucimar César

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