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A primeira retroescavadeira

Foto: Divulgação

Essa coisa de corrupção é velha.

Era 1966. Chegou à Prefeitura um vendedor de máquinas pesadas. Mostrou ao prefeito Renato de Freitas uma novidade: a retroescavadeira Münk, máquina semelhante a um trator capaz de abrir, em poucas horas, uma valeta que muitos homens abririam em muitos dias. Renato não decidiu nada, mas guardou os prospectos.

Lá um dia, chamou o secretário do Patrimônio, Eweraldo Coutinho, e mandou que fosse a São Paulo comprar uma daquelas máquinas maravilhosas, com desconto. Levasse dinheiro vivo. Tudo coisa lícita, com nota fiscal certinha.

Coutinho era insistente. Chegou à empresa e entrou em contenda com os vendedores. Queria desconto. Não conseguia. Sem desconto, não compraria. Os vendedores alegavam que era mercadoria importada, com preço universal definitivo. Coutinho vencia pelo cansaço e os vendedores cansaram, porém, não tinham autoridade para decidir e levaram-no ao presidente da companhia.

O diálogo foi rápido e surpreendente:

– O que você quer? – perguntou o presidente.

– Desconto. E o dinheiro tá aqui.

Abriu a pasta e mostrou os pacotes de notas. O homem sorriu.

– Vou dar o desconto que o senhor pediu.

O Coutinho nem acreditou.

– Eu discuti com os seus vendedores quase duas horas e não consegui nada, agora, em menos de cinco minutos o senhor me dá o desconto? Não entendi.

– Olha, moço, concedi o desconto, contra as normas da nossa empresa. Mas o senhor foi o único representante de um órgão público que me pediu desconto. Todos os outros, todos, ouviu? pediram pra superfaturar.

 

Texto: Antônio Pereira da Silva

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