Entrevista Expresso Foco

Martha Pannunzio fala sobre Uberlândia, política e o Programa “Cerrado e Letras”

Foto: Divulgação

A escritora Martha de Freitas Azevedo Pannunzio é a terceira entrevistada das personalidades que tiveram uma contribuição significativa na história de Uberlândia. Autora de seis livros, Martha Pannunzio afirma que começou a vida contando histórias e exerce esse mesmo ofício atualmente, após se aposentar das atividades profissionais.

Martha e sua família tiveram uma atuação política e social importante na história da cidade. Além de lecionar em escola pública por vocação, ela exerceu o cargo de vereadora por dois mandatos, período em que esteve à frente da luta pela criação do Estado do Triângulo, movimento que teve uma grande repercussão. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Qual a sua visão sobre Uberlândia atualmente?

Uberlândia tem sorte, tem a universidade federal, tem esse polo de porto seco e tem essa mentalidade progressista da pessoa que veio de fora, com objetivo de crescer, progredir, se dar bem. É uma sociedade em que, no mesmo andar, os vizinhos nem se falam. Isso é até uma coisa que tem que amadurecer. Mas, o conjunto é progressista. Tem áreas de lazer muito boas.

Essa chegada de muita gente, que ninguém perguntou quem é, nem de onde vem, trouxe também, como o Brasil padece de uma violência louca, a gente padece disso. A estatística é ruim para Uberlândia na questão da violência e criminalidade. Eu tenho 25 assaltos em 18 anos que moro na fazenda. É muita coisa.

O que a senhora sugere para reduzir a criminalidade na região e no País?

A sugestão que eu dou é escola, colocar essa meninada na escola. O Japão ensinou a lição para todo mundo. A opção deles depois da Segunda Guerra Mundial, em que saíram arrasados, endividados, diminuídos, opção: escola. Coreia, também, opção: escola. O modelo, a gente sabe qual é: passar o dia inteiro na escola. Foi Darcy Ribeiro que deu a receita, com os CIEPs.

Do seu ponto de vista, qual a diferença entre os prefeitos recentes e os de antigamente?

Não vejo diferença nenhuma porque Uberlândia se move sozinha. Prefeito aqui faz muito pouco pela cidade. Uberlândia é uma cidade que tem uma vitalidade empresarial enorme. A rede hoteleira, por exemplo, o que tem com o prefeito? Nada. A rede hoteleira aqui estoura de público, de hospedagem. Gastronomia, aqui, está tudo sempre cheio. Boteco, tenho a certeza que todo dia é sábado, lotado. A vitalidade financeira de Uberlândia é uma coisa evidente. Você entra no supermercado e fica na fila para pagar. O pátio está sempre cheio. Posto de gasolina sempre tem alguns carros para abastecer.

Uberlândia vai por si. Desde a origem, ela tem uma força comunitária, empresarial, de arrojo, muito grande.

Entretanto, um pouco do crescimento da cidade no passado decorre do trabalho das gestões municipais?

Nós tivemos dois prefeitos preferenciais. É ruim falar isso porque todo mundo fica melindrado. Virgílio, que foi quatro vezes prefeito, deixa uma marca, mas era especulador. E o Renato de Freitas, que foi um gênio administrativo. Ele não era apartador de boi. O pai dele tinha lote para vender, mas ele nunca foi vender lote. Não tinha essa coisa. Bem que fez a rodoviária e alguns falavam: “Ah! Porque, de lá, é o loteamento da família do Renato”.

Rodoviária é difícil de fazer porque você tinha que deixá-la fácil para ir para Goiás. A cidade já estava mais ou menos definida. Ele arrancou a rodoviária da biblioteca. E fez aquele gigante com o melhor arquiteto que tinha em Minas Gerais. Quando ficou pronta, alguém falou: “Renato você é doido? Bastava um lugar para dois ônibus, um entra, outro sai”. Ele falou: “Não, isso aqui não é para agora”.

Qual a sua visão do contexto político nacional?

Louvo o momento em que a gente tem liberdade de imprensa. Hoje, vou dormir com raiva da roubalheira, mas sei que ela existiu mesmo e as pessoas estão aí para ser avaliadas. Cada um vai avaliar como quiser. Não sei se amanhã vai ter eleição e esse pessoal vai ser reeleito.

Não é o político que é ruim, ruim é o eleitor que põe preço no seu voto. O voto não podia ser obrigatório, sou contra isso. O voto devia ser livre, se eu quero, voto. Se não quero, não voto.

No nacional, vejo com muito bons olhos algumas coisas que estão acontecendo. Precisa arrumar essa Previdência, mas precisa arrumar também para o topo da pirâmide. A turma da magistratura está ganhando horrores. Vejo com muito bons olhos, aumentar a idade de trabalho. Porque as pessoas vão continuar dando a sua contribuição mais dois anos, cinco anos, não mata ninguém.

É um pensamento que o povo fala assim: “Seu pensamento é reacionário, você quer que o povo trabalhe mais?”. Eu quero porque é bom, todo mundo para o emprego e quer arranjar outro. Para continuar. Acho que a reforma da Previdência é ótima.

A sua família teve uma atuação política e social significativa na história de Uberlândia. A senhora também contribuiu para o desenvolvimento da cidade. Como surgiu essa dedicação?

Eu, Martha, sou produto de uma família eclética, mãe católica, pai espírita. Mãe filha de coronel, pai humilde, família proletária. Dessa mistura, meu pai falava: “Não pode perder a ponta da meada, tem muita gente que não teve oportunidade, vocês estão tendo. Você vai ser professora, trata de ser a melhor professora”.

Era uma coisa de responsabilidade. Ele era cobrador: “Se não der conta de ser o primeiro da classe, o segundo já me aborrece, mas em todo caso…”.

Sou uma pessoa muito feliz porque a vida me deu muito mais do que eu planejei. Planejei ser contadora de história e estou terminando a minha vida contando história.

Fui professora de escola pública, até por esse viés socialista que eu tive em casa. Sempre quis dar aula para a massa. Fiquei muito feliz, nunca me preocupei de quanto estavam me pagando. Dei aula de Latim, depois de Francês e o governo foi tirando. Aí eu tinha feito o curso de Letras com ênfase em Português, fui professora de Português. Depois fui professora de Literatura para o curso de Pedagogia.

A senhora teve uma atuação no Legislativo também?

Fui vereadora por algum tempo, não tenho saudade nenhuma porque era uma Câmara majoritariamente masculina. Nós éramos três vereadoras, Olga Helena da Costa, Nilza Alves e eu. A bancada masculina era muito poderosa porque era de adesão total ao Zaire. Eu achava que o Zaire precisava de alguém que falasse alguma coisa de verdade: “Zaire, não é bem assim…”. Mas ninguém falava. Ele era bem blindado. Saí do PMDB, depois passei para o PDT porque o meu irmão trouxe o PDT para cá. Fui ajudá-lo a fazer o PDT, tive um segundo mandato meu, mesmo.

Esse segundo mandato foi muito bom, porque nós fizemos a campanha de emancipação do Triângulo. Quase que a gente consegue a independência do Triângulo. Foi muito bom porque envolveu toda a região. Eu era a presidente da Associação de Vereadores do Triângulo, que se chamava Avetrin. A gente mantinha 72 cidades ligadas.

Naquele movimento de fazer o Estado do Triângulo, colher assinaturas, eu conheci a região inteira. Acho uma pena que a gente não tenha conseguido. Hoje, só o que a gente tem de encargos para pagar a Minas Gerais…

 

O seu pai também teve uma atuação política. Qual fato a senhora destaca desse período?

Meu pai foi deputado estadual, depois da ditadura do Getúlio, em Goiás. Ele tinha um lado comunista que era brabo. Tinha uma pressa que o mundo andasse! Tanto que tinha muitas fazendas, como não valiam nada um tempo atrás e o governo de Goiás estava abrindo o Estado… cansado de esperar que acontecesse reforma agrária, ele fez a divisão de três fazendas dele, levou o cartório para a fazenda, conseguiu deslocar o cartório. Doou 3 mil alqueires de terra, isso na década de 1950.

Como foi o episódio da doação de terras pelo seu pai aqui em Uberlândia?

Veio a década de 1960. Meu avô morreu em 1957. Então foi partilhar os bens do meu avô materno, que era tudo em Uberlândia. Um monte de herdeiros, um mundo de terra. Nós, eu e meus quatro irmãos, fazendo faculdade, estudando fora. Minha mãe disse: “Não quero nem saber de fazenda, já tirei muita vaca do atoleiro”.

Nessa época, o João Goulart (Jango) assumiu no lugar do Jânio Quadros. O Jango era um pouco de esquerda. Aí apareceu o Francisco Julião na história. Veio lá do Nortão, Amazônia, falando em partilhar a terra. Lançar terra para quem precisa e gosta e sabe. E o Jango encampou essa ideia. O Francisco Julião saiu no Brasil inteiro fazendo comício, falando: “Quem tem terra e não gosta, não precisa, doa para o governo, que vai fazer reforma agrária”. O pessoal rico ficava arrepiado.

O Francisco Julião veio aqui, meu pai se encantou com a proposta dele. Aí, ele telefonou para nós todos em São Paulo e no Rio de Janeiro e perguntou se a gente ia voltar para Uberlândia e se poderia dar as nossas terras para a reforma agrária. Autorizamos, mandamos a procuração para ele. Minha mãe não recebeu a herança, então a gente devolveu. E meu pai deu para o governo do Jango. Teve uma festa nessa fazenda em que todos nós viemos.

Entretanto, os militares assumiram o poder e a história mudou?

Aí veio 1964 e foi todo mundo para o pote. A gente sofreu demais em 1964, muita delação, prisão, tortura. Foi um horror. Qualquer denúncia valia. O golpe militar pegou só comunista, né, ou simpatizante. Não pegou igual hoje, que o povo está morrendo na fila do SUS.

Foi um horror, minha casa foi invadida, queimaram minha biblioteca, queimaram a casa da fazenda. Um dos meus irmãos operou o Carlos Lamarca, uma plástica, para ele poder fugir, porque estava sendo procurado pelo Exército. Esse meu irmão foi preso, apanhou demais, macetaram a mão dele.

Passada aquela coisa horrível, começa a década de 1970. Nós recebemos um diploma lindo e um memorando do Exército, do 36º Batalhão, que dizia: “Encontramos, no acervo patrimonial rural do município de Uberlândia, doação de uma propriedade de 5 mil hectares para a reforma agrária do governo do senhor João Goulart. O governo militar entende de outra maneira a utilização da terra. Mas, ainda assim mandou analisar o solo e a resposta que o laboratório mandou é que a terra é tão ácida, tão fraca, que será desonesto da parte do governo militar entregar para pessoas humildes, enganando com a ideia de que eles vão sobreviver com essa terra. Assim sendo, agradece e devolve”.

Hoje, quando os sem-terra ficam chegando assim, eu falo: “Já dei essa terra, mas eles devolveram. Não vem que não tem!”.

O seu irmão também lutou para a criação da Escola de Medicina em Uberlândia?

A história da minha família é assim, a gente foi criado para ser uma pessoa atuante no processo civilizatório. Meu pai falava: “Essa mão não é para dar tiro. Essa mão é para curar gente doente. Vocês escolheram ser médico, vamos trabalhar na Medicina”. Ele ficou muito feliz quando o meu irmão José Olímpio começou a campanha de fazer o Hospital-Escola de Medicina aqui.

Eram só sete médicos de acordo. O José Olímpio era novinho e argumentava que Uberlândia é um entroncamento de rodovias: “Vai vir tanta gente doente para tratar aqui!”. Foi uma rebeldia na cidade. Aqueles sete batalharam demais, o Rondon Pacheco ajudou demais. O Rondon era o governador biônico. Ele era do governo militar, ajudou com a caneta a redigir o AI-5 horroroso. Mas, isso não tem a ver, o que ele foi para Uberlândia é muito maior do que a minha família sofreu.

Na história do Brasil, a gente não pode misturar as coisas, o meu ranço não pode predominar sobre a minha memória. Tenho muita mágoa deles todos, da UDR, depois da UDN, mas, houve um ganho para a coletividade. Reconheço que naquele tempo o Brasil teve uma explosão na siderurgia, na área portuária, pontes. O Exército trabalhou muito e mandou os milicos para trabalhar, foi muito bom. Não tinha corrupção naquele tempo. Não tinha nada. Só que, nove horas, tinha toque de recolher e a cavalaria estava na rua. Também o pensamento restrito, tudo era censurado.

Para terminar, como funciona o projeto de encontro entre autor e leitor na sua fazenda em Uberlândia?

O Programa “Cerrado e Letras” é uma atividade que eu desenvolvo na fazenda com escolas que tenham adotado alguns dos meus seis livros. Para que eu não vá à sala de aula. Seria prazeroso, mas não teria rendimento nenhum. Eu vejo que a escola vem me visitar e passa o dia, o dia inteiro. É um dia de campo, um dia de Cerrado. É um piquenique literário. Eles passam a conhecer essa atividade rotineira da fazenda, que eu prezo muito.

O programa acontece desde o ano 2000. Faço voluntariamente e ofereço para as cidades da região. Para todo mundo, do Ensino Fundamental à faculdade. Porque não existe o livro infantil. Qualquer livro é para qualquer leitor. Mas, na faixa de escolaridade, dá muito tema transversal.

Esse encontro é um encontro leitor-autor. O menino que leu nunca imagina que o livro foi escrito por uma pessoa de carne e osso. Nem se incomoda de descobrir quem escreveu o livro. Não é importante saber, mas quando ele passa horas ou um dia com uma pessoa que é uma pessoa comum, normal, que escreveu aquele livro que ele leu e gostou tanto, é outro empenho no próximo livro que ele vai ler. Vem na memória: conhecer o escritor.

 

Texto: Leonardo Leal

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