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Jane de Fátima Rodrigues fala sobre a história de Uberlândia e a predestinação da cidade

Foto: Divulgação

No mês de aniversário de Uberlândia, continuamos a série de entrevistas com pessoas que contribuíram com a cidade. Nesta semana, a entrevistada é a historiadora Jane de Fátima Silva Rodrigues, que fala da predestinação de Uberlândia a ocupar um lugar de destaque no cenário nacional.

Ela ressalta algumas personalidades que tiveram papel preponderante na origem do município, os saltos de crescimento da cidade e o estudo que levantou a possibilidade de Uberlândia se tornar capital nacional. A cidade também foi tema dos estudos de mestrado e doutorado da historiadora. Leia abaixo os principais trechos.

Como surgiu o seu interesse pela história de Uberlândia e a constatação de que a cidade estava predestinada a se destacar no cenário brasileiro?

Nasci em Uberlândia, me criei nessa cidade. De certa forma, acompanhei toda a trajetória, o desenvolvimento econômico, político e social desde a década de 1960, que foi quando me dei por conta de que sabia ler e escrever. A partir daí, o meu interesse pela história de Uberlândia. Consegui ver o desenvolvimento bastante acentuado, principalmente a partir dos anos de 1960, com as faculdades chegando a Uberlândia, com o crescimento do seu comércio, das indústrias, me interessei bastante por tudo isso. Fui fazer História, ainda na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Uberlândia, porque não tínhamos a Universidade Federal de Uberlândia, que só veio a se concretizar em meados da década de 1970.

No curso de História, me envolvi muito com a História local e regional. Toda a minha pesquisa de mestrado e doutorado se deu sobre a cidade de Uberlândia.  A partir dessa pesquisa, que durou anos, tanto para o mestrado quanto para o doutorado, tive acesso a inúmeras fontes primárias, fontes históricas em diversos arquivos do País – não somente no arquivo histórico de Uberlândia, como também Belo Horizonte, Rio de Janeiro e algumas cidades vizinhas. Pude constatar que realmente Uberlândia estava, vamos dizer assim, predestinada a ser o que é a cidade de hoje. Isso, em decorrência de seus líderes, que desde meados do século XIX tinham como objetivo tornar o pequeno arraial de São Pedro de Uberabinha, a cidade que se tornou Uberlândia.


Qual foi o marco inicial de Uberlândia?

Vamos encontrar os primeiros entrantes a partir da segunda década do século XIX, como, por exemplo, João Pereira da Rocha chega ao que hoje nós podemos dizer Uberlândia em 1819, com uma sesmaria. Chega com uma carta de Dom João VI, outorgando a ele uma imensa gleba de terras e, a partir daí, ele constrói a Fazenda São Francisco, que é o primeiro marco, vamos dizer assim, do início da cidade, do próprio município de Uberlândia.

A partir dos anos de 1830, chegam as outras famílias, entre elas a família Carrejo, a quem se atribui o início do povoamento, a constituição desse povoamento, o arraial, depois a vila e, já no final do século XIX, 1892, a instalação da cidade de Uberlândia. É um longo caminho que foi percorrido, até chegarmos aos dias de hoje.


A senhora ressaltou alguns fatos do século XIX. Quais os que destacaria no século XX?

Uberlândia sempre teve uma participação muito interessante nos principais acontecimentos nacionais. Como, por exemplo, em 1909, quando nós tivemos a candidatura a presidente da República. Dois candidatos se apresentaram, o Marechal Hermes da Fonseca e Rui Barbosa. Uberlândia ficou dividida entre os dois candidatos, entre a campanha civilista e a campanha do Hermes da Fonseca. A cidade virou um pé de guerra. As duas famílias mais importantes, Rodrigues da Cunha e a família Carneiro, se digladiaram numa verdadeira luta para que os seus respectivos candidatos ganhassem. Por exemplo, o coronel Carneiro era hermista e Rodrigues da Cunha, civilista. Então, nós tivemos a intervenção, com tropas estaduais na cidade. O pleito foi impugnado e nessa época Uberabinha não pôde somar os votos no cômputo geral. Isso foi um fato extremamente marcante para uma cidade com pouco mais de 5 mil habitantes.


Como foi o desenvolvimento do município no início do século XX?

Ao longo das duas primeiras décadas do século XX, com a chegada da Estrada de Ferro Mogiana, com os empreendimentos, sobretudo do coronel José Teófilo Carneiro, que é considerado um dos baluartes do desenvolvimento da cidade, o progresso foi chegando rapidamente. Porque a Mogiana, construída em 1895, vai interligar o sul de Goiás ao Triângulo e a São Paulo. O escoamento da produção, quer seja de grãos, do gado, da produção suína, necessariamente passava por Uberlândia para seguir até São Paulo. Assim, a cidade se tornou um importante entroncamento comercial, por meio da ferrovia Mogiana.

Sem contar que, voltemos ao João Pereira da Rocha: ele, na sua fazenda, implantou uma indústria de anil. Ele já tinha essa visão de que era necessário, junto com a produção agrícola, também diversificar para a indústria. Foi um período em que os chefes do Poder Executivo, os chamados intendentes, tiveram uma participação imensa, com a alternância dos Rodrigues da Cunha, também de outras famílias que passaram a contar com essa influência nas decisões da cidade.

Isso vai culminar com Uberlândia sediando o Batalhão João Pessoa, na Revolução de 1930. O município foi um polo que agregou as tropas a favor de Getúlio Vargas. São Paulo era contra e Uberlândia, devido à ferrovia, conseguia, de certa forma, arregimentar não só pessoas da região, como também do sul de Goiás. Houve uma mobilização intensa da cidade em relação a esse fato da Revolução de 1930. A partir daí Uberlândia passa a ter um destaque não só regional, como nacional. Não só através da Revolução de 1930, mas por ser, como dizem os historiadores mais antigos, a localidade era chamada “boca de sertão”. Para se ir a Goiás, inevitavelmente teria que passar por Uberlândia.

Aliado a isso, tivemos um outro fato extremamente importante que foi a criação da Cia. Mineira de Autoviação Intermunicipal, em 1912. Era uma empresa privada que construía estradas e que, de certa maneira, chegou até o estado de São Paulo. Isso também permitiu que Uberlândia tivesse uma ligação mais rápida com as principais cidades do entorno como Araguari, Tupaciguara, Ituiutaba, Campina Verde; de uma certa forma, graças à Cia. Mineira de Autoviação Intermunicipal.

A fábrica de anil do João Pereira da Rocha, entre outras, indica que, apesar de ser uma cidade agrícola, Uberlândia já tinha uma vocação industrial?

Sim, por exemplo, nós tivemos inúmeras indústrias. Inclusive um dos canhões que foram utilizados na Revolução de 1930 foi fundido em Uberlândia, pela empresa Crosara, que na época já tinha a sua fundição aqui. Os imigrantes que vêm durante esse período de 1910 em diante, muitos vão se estabelecer aqui, com pequenos estabelecimentos industriais e comerciais.

Não podemos esquecer que em meados da década de 1920, em 1925, o então empresário Tubal Vilela da Silva implanta uma fábrica de tecidos na cidade, inclusive construindo uma vila operária para abrigar os trabalhadores dessa fábrica de tecidos. Infelizmente, nos anos de 1930, ela veio a ser fechada. Mas, esses pequenos focos industriais já estão contextualizados historicamente desde o início da formação da cidade.

A partir de 1930, com o desenvolvimento da atividade, não só pecuária, para abastecer os mercados Rio e São Paulo e mesmo parte de Goiás, nós tivemos também um desenvolvimento do comércio. Grandes armazéns que faziam o entreposto comercial e esses armazéns compravam e vendiam no atacado e, de uma certa forma, abasteciam não só a cidade, como também a região. A abertura de novas estradas veio consolidar essa posição do desenvolvimento comercial de Uberlândia. A partir de 1960, aí sim, nós temos a implantação da Cidade Industrial e a necessidade de captar novas indústrias para Uberlândia e diversificar a sua atividade econômica, que até então estava restrita a pequenas ou médias indústrias, a um vultoso comércio, que é inegável, devido à localização geográfica, e à parte agropecuária, que desde o início foi bastante forte.


Além das pessoas nascidas em Uberlândia, percebemos que a contribuição de quem vem de outras regiões é marcante para o desenvolvimento da cidade?

Até a década de 1960, podemos dizer que os uberlandenses, que estamos chamando os natos, eles vão se desenvolver na parte agropecuária, que já era uma tradição de família. Até hoje, temos famílias que desde o final do século XIX estão nessa atividade. Por exemplo, as indústrias de esquadrias com os Oliveiras, que são portugueses e vieram para Uberlândia no início dos anos 1930, 1940. Eles vão diversificar a indústria nessa área de esquadrias.

Embora minha pesquisa não tenha atingido essa parte mais econômica, mas é visível, aqueles que vieram para Uberlândia, alcunhados de “uberlandinos” pelo nosso querido e saudoso jornalista Fernando Quirino – ele também um uberlandino –, podemos dizer que essa parte coube aos que vieram para cá. Talvez já com uma tradição nas suas respectivas cidades. Como por exemplo, a implantação das primeiras rádios em Uberlândia. Nós tivemos a figura também do querido prefeito Geraldo Ladeira, responsável por trazer a primeira rádio para Uberlândia e se dedicar ao setor de telecomunicações, mas não podemos esquecer que um ramo bastante importante se deve à Companhia Telefônica, que naquela época se chamava Companhia Telefônica Teixeirinha – que também não é uberlandense. Grande parte da atividade industrial e às vezes o comércio de maior peso se deve à vinda dos uberlandinos.

Há um fato interessante, de a maioria dos prefeitos da cidade serem uberlandinos?

Nessa trajetória desde 1892 até hoje, em que tivemos 36 prefeitos, apenas dez nasceram em Uberlândia. É um aspecto muito interessante.  Esse é um ponto extremamente interessante na história de Uberlândia: que necessariamente para ser prefeito dessa cidade você não precisa ter nascido aqui. Basta que haja um relacionamento entre os grupos que dão essa sustentação.  Por exemplo, o próprio Tubal Vilela não era de Uberlândia, Geraldo Ladeira não era de Uberlândia, Virgílio Galassi não nasceu em Uberlândia. O próprio prefeito e o ex-prefeito também não são de Uberlândia. Zaire Rezende nasceu em Uberlândia, mas ele fez toda a sua trajetória profissional como médico e político fora da cidade de Uberlândia. Quando ele volta nos anos de 1980, que se dedica à política em Uberlândia.

Há uma explicação do ponto de vista histórico de Uberlândia ter uma relação mais próxima de São Paulo do que com Belo Horizonte?

A nossa relação não é com Belo Horizonte, e sim com São Paulo, em decorrência da construção da Estrada de Ferro Mogiana – o que nos impossibilitou talvez de ter um contato mais próximo com o próprio governo mineiro. Os políticos de Uberlândia sentavam diretamente com o presidente da República. Nós temos vários documentos mostrando agricultores, comerciantes batendo diretamente na porta do Palácio do Catete, sendo recebidos pelos presidentes no Rio de Janeiro. Essa relação política que nós temos foi muito forte, o que impulsionou a melhoria das estradas, inclusive a construção de Brasília – estrada que de certa forma corta Uberlândia. Isso sem contar que já no final de 1937, logo quando estoura a Segunda Guerra Mundial, e em 1942, Getúlio Vargas se coloca ao lado dos aliados, Uberlândia foi cogitada a ser a capital do Brasil.

Como ocorreu essa possibilidade de Uberlândia se tornar capital do País?

Várias comissões vieram estudar e fizeram todo o mapeamento da região para transferir a capital do Rio de Janeiro. Nós perdemos por dois votos. Doze integrantes formavam a comissão, entre engenheiros, sanitaristas, economistas, nomeados num primeiro momento por Getúlio Vargas e depois por Eurico Gaspar Dutra. Até que Juscelino Kubitschek, em decorrência de uma série de laudos sobre a transferência da capital do Rio de Janeiro, resolve, por meio de uma comissão, também com debates na Câmara dos Deputados, demarcar a área que havia sido demarcada pelo naturalista Luís Cruls em 1892.

Para se ter uma ideia, a Proclamação da República foi em 1889. Em 1891, a Constituição republicana já previa a mudança da capital do Rio de Janeiro para o interior do Brasil, no sentido de trazer o desenvolvimento para uma vasta área brasileira que estava coberta por matas, quando o naturalista Luís Cruls vem e indica por meio de seus lados o Planalto Central, que é onde está Brasília.

Uberlândia nesse momento foi noticiada em todos os grandes veículos de comunicação da época. Há uma possibilidade imensa que Uberlândia venha a ser a capital do Brasil porque ela reúne todas as condições topográficas, hidrográficas. Inclusive comissões vieram sem cessar para os estudos e os nossos empresários, incluindo o Tubal Vilela, que fez uma oferta de glebas de terras que possuía, para trazer a capital.

Isso de uma certa forma projetou muito Uberlândia. Se a gente fizer um recorte das indústrias que chegaram e de todo o comércio que eclode a partir da década de 1940, se deve exatamente a essa veiculação que Uberlândia teve nos jornais de projeção nacional. Mas a gestão de JK resolveu que o traçado iria para Brasília, obedecendo aquilo que em 1892 já estava colocado constitucionalmente, a transferência da capital para o Planalto Central. Esse fato deu a Uberlândia uma visibilidade muito grande.

Como a senhora vê o crescimento da cidade?

Vemos que há momentos de pico quanto ao desenvolvimento de Uberlândia e períodos em que a cidade, de uma certa forma, não tem grandes saltos. Por exemplo, na última gestão de Virgílio Galassi. Ele vai instituir dois grandes marcos, o Polo Moveleiro e a Tecnópolis, que visa tornar Uberlândia uma cidade polo de criação de tecnologia. A partir daí, não temos ainda grandes saltos. O último momento que a cidade tem vivido, parece que não se tem ainda um projeto como tivemos em governos anteriores, sobretudo, nos governos da gestão Galassi.

Talvez, o que tem faltado para Uberlândia nas duas ou três últimas administrações é um projeto que dê um salto não só quantitativo, sobretudo qualitativo. Acredito que a cidade, com mais de 700 mil habitantes, tem que começar a pensar na qualidade de vida. Já temos problemas seríssimos com trânsito, com o transporte urbano.

Em relação ao futuro, qual o seu ponto de vista sobre Uberlândia?

Penso que esta gestão ainda tem condições de repensar o planejamento urbano, que possa amenizar a qualidade de vida da população uberlandense que necessita do transporte urbano, talvez monotrilho. E aí é preciso coragem, ousadia. Sentar à mesa com o empresariado, com grupos de fora da cidade, através de parcerias público-privadas, porque isso é necessário.

Acredito que falta um pouco de ousadia e coragem que tivemos no passado. Por exemplo, o coronel José Teófilo Carneiro sentou-se com André Rebouças, isso no Império. Nós estávamos sob a regência de Dom Pedro II, quando ele soube que a ferrovia viria de Uberaba para Catalão. Ele disse: “Mas o que é isso, cadê Uberlândia?”. Então, montou em seu cavalo e foi encontrar o engenheiro André Rebouças em Uberaba e disse: “Nós temos que mudar esse trajeto”. Carneiro também preconizava em 1920 que Uberlândia ia ser capital. A questão do alargamento da visão desses líderes que apostaram que Uberlândia poderia ser uma cidade grande, segura e saudável para se viver.

Não podemos esquecer e devemos ressaltar o que temos de positivo, como o saneamento urbano, que causa inveja a qualquer cidade do mesmo porte. Não podemos negar os grandes avanços que Uberlândia já conquistou, mas agora é necessário que os nossos governantes – e coloco também o Legislativo como partícipe junto ao Executivo – pensem para além e perguntem qual é o nosso próximo salto. Já tivemos três grandes saltos na história de Uberlândia. Qual é o próximo? Junto com ele, a melhoria das condições de vida da população.

Qual tem sido o papel da mulher na sociedade e na história de Uberlândia?

Está no cerne da criação da cidade de Uberlândia, uma mulher, Francisca Alves Rabelo, viúva de João Pereira da Rocha, que vendeu o patrimônio dela para a construção da igreja em 1852. Há um documento no Arquivo Público Municipal, emitido por ela e assinado por Felisberto Carrejo para instalação da primeira paróquia em Uberlândia.

Ao longo da história de Uberlândia, por exemplo, junto ao Batalhão João Pessoa, tivemos o batalhão feminino, que angariou fundos e deu aos soldados condições de uma viagem mais tranquila. Nasceu do espírito feminino.

Tivemos uma grande escritora no início da década de 1920, Antonieta Vilela, que considero em minha tese de doutorado a primeira feminista de Uberlândia, que já propunha o voto à mulher; entre outras figuras extremamente importantes.

 

Texto: Leonardo Leal

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