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Contradições e hipocrisia

Foto: Pixabay

Encontrar uma pessoa que seja completamente coerente entre seus ideais e ações, que nunca se traia, é algo muito difícil. Todos nós temos nossas fraquezas e no dia a dia construímos pequenos fossos que separam nossas atitudes dos nossos valores e/ou dos nossos discursos. Viver não é fácil e ser completamente coerente é muito mais difícil ainda.

É por essa razão que devemos ter cuidado na educação de nossos filhos e em aconselhar amigos e familiares. Apesar de ser praticamente impossível evitar pequenas incoerências entre discurso e prática – pois errar é humano -, não podemos deixar nossas ações se afastarem muito do nosso discurso. Quando isso ocorre, deixamos de ser apenas contraditórios e nos tornamos hipócritas. É por isso que os progenitores devem dar para seus filhos bons exemplos do que ensinam. Ter pais hipócritas é algo terrível para a educação de uma criança.

Na vida pública as coisas ficam mais difíceis. São raros os personagens coerentes ou incoerentes. A maior parte deles já ultrapassou essas fronteiras e é hipócrita mesmo. Além disso, a sociedade moderna abandonou os antigos mestres – Sócrates, Platão, Aristóteles, Jesus Cristo etc. – em favor de ídolos da cultura pop que raramente nos têm algo de útil a dizer. Nossos jovens vão assim, pouco a pouco, trocando os valores mais altos por prazeres mesquinhos. Abandonam o pensamento profundo pela filosofia rasa.

Em melhor situação não se encontram aqueles que, no seio de movimentos sociais e políticos, elegeram por ídolos ícones da contestação à sociedade moderna capitalista. Para perceber isso, basta analisar a biografia pessoal, a vida privada, de dois de seus maiores nomes: Karl Marx e Simone de Beauvoir.

Karl Marx é o mestre dos mestres de quase todo pensador de Esquerda. Está, em maior ou menor grau, no pedigree de todos eles. Sua vida privada foi, durante longo tempo, encoberta por pesada névoa, pois logo após a Revolução Russa os bolchevistas procuraram comprar no exterior tudo que estivesse relacionado com sua existência pessoal. Seus escritos originais, suas cartas pessoais e até os documentos e correios de seus familiares foram adquiridos. Uma vez feito isso, apenas o que interessava aos revolucionários russos foi divulgado. Tal situação só se modificou após o esfacelamento da antiga União Soviética. Uma vez abertos os arquivos do Kremlin, pesquisadores ocidentais tiveram acesso a essa documentação e puderam, pela primeira vez, traçar com segurança a história da vida privada de Karl Marx. Entre esses pesquisadores, merece destaque Mary Gabriel, que reconstituiu a vida de Karl Marx com base nas cartas redigidas por sua família. O trabalho rendeu um belo livro intitulado: O Amor & O Capital. Com base nesse estudo e em outras obras semelhantes é possível descobrir que o autor de O Capital esperava ficar rico com a publicação de sua obra-prima. Alimentou, inclusive, esse sonho para toda sua família. Ou seja, o pai do marxismo, na vida privada, queria mesmo era ser rico. Entretanto, muito mais que isso, o trabalho de Mary Gabriel confirma que o pai do socialismo foi descrito por quem o conheceu como sendo uma pessoa muito inteligente, extremamente culta, mas autoritária ao extremo, maliciosa, muito egoísta e arrogante. Em toda a existência só conseguiu guardar um amigo: Friedrich Engels. Justamente, e talvez por causa disso, o que foi responsável por sustentá-lo praticamente por toda a vida. Em todos os outros amigos e companheiros, Karl Marx deixou profundas mágoas. Entretanto, os que mais sofreram com suas atitudes foram os membros de sua própria família.

Cronologicamente, os primeiros a padecer por causa dele foram seus pais e irmãos. Nasceu em família de classe média alta, filho de conceituado advogado de Trier, oeste da Alemanha. Teve os estudos universitários – Direito na Universidade de Bonn – custeados pelo pai. No entanto, da farta mesada que recebia, gastava quase tudo em farras e bebedeiras. 877Esse comportamento, obviamente, foi inquietando seu pai. Os atritos entre o progenitor provedor e responsável e o filho farrista e irresponsável foram crescendo até o ponto em que o pai o obrigou, em 1837, a se transferir para a Universidade de Berlin, que era mais rigorosa. A mudança de instituição só piorou o comportamento do estudante Karl Marx. Mas, infelizmente, o pai não teve tempo para corrigir o filho, pois veio a falecer no primeiro semestre de 1838, pouco depois de, em virtude dos insistentes apelos da mãe, Karl Marx tê-lo visitado. Menos sorte teve seu irmão Eduard, falecido no fim de 1937 aos onze anos de idade depois de longa doença, que, apesar dos muitos apelos do pai, não recebeu uma visita sequer do irmão mais velho, nem na doença, nem no enterro. Após a morte do irmão e do pai, a mãe, incapaz de continuar sustentando Karl Marx com seu comportamento perdulário e profundamente magoada com as atitudes do filho, praticamente cortou a mesada dele. Há de se salientar que os pais de Karl Marx esperavam que ele, o primogênito, como era comum na época, amparasse a família na morte do patriarca. No entanto, isso nunca aconteceu, pois após o falecimento do pai, Karl Marx não ajudou a mãe e os irmãos caçulas. Preferiu casar-se com Jenny Westphalen, jovem rica e nobre de Trier, e deixou os parentes originais entregues à própria sorte.

Após o casamento com Jenny Westphalen, continuou beberrão, perdulário e pouco propenso a querer o bem da própria família, pois esse desleixo com relação a sua família original estendeu-se ao sustento dos filhos e à administração das heranças recebidas: em vida recebeu e gastou rapidamente três polpudas heranças. Aliás, Karl Marx adorava receber heranças, pois em carta para Friedrich Engels em que discute sua difícil situação financeira, torce para que um tio rico de sua esposa morra logo e deixe para ela sua herança. Um texto da carta traduzido para o português diz o seguinte: “A única luz no horizonte é a doença de um tio reacionário da Jenny (sua esposa). Se o patife morre, eu saio desse aperto”. O “patife” não morreu, ele não saiu do aperto e quem morreu de fome, frio e maus cuidados devido a sua incapacidade de garantir o próprio sustento, foram quatro dos seus sete filhos. Sobraram três filhas, das quais duas se suicidariam em idade adulta em diferentes situações: Eleanor em 1898 e Laura em 1911. No entanto, as tragédias da vida pessoal de Karl Marx foram além. Por um longo período, ele e sua esposa tiveram uma governanta chamada Helene Demuth. Esta se tornou amiga de Jenny, mas, após uma longa viagem da patroa, foi seduzida sexualmente por Karl Marx. Helene Demuth engravidou e foi nessa hora que o pai do socialismo científico demonstrou seu perfil de patrão inescrupuloso e explorador: obrigou a moça a doar a criança assim que ela nascesse. Para tanto, fez contato com seu rico amigo Friedrich Engels e pediu que ele arrumasse uma família para adotar seu filho antes do retorno da esposa traída. Isso foi feito logo depois de a criança nascer e Karl Marx, além de ter obrigado sua empregada a se livrar do filho dela, nunca procurou ou ajudou financeiramente a criança bastarda.

Melhor biografia não teve Simone de Beauvoir, intelectual francesa que trabalhou pelo casamento do marxismo com o movimento feminista. O discurso dessa senhora, embora possuísse forte retórica, foi pobre em argumentos científicos. Mais pobre ainda, miserável mesmo, foi sua biografia: entre 1943 e 1944, Simone de Beauvoir foi diretora da rádio estatal de Vichy, rádio do governo francês colaboracionista com os nazistas durante a ocupação da França na Segunda Guerra Mundial. Mas isso não é tudo, pois pesa em sua biografia o fato de ela ter se relacionado sexualmente com diversas de suas alunas menores de idade e, ao que parece, essas intimidades, não raro, alimentavam um triângulo amoroso, porque depois de seduzir e se relacionar com essas estudantes, Simone de Beauvoir as passava para seu companheiro Jean Sartre. Não vejo problema nenhum no fato de ela ser bissexual e de ter tido caso com diversas alunas, embora confesse torcer o nariz para esses sofisticados jogos sexuais. O problema é que essas moças eram menores de idade e nem todos esses relacionamentos foram baseados no duplo consentimento. Sim, pairam sobre Simone de Beauvoir acusações de ultraje sexual. Um dos casos foi o de uma aluna chamada Bianca Lamblin. Essa estudante disse ter sofrido abuso sexual por parte de Simone de Beauvoir quando ela era sua professora. Tal acusação parece ser verdadeira, pois não foi isolada. Em 1943 Simone de Beauvoir foi proibida de lecionar na França por causa de um segundo affaire que lhe custou condenação por tribunais: sua ex-aluna Natalie Sorokine a acusou de sedução sexual quando ela, a vítima, ainda era menor de idade.

Interessante que essa questão de sexo na juventude acompanhou Simone de Beauvoir durante muito tempo, pois em 1977, junto com Sartre, Michael Foucault, Gilles Deleuze e outros membros da “intelectualidade” francesa, ela assinou uma carta pública dirigida ao Parlamento Francês pedindo a abolição de uma idade mínima para maioridade sexual que, na época, era de 15 anos. Fora esse, no mínimo, estranho comportamento sexual, Simone de Beauvoir teve sua correspondência com outra feminista, Betty Friedman, publicada (essa publicação encontra-se disponível em inglês na internet. Chama-se: Sex, Society and The Female Dilemma – A Dialogue between Simone de Beauvoir and Betty Friedan). Nessa correspondência Simone de Beauvoir afirma claramente que não aceitava que as mulheres tivessem a opção de serem donas de casa. Não admitia essa opção justamente porque muitas delas escolheriam ficar em casa e cuidar dos filhos. Logo, a heroína do feminismo atual não admitia a possibilidade de que cada mulher tivesse a liberdade de ser feliz a seu modo e nem defendia a livre escolha para o sexo feminino, mas, sim, que as mulheres tivessem apenas a possibilidade de agir como ela queria que todas agissem. Nem um passo além ou aquém disso. Há, inegavelmente, um forte autoritarismo e um quê de fascismo nesse ponto de vista de Simone de Beauvoir. Há também um forte cheiro de perversão e de perversidade em sua personalidade que denunciam os casos de abuso sexual por ela perpetrados contra menores de idade. Sim, pois se um homem abusa sexualmente de uma mulher, inegavelmente esse fedor se faz sentir. Choca a sociedade e faz todos nós, com razão, protestarmos em alto tom. Logo, partindo do discurso de igualdade, torna-se estranho as feministas não odiarem Simone de Beauvoir, afinal ela foi reincidente quanto a esse deplorável comportamento.

O resumo das biografias acima apresentadas demonstra que esses dois ícones do ativismo político atual não foram pessoas honestas em suas ideias. As incoerências entre suas vidas práticas e seus discursos são fortes demais para permanecerem no âmbito das contradições. A fronteira da hipocrisia foi amplamente ultrapassada por esses dois personagens da vida real. E, como hipócritas que eram, nunca amaram a vida. Tinham era revolta de o mundo ser como ele era. Marx nos odiou, pois ele não era rico como gostaria e nem intelectualmente bajulado como se sentia merecedor de ser. O seu amor aos trabalhadores era fajuto. Sua relação com sua única empregada – Helene Demuth – não deixa dúvidas quanto a isso. Por sua vez, o rancor de Simone de Beauvoir parece ser originário de seus transtornos com sua sexualidade. Seu discurso em favor das mulheres era falso, pois quem ama as mulheres respeita suas escolhas. Quem defende o sexo feminino não abusa sexualmente de moças menores de idade.

Mentes brilhantes em almas perversas!

Triste é perceber que hipócritas tão grandes se tornaram mentores de grandes movimentos políticos e sociais do Brasil atual. Sinto saudades dos antigos mestres. E se perdemos a capacidade de tê-los como exemplo, gostaria que nossos ídolos fossem pessoas, ao menos, somente contraditórias.

Texto: Pedro Hanks

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