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Odair José Não Parou de Tomar a Pílula do Rock

Um dos maiores roqueiros em atividade no país possui o que poucos têm: a magia da irreverência popular

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Na foto: Odair José, cantor e compositor
Foto: Sara Maia, em 17/08/2012
Anderson Tissa, autor da coluna “Vida Longa, Baby”.
Imagem: Douglas Luzz

Odair José é daqueles artistas que não foram abençoados pela indústria. Digo, mais ou menos. Houve um momento nos anos 70 que o “cantor das empregadas” vendia discos como as camisetas do Neymar no Paris Saint-German. Porém, quando resolveu criar um álbum conceitual e com temática controvérsia, a Polygram negou a proposta e mandou um “até breve” para o cantor. OJ, logo, assinou com a RCA Victor. A nova casa aceitou a ideia, mas cortou 14 músicas, e o LP ao invés de sair duplo chegou as lojas com apenas 10 faixas.

Considerado a primeira ópera-rock do Brasil, “O Filho de Maria e José” saiu em 1977 e não tinha nada a ver com o até então estilo romântico do cantor. O novo disco trazia uma espécie de Jesus Cristo como personagem central, que usa drogas e discute sua sexualidade aos 33 anos.

O público não entendeu. Não gostou na verdade. Creio, que além da polêmica religiosa, foi muito estranho para os seguidores se identificarem com suas influências externas: Peter Frampton e as guitarras de Joe Walsh.

Quem também não gostou, é claro, foi a Igreja Católica. A casa santa acusou a obra de ser um crime contra a fé. O sucesso conquistado quatro anos antes, quando lançou seu maior clássico “Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)”, começava a despencar para o quinto dos infernos.

Apesar do fracasso de vendas, temos de respeitar a coragem e o arrojo artístico de OJ. Méritos também para a gravadora, que mesmo não aceitando o projeto inicial, validou o LP. Elogio muito esse músico. O cara vem desde os anos 70 escrevendo, sendo rock ou não, canções provocativas, polêmicas e incrivelmente criativas.

Em meio a ditadura “Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)” foi censurada e o cantor proibido de CANTÁ-LA em seus shows. Seria a mesma coisa dos Stones serem proibidos de tocar “Satisfaction”. Porém a inteligência de desse artista o eleva em outro patamar. Pensando numa atitude para burlar a censura, OJ fez o seguinte: ele tocava a canção, mas PEDIA PARA O PÚBLICO CANTAR. Gênio!

Seu maior sucesso não é um rock n’ roll. Mas poderia ser já que provoca, questiona, possui gana, vontade de mudar e tem a magia da irreverência popular, coisa que muitos artistas não conseguem ter.

OJ tem um humor diferente, sabe usar muito bem as palavras, entende os problemas sociais, não paga de artista cult e vai lá e faz o que realmente gosta. Depois que resolveu abandonar o rótulo de cantor brega, passou a descer a mão na guitarra. Gravou discos de rock dos quais recomendo muito. Um deles se chama “Gatos e Ratos” (2016), destaco “Carne Crua” e a divertida “Açúcar Mascavo”. No álbum “Dia 16” (2015), a primeira faixa, homônima, apresenta um riff bacana. “A Moça e o Velho”, sucesso do passado mas aqui com novos arranjos, me faz dar muita risada e lembrar de alguma coisa de Bob Dylan.

Fiz uma playlist com as canções de rock de OJ. Escute, deixe de preguiça e conheça a história musical do seu país. O rock n’ roll não está somente na Inglaterra e EUA. Dê um tempo no “tchê tcherere tchê tchê” e ouça outros nomes da nossa música. Tem muita coisa boa. Garanto.

Quero ver, depois disso tudo, dizerem que Odair José não é rock n’ roll.

Texto: Anderson Tissa

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