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João Saldanha! Para a galera brasileira, “João Sem Medo”!

Foto: Divulgação

Voz agradável e culto! Sabedoria sem limites no futebol! Dava gosto ouvir João Saldanha comentar os clássicos. No microfone, um mago, com a audiência nas nuvens. Resoluto, ousava prognosticar o vencedor para a segunda etapa das partidas. Nunca ficava em cima do muro. Praticava com maestria o linguajar do povão. Dizia:

– Jogando assim, a vaca vai pro brejo!

Prognosticava:

– Esses beques batendo cabeças, é uma avenida! Didi vai lançar a Garrincha, que colocará Quarentinha na zona do agrião! Com essa zaga mamão com açúcar, é bola no fundo das redes. Não corrigindo esse buraco no meio campo, é goleada, sem choro nem vela!

Esse filósofo do futebol repetia as frases famosas de Nenê Prancha, seu ídolo. Eis uma delas: “Goleiro deve sempre andar com a bola, mesmo quando vai dormir. Se tiver mulher, dorme abraçado com as duas”.

Errava pouco no falar. Quando seus prognósticos não aconteciam, justificava:

– Os caprichos do futebol, é isso! Às vezes puxam meu tapete!

Ouvir João, uma delícia. Vários cartolas viravam-lhe a cara pelas suas opiniões sem bajulações! A galera, não! O venerava! Rsrsrs!

Saldanha nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul. Jornalista, escritor, comentarista, formado em Direito, também foi técnico do Botafogo, que tinha no elenco nada mais do que Garrincha, Didi e Nilton Santos. Sabendo usufruir desses monstros sagrados, foi campeão carioca em 1957, goleando o Fluminense por 6 a 2.

Os amantes do esporte-rei chamavam João Saldanha de “João Sem Medo”, pela sua sinceridade.

A Seleção Brasileira, desmoralizada, não jogava nada. Estava ameaçada de não se classificar para a Copa do Mundo de 1970. Os cartolas temiam a revolta da multidão. Todos lembravam o fiasco de 1966 na Inglaterra.

A CBD, comandada por Havelange, diante da pressão sem limites, bateu o martelo. Em 4 de fevereiro de 69, João Saldanha foi declarado técnico canarinho.

O boato que rolava era que João Saldanha era de esquerda e os militares, querendo simpatia do povão, concordaram em tê-lo comandando o escrete brasileiro. Como a mídia batia pesado na Seleção, Saldanha foi o antídoto encontrado, por sua credibilidade e transparência.

João Sem Medo baseou sua convocação no Botafogo e no Santos. Dois bichos-papões do momento. Não aceitava atletas cabeludos. Segundo ele, o cabelo grande prejudicava a visão e amortecia a bola no cabeceio. Nada se ouviu de discordante. A massa delirou!

Num jogo de marketing perfeito, Saldanha apelidou seus convocados de “Feras do Saldanha”.

O ex-comentarista gostava de muitos gols. Seu time jogava num 4-2-4 agressivo. Félix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo. Piaza e Gerson. Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu.

Vejam os massacres: fora de casa, ganhou de 2 a 0 na Colômbia, 5 a 0 na Venezuela e 3 a 0 no Paraguai. Em casa: 6 a 2 na Colômbia, 6 a 0 na Venezuela e 1 a 0 no Paraguai.

Transformado num dos maiores xodós do futebol brasileiro pelo seu sucesso nas eliminatórias, o gaúcho passou a incomodar a direita. Eles não se conformavam que um comunista convicto brilhasse perante o mundo. Um incômodo terrível para os militares.

Por ser afoito e falar o que pensava, Saldanha caiu numa armadilha. Numa entrevista coletiva, um repórter lhe perguntou:

– Você irá acatar o pedido do presidente Médici para convocar o centroavante Dadá Maravilha, do Galo?

João Sem Medo respondeu na lata:

– O general escala seu ministério e eu, a Seleção Brasileira.

E o João não resistiu. Caiu, diante da tristeza do Brasil.

Em seu lugar assumiu Zagalo, assessorado pelo capitão do exército Cláudio Coutinho. Dadá Maravilha imediatamente foi chamado para o escrete nacional.

Saldanha voltou a comentar jogos, com a audiência beirando os 100%.

Muitos consideram que o mérito da conquista da Copa do Mundo de 1970, em boa porcentagem deve-se ao grande João Sem Medo.

João Saldanha fumava exageradamente. Esse vício debilitou bastante sua saúde. Faleceu na Itália, em Roma, em 12 de julho de 1990, quando comentava a Copa do Mundo, com 73 anos de idade.

Um grande brasileiro no mundo da bola!

 

Texto: Lucimar César

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