Entrevista Expresso Foco

À frente da portaria do Praia Clube, ‘Seu Pedro’ fala sobre os quase 70 anos que convive no clube e as mudanças em Uberlândia

Ele é conhecido como seu Pedro, mas seu nome é Otair Rodrigues Silva. Nascido em Araguari, vive em Uberlândia desde os quatro anos de idade. Hoje é o mais antigo funcionário do Praia Clube. Já trabalhou em diversas funções, chegou até ocupar a gerência por nove meses, mas uma enchente, ocorrida nos idos de 1980, assustou-o de tal forma que ele preferiu voltar para a portaria. Essas e outras histórias, seu Pedro contou a O JORNAL de Uberlândia. Leia abaixo.

Hoje o senhor é chefe da portaria, mas como começou sua história no Praia Clube?
Já fiz de tudo dentro do Praia Clube. Fui varredor, tomei conta das quadras de tênis, por volta de 1965. Depois fui para a portaria. Teve uma época que saí da portaria e fui comandar o clube, na falta do gerente. Passei a comandar, nesse período veio uma enchente tão braba aqui… a água subiu muito, até a portaria. Para todo lugar que você olhava, era um rio.

Estavam fazendo uma ponte nova e água estava represada e, com a enchente, a água estourou as estacas. Isso foi feio. Isso foi nos anos de 1980. Fiquei por nove meses comandando o clube e depois desse episódio pedi para voltar à portaria ou ser mandado embora. Os dirigentes na época falaram para eu voltar para a portaria.
Aqui no clube, meu pai veio para cá, aqui só não trabalhou minha mãe. Meu pai foi gerente por muitos anos, todos os meus cinco irmãos trabalharam no clube. Foi uma época boa.

Com todo esse tempo de trabalho, o Praia é a sua segunda casa?
Eu considero o Praia Clube a minha segunda casa, se você não me achar em casa, pode vir aqui, que você me encontra. Participei de uma reportagem aqui, e estava na quarta geração de famílias que passavam pela portaria. Os sócios chegam, brincam, caçoam com a gente, mas tudo dentro do respeito.

Como é a sua vida quando não está no clube?
Minha vida é da portaria para casa. Tive seis filhos com a primeira mulher, ela faleceu, e eu tive mais cinco filhos com a segunda mulher. Estão todos bem, graças a Deus. A mesma educação que meu pai deixou para mim, eu deixei para eles. Uma coisa que meu pai me ensinou na vida é a honestidade e o trabalho.
Graças ao bom Deus tive uma vida boa. Hoje sou eu e a patroa. Não tenho uma dívida sequer. Estou aposentado desde 1984, minhas contas são água, luz e a Pirâmide (plano funerário). São 82 anos bem vividos. Agora, quando eu sair de férias, vou fazer um novo check-up.

O senhor mora perto do clube? Já teve vontade de morar em outra cidade?
Hoje eu moro na Avenida Getúlio Vargas. Mudei para lá em 1984. Era tudo mato na época. Antes eu morava na Avenida Liberdade, aqui perto. Mudei porque o movimento aqui embaixo estava grande, agora o movimento lá em cima dobrou. Para sair de carro, é a coisa mais difícil que tem.

Sou caseiro, não gosto muito de sair. Já andei bastante. Se eu não morasse em Uberlândia, tinha vontade de morar em Estrela do Sul. Um povoado bom, sem violência, sem nada.

Como surgiu o apelido de Pedro?
Eu tenho desde criança, o Pedro Malasartes. A turminha nossa pintava o sete. A maior parte dos associados sabe o meu nome porque saiu no jornalzinho do clube. O Celso Machado, da Revista Almanaque, foi diretor aqui e eu saí na revista dele.

Qual foi a história que o senhor contou para a Revista Almanaque?
O Celso queria saber sobre a visita do Pelé. Todo mundo fala que eu barrei quando ele esteve aqui, mas eu não barrei. É uma lenda que o povo fala. Ele veio com uma delegação de fora, vieram almoçar no restaurante aqui no clube.
Quando o Adalberto Testa era presidente, gente de cor não entrava aqui como sócio. Agora, como visitante, acompanhado do sócio, não podia ser barrado. O Pelé entrou com uma delegação, depois disso ele esteve em Uberlândia para inaugurar uma academia e disse que foi muito bem recebido durante a visita ao Praia. Também recebemos algumas delegações de futebol, mas o mais importante foi o Pelé.

O que o senhor se lembra de como era o clube antes e o que mudou?
A primeira obra que teve aqui foi a construção do ginásio, na época do Adalberto Testa. Nos anos de 1962 e 1963. Hoje, mudou muito, o clube era menor. Essa área da portaria central era mato. Tinha três quadras de futebol de salão. Tinha um parquinho infantil para os meninos, onde é a beira do rio. E foi acrescentando, a primeira obra grande foi essa aqui. Depois entrou o seu Cícero Naves, aí isso aqui explodiu. O clube teve um grande crescimento de 1963 e 1964 para cá.

Com todo esse tempo de casa, o senhor criou um bom relacionamento com todos os sócios?
Graças a Deus eu tenho um laço de amizade muito bom aqui no clube. Tem aqueles que não gostam da gente. Meu serviço é o seguinte: eu trabalho para o clube e tem gente que acha que pode fazer o que quer. Não. Eu trabalho para o clube. Às vezes chega uma pessoa com visitante, a gente não pode deixar entrar.

O próprio presidente fala para mim que eu tenho que ter jogo de cintura. Mas isso você tem que ter dependendo das pessoas. As pessoas de idade, a gente respeita muito.

Estamos com 17 funcionários na portaria. Tem outro coronel que comanda a segurança e ele comanda a portaria também. Tem mais de 15 anos que estou à frente das portarias. Isso a gente não pode liberar de qualquer jeito.

Como o senhor vê a Uberlândia hoje?
Em Uberlândia a crise está braba, as empresas mandando as pessoas embora, mas o clube, ele segura os funcionários.

Uberlândia é uma grande cidade, mas hoje anda perigosa por causa da violência. Isso é algo difícil de resolver, que surge mais por causa do desemprego.

 

Texto: Leonardo Leal

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