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Entre mim e ti, Floresta Amazônica

Foto: Divulgação

Quando eu era criança, ouvia dizer que a Amazônia era o pulmão do mundo. E que por causa de sua importância para o equilíbrio do ecossistema mundial, os EUA iriam “roubá-la” de nós. Que os alunos norte-americanos já estariam, inclusive, estudando que a Floresta Amazônica, cuja maior parte encontra-se em solo brasileiro, já lhes pertencia por direito. Bem, hoje um pouco mais crescido, vejo que não é assim tão simplória a questão. Vi, por exemplo, em alguns países da Europa, no campo e nas cidades, grandes preservações ambientais, bosques, parques e um cuidado explícito com o meio ambiente. Há uma enorme integração entre o moderno e o antigo, entre o concreto dos arranha-céus e o verde das plantas. É certo que a Amazônia da minha infância não é mais a de agora. Eu a sobrevoei duas vezes quando fui e regressei de uma missão no norte do país. Deu orgulho vê-la imponente, do alto. Mas, nos labirintos escondidos da mata fechada e nas sendas por onde correm bichos e homens matutos, animais raros, plantas exóticas, índios e ribeirinhos, todos se veem ameaçados pelo extrativismo e desmatamento incontroláveis. Confesso minha ignorância. Nunca entendi por que nenhum governo até hoje conseguiu proteger, de fato, esse bem tão precioso. O crime ambiental, a propósito, é inconteste. Todavia, é nebuloso o fato de que continuamos a ver impassíveis, dia após dia, o aumento das crateras na mata, e ouçamos indiferentes o barulho ensurdecedor das árvores que caem, vítimas da ganância e do egoísmo desenfreados do homem. Há pessoas, grupos e grandes empresas explorando e dilapidando diuturnamente o Bioma Amazônico. E isso é vergonhosamente nítido. É obsceno. Não é preciso nem muito esforço intelectual para concluir isso. Mas agora há um agravante ainda maior e mais perverso. Num flagrante desrespeito à Constituição Federal e aos Acordos Internacionais, o governo Temer chancela esse homicídio doloso contra toda a vida pulsante em nossa Floresta. E pior. Não houve, da parte do governo, o menor esforço em ser democrático. Não ouviu as instituições, não perguntou ao povo e não se interessou pelos índios, nossos anfitriões e senhores legítimos desse solo. Como Judas Iscariotes, Temer e seus sequazes deram-nos o beijo da traição. Com meses de antecedência, na calada da noite, como fazem os malfeitores sanguinários, deram de bandeja aos grandes empresários do setor extrativista, representados por bancadas sustentadas financeiramente por eles, o direito ilegítimo de saquearem a Floresta Amazônica. Aquela criança ingênua que fui, conclui: Não foram os estrangeiros que nos roubaram a Floresta. Fomos nós mesmos que a entregamos aos seus carrascos. E a que preço? As insones e seculares árvores ao caírem pranteiam incrédulas. Os bichos fogem estupefatos, enquanto muitos morrem sem o direito sagrado de defesa. A terra, prostrada, cede. Cética, recebe em seu solo o suor e o sangue do índio, do negro e da criança ribeirinha, e a seiva das árvores e a lágrima e a pena do pássaro que sem olhar para trás voou para nunca mais voltar. Mas o homem branco, instruído e racional, senhor absoluto deste mundo, nada viu nem ouviu. E tudo segue silente, apenas entrecortado pelo murmúrio do rio que desce caudaloso, protestando. Mas quem o ouve? Nesta terra de Santa Cruz, “há olhos”, mas ninguém vê; “há ouvidos”, mas ninguém ouve.

 

Texto: Pe Claudemar Silva
www.padreclaudemarsilva.com.br

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