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A condição dos escravos

Foto: Divulgação

Aqui, neste sertãozão, sem comunicação nenhuma com os grandes centros, sem dinheiro, as coisas trocadas em vez de vendidas, quase tudo produzido pro consumo apenas, como seria a vida dos escravos? As primeiras famílias que chegaram trouxeram poucos escravos. Mais ou menos meia dúzia. A plantação era mínima, pro gasto. As criações, também. Quando havia excesso, levavam para os mercados próximos: Sant’Anna do Rio das Velhas (Indianópolis) e Santo Antônio de Uberaba. No carro de bois ou no lombo das mulas. Um carro de bois daqui a Uberaba levava uma semana. De lá traziam sal, arame farpado, tecidos, máquinas de costura, armas e munições, que trocavam com cereais, fumo, toicinho e couros que levavam. Rodava pouco dinheiro. Os escravos e a família do senhor trabalhavam juntos no eito. Os escravos eram a mercadoria mais cara que possuíam. Em alguns poucos inventários daqueles tempos que consegui ter em mãos, meia dúzia de escravos valia mais que centenas e centenas de alqueires de terra.

As terras do José Alves de Rezende eram 144 alqueires de cultura e 461 de campo, no valor total de dois contos, seiscentos e setenta e quatro mil e seiscentos réis. Já os escravos, que eram sete, sendo uma criança de dois anos e uma escrava aleijada, foram avaliados em seis contos e cem mil réis.

A decantada promiscuidade da escravaria não ocorria por aqui porque era rara a negociação entre os proprietários, tanto pela falta de dinheiro como pela quantidade pequena de escravos de cada senhor. Nas grandes plantações é que havia um mercado de escravos vendidos como gado. O comprador levava os escolhidos, que às vezes deixavam esposa e filhos. A própria necessidade biológica alimentava a promiscuidade. Aqui, não. Os senhores de escravos eram todos católicos fervorosos. Os padres não admitiam a união sexual dos escravos, nem de ninguém, fora do casamento. É possível ter existido muita união não sacramentada, isso porque podia ser do interesse do senhor não legitimar o casamento. Isso não era promiscuidade.

A grande quantidade de crianças mortas antes dos dois anos de idade indica duas coisas: primeiro, a alta taxa de mortalidade tanto para brancos como para negros em razão das mínimas condições de higiene e saúde. Não me parece que houvesse grande crueldade física ou moral contra os escravos, principalmente pelos casamentos feitos entre negros de senhores diferentes. Isso significa que havia uma aproximação entre eles. Houve também muitos casamentos de negros e brancos, o que confirma uma certa liberalidade do dono, principalmente quando o negro nubente fosse escravo. Porque surge uma situação civil nova, estranha ao contexto, que só a liberalidade podia suportar.

A discriminação e o desprezo, entretanto, devem ter sido muito fortes porque se projetaram para depois da Abolição, com explícitas manifestações até meio século atrás, mais ou menos.

Nas primeiras décadas do século XX, havia um grande desprezo pelo negro, assim como um grande despeito por sua condição de cidadão livre. Isso só começou a ser engolido devagar pelos brancos a partir da década de 1971, por razões ainda não plenamente identificadas. Até os anos 60, negros e brancos se dividiam no “vai-e-vem” da avenida e muitos bares, restaurantes e clubes não aceitavam negros.

 

Fontes: livros da Igreja, inventários etc.
Texto: Antônio Pereira

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