Entrevista Expresso Foco

Zaire Rezende fala sobre o presidencialismo de coalizão e a falta de idealismo na política

Foto: Leonardo Leal

No mês em que Uberlândia comemora seus 129 anos, O JORNAL entrevista algumas personalidades que contribuíram para o crescimento da cidade. O ex-prefeito Zaire Rezende administrou Uberlândia por dois mandatos e ocupou por três vezes uma cadeira na Câmara dos Deputados. Dentre outros assuntos, Zaire fala das mudanças na política, do fisiologismo nos partidos, de suas ações quando foi prefeito de Uberlândia. Leia abaixo os principais trechos.

O senhor fez parte da velha guarda, uma geração para a qual fazer política era para pessoas sérias e idealistas. No cenário atual, temos poucos representantes com esse perfil. O que acontece atualmente?

Uberlândia, Minas, o Brasil está atravessando uma fase realmente de mudanças. A gente percebe que a política passou a ser cada vez mais, por aqueles que estão no Legislativo quer seja municipal, estadual ou federal, uma busca de benefícios para gestão daquele Legislativo, e passam a depender muito mais dos Executivos. É o presidencialismo de coalizão, governadorismo de coalizão, prefeitismo de coalizão, em que desaparece o idealismo. Desaparece a busca do bem comum daquele que trabalha procurando ajudar o povo a ser mais feliz.

O povo é que é o dono do governo. Na verdade quem é eleito para uma Câmara, para a Assembleia Legislativa, como também o Executivo, são empregados do povo, pagos pelo povo e têm que dar uma resposta de acordo com aquilo que o povo precisa. Ninguém precisa ser recompensado por aquilo que está fazendo, como estamos tristemente vendo, sobretudo em Brasília.

Perdeu-se muito aquela vontade de servir, de estar à disposição do seu país, do seu estado, do seu município. Mas, isso é cíclico. Acredito que isso vai retornar.

Diante desse cenário, qual o caminho para voltar ao idealismo e à vontade de servir?

Nós precisaríamos ter primeiro uma reforma política, em que os partidos tenham, de fato, propostas. Hoje, temos 39 partidos. Com essa quantidade tão grande, as pessoas, os cidadãos, as cidadãs não votam no partido porque o partido não tem provavelmente um projeto, assim, com tantas siglas, então votam nas pessoas. E isso é um defeito muito grande porque pega uma pessoa que antes era um bom padeiro e, como ele tem um bom relacionamento, acaba sendo eleito para um cargo do Legislativo para o qual ele não tem experiência. Não se entrosa. Realmente, não tem aquele sentir. Aquele feeling.

Agora, acho que está havendo uma tomada de consciência disso. O que estamos vivendo em nível de governo federal, essa compra dos votos dos senadores, dos deputados – compra através de emendas, mas de qualquer forma é uma barganha, uma troca. As pessoas não estão atuando buscando o bem comum. Ele quer estar bem junto com os seus eleitores. Então, ele faz uma troca com aquele que tem o orçamento na mão.

Acredito que já está mudando e agora é esforço. Isso que vocês estão fazendo, se vocês adotarem algumas máximas assim, que leva quem for ler O JORNAL a uma reflexão na busca de um idealismo. Que as pessoas se coloquem a serviço, sabendo que quem vai fazer qualquer coisa, um cargo no Legislativo, Executivo, ele está lá para prestar serviço para o povo.

Após ter sido prefeito de Uberlândia por duas vezes, como o senhor vê a cidade atualmente?

Uberlândia é uma cidade que cresce continuamente. Para se ter uma ideia, a primeira vez que eu iniciei na Prefeitura, em 1982, a cidade tinha 247 mil habitantes, hoje está com quase 700 mil. Isso em 30 anos, teve esse crescimento tão grande. É uma das cidades do Brasil, uma das que crescem mais. Esse crescimento se traduz em mais indústrias, mais comércio, mais serviços, mais escolas.

Uberlândia cresce, mas se você observar, a distribuição da riqueza, dos recursos dentro de Uberlândia, repete o que acontece em Minas e no Brasil. Um pequeno grupo tem muita coisa e a maioria não tem. É necessário uma mudança que pudesse oferecer mais coisas, sobretudo a oportunidade de as pessoas ganharem mais dinheiro, ter uma renda maior. Agora, enquanto isso não acontece, que o Município possa de fato ir ao encontro das necessidades da população, na saúde, educação. Atender a tudo isso, na segurança, meio ambiente, trabalho.

Além disso, oferecer as chamadas bolsas. Bolsa Família, Bolsa Estudo. Tudo isso acontece porque a distribuição da riqueza no Brasil é totalmente desigual. Então a classe que tem mais recursos, a classe alta, média alta, tem recursos para bancar tudo aquilo que precisa. Mas, a classe média baixa e a classe E não têm. Assim, a grande função dos governos é oferecer para a população tudo isso que eles não podem conseguir com os próprios recursos. Não é que não queiram, eles não têm condições. O trabalho deles é muito mal remunerado e às vezes falta trabalho.

A geração de emprego não é um dos caminhos para gerar um equilíbrio entre as classes?

Além da geração de emprego é importante que haja a possibilidade de uma formação dos trabalhadores para que possam, quando entrar no trabalho, ter um rendimento maior. Deixar de ser um simples operário para ser uma pessoa que tenha uma qualificação que permita a ele ser premiado pelo trabalho que faz.

O partido a que o senhor pertence, o PMDB, teve um papel importante na democratização do País. Hoje é considerado o mais fisiológico. Há uma explicação para esse fisiologismo do partido?

Realmente o PMDB tem se caracterizado nos últimos 20, 30 anos, pelo fisiologismo. E agora, uma cúpula, uma parte dele, além de fisiológica, é desonesta. Infelizmente isso está acontecendo, não é só o PMDB. PSDB, PT e PP, também. Têm outros partidos que a desonestidade aconteceu com eles. Mas, o PMDB sempre foi caracterizado por esse fisiologismo, basta ver que têm umas quatro eleições que o PMDB não tem candidato à presidência da República. Sempre apoia alguém. A última vez que nós tivemos uma candidatura à presidência foi com o Ulisses Guimarães. Depois, não tivemos candidatos próprios, sempre apoiando alguém e sendo base de sustentação de governo.

O meu partido, se ele tivesse realmente um projeto claro, ele iria pregar o projeto e procuraria chegar ao poder para colocar o seu projeto em prática. Ele não coloca e fica sendo braço auxiliar daqueles que lutam, que vão ao combate e apresentam o seu projeto. Então, com isso, ele acaba de fato sendo um partido fisiológico.

Existe alguma alternativa para reduzir o fisiologismo?

Aí é formação interna, dentro do partido e haver uma pregação escrita, falada, discutida, no sentido de formar quadros com outra visão de política de participação, bem social, da sociedade. Tem que haver. Existe como fazer e tem que haver esse trabalho permanentemente. Os outros partidos faziam muito isso, mas já deixaram de fazer.

Neste mês Uberlândia comemora 129 anos. Qual a mensagem que o senhor deixa para a cidade?

Uberlândia que já cresceu tanto e desenvolveu a sua economia. Está na hora de distribuir mais as riquezas que produz. Distribuir para o próprio povo. É o momento daqueles que estão no poder agora de ajudar totalmente, quer seja na área da educação, saúde, trabalho, no Banco do Povo, Bolsa Família. Tudo quanto é tipo de auxílio extra. Uberlândia é uma cidade grande, mas ainda não é uma cidade justa. Não é uma cidade onde todos têm exatamente os mesmos direitos. Agora os deveres, esses são cobrados de todos. Os direitos ficam a desejar.

O senhor pretende concorrer a algum cargo em 2018?

Não pretendo. Já tive uma trajetória política longa, fui vereador, deputado federal, prefeito de Uberlândia por duas vezes. Tenho dito que nós seres humanos, se quisermos, podemos dividir a nossa vida em duas fases: uma fase em que a gente dá o sangue e outra fase em que a gente dá o cérebro. Agora estou na fase de dar o cérebro. Não só aconselhando, estudando, escrevendo para tentar passar, enriquecer a experiências dos outros através da nossa experiência para poder ajudar o País, o Estado de Minas, Uberlândia.

Acredito que é perfeitamente possível nós termos um governo que seja totalmente voltado para os seres humanos, para os cidadãos, humano, solidário, honesto e que queira realmente ajudar as pessoas a serem felizes.

Qual momento que o senhor destacaria da sua carreira política?

Eu destacaria a primeira vez que eu fui prefeito de Uberlândia. Nós viemos com uma proposta em que passamos um ano discutindo com a população antes da eleição. Fizemos um programa de governo, fizemos 512 reuniões por toda a cidade.

Reuniões em que levávamos um texto, por exemplo, “Uberlândia e a Saúde”, “Uberlândia e a Educação”, “Uberlândia e o Sistema de Águas e Esgoto”. Esses temas a gente discutia com a população ao mesmo tempo em que a gente avaliava o governo que estava no poder. Está fazendo um bom governo? Se está, o que a população gostaria? Se não está, o que está faltando? Então, nós fizemos um programa de governo, imprimimos e distribuímos para todas as casas de Uberlândia, em que dizíamos qual era o nosso projeto.

Um projeto de democracia, de participação, de como poder governar junto com o governante. Então mudamos muito a cidade de Uberlândia.

Quais foram as ações importantes durante esse seu primeiro mandato como prefeito?

Nós estruturamos a Prefeitura, que era muito “primitiva”, criamos secretaria de Agropecuária, secretaria de Saúde, secretaria de Cultura, de Planejamento, criamos uma área só para cuidar da administração dos distritos, criamos a primeira secretaria de Meio Ambiente, dentro da Administração criamos a Procuradoria. Naquele tempo, quando nós chegamos à Prefeitura, tinha três advogados, hoje têm 80 advogados. Foi crescendo, se estruturou, se organizou, hoje é uma estrutura gigantesca, já com uma experiência consolidada. Mas, lançamos as bases que permitiram a Uberlândia crescer de outra forma.

Mudamos o conceito de praças, havia poucas praças, então discutíamos com a população se ela queria praças em áreas livres da cidade. O que ela queria que fosse feito no lugar. Como não existiam esportes para os pobres, nós começamos a fazer os poliesportivos, o primeiro que nós fizemos foi no Luizote. Tinha de tudo, só não tinha piscina porque era muito cara e a manutenção, muito pesada. Fizemos na cidade toda porque achávamos que todo o povo tem os mesmos direitos. Colocamos professores nesses poliesportivos para ensinarem as crianças de Uberlândia a praticar esportes.

Tem até hoje. Ficou. Isso ainda existe. No início do governo tinha quatro creches, quando saímos, tinha 48. Eram creches comunitárias. Mudamos totalmente as escolas, passamos a fazer prevenção de cáries. Passamos a fazer trabalho com o pessoal que estava preso. Criamos uma oficina para fazer trabalhos manuais e eles fizeram.

Houve uma queda da mortalidade infantil. Tudo isso faz parte desse desejo de fazer o bem para as pessoas e ajudá-las a serem felizes.

Para mim, foi assim, porque eu sei que começou a mudar Uberlândia. Implantamos as escolas rurais, escolas comunitárias. O pessoal da escola rural passou a ter um curso semelhante ao da cidade. Então tudo isso aconteceu. Aquilo que eu pude sentir uma grande satisfação, é isso.

Como deputado o senhor também teve um papel importante para a região?

Também tive uma satisfação em segundo lugar, foi com o Legislativo. Na Câmara dos Deputados também fiz um trabalho muito bom. Fui para lá, ajudava os municípios, mas esse não era o meu trabalho principal. Meu trabalho principal era fazer projetos que pudessem trazer benefícios para o Brasil, não apenas para Uberlândia, para a nossa região. Todas as áreas. Ajudar a arranjar verbas é um aspecto só da atividade. Mas a atividade mais importante do legislador é fazer leis que possam realmente ajudar as pessoas. Fiz um trabalho bom, esse que eu colocaria em segundo lugar.

Hoje eu sou uma pessoa realizada na política. Tenho certeza que fizemos um bom trabalho no Congresso Nacional. Fui vereador em São Sebastião, comecei minha carreira política lá, fui vereador por oito anos. Tenho certeza que fiz um bom trabalho lá também. Nas vezes em que fui candidato a vereador lá, fui o mais votado na primeira eleição e o mais votado da segunda eleição. Depois parei e vim para Uberlândia, aqui já comecei me candidatando a prefeito. Esse projeto que te falei, da cidade toda.

Qual a sua opinião sobre o financiamento público de campanhas?

O financiamento público de campanha é muito importante. Se houvesse condições no Brasil para que os partidos todos pudessem… Primeiro, tem que diminuir a quantidade de partidos. Seis a sete partidos são mais do que suficientes para abranger todas as gamas de pensamento político-ideológico. É importante que o País, o nosso País, para poder se dirigir, ele precisa da política, ele teria que pagar para isso. É normal que se pague. Então, tem que haver um financiamento não somente de campanhas, mas financiamento também político dos partidos para que eles possam realizar o seu trabalho não somente durante as campanhas, mas também fora das campanhas.

Também, deixando aberta a possibilidade de a pessoa física que quiser ajudar poder ajudar, para que participe também. Não pode realmente a pessoa jurídica porque ela tem um vínculo de dependência e tira a autonomia daquele que vai ocupar o cargo público.

 

Texto: Leonardo Leal

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