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Em busca de um sentido para a vida

Viktor Frankl (1905-1997) foi um médico psiquiatra austríaco de origem judia que fundou a escola da Logoterapia.

Foto: Divulgação

Essa escola procura tratar os distúrbios psicológicos através da busca de um sentido para vida. Frankl amadureceu sua terapia nas piores condições possíveis: foi prisioneiro de quatro campos de concentração nazistas, entre eles Auschwitz, e miraculosamente sobreviveu aos quatro. Subsistiu e ainda em 1945, no ano da sua libertação, redigiu o livro intitulado “Em busca de sentido”, um best-seller internacional que já vendeu aproximadamente 10 milhões de cópias. Neste livro ele rememora suas experiências nos campos de concentração e explica como a busca de um sentido maior para a existência havia contribuído decisivamente para que escapasse dessa terrível experiência. Posteriormente à publicação do livro, foi professor na Universidade de Viena e nos Estados Unidos, tornando sua terapia mundialmente conhecida. Terapia essa que tenta dar a todos um sentido maior para a vida através do amor em uma perspectiva que, embora não seja religiosa, é claramente otimista e espiritualista.

Viktor Frankl, apesar de cientista e catedrático, foi uma pessoa que traçou em sua vida um caminho contrário ao da civilização ocidental de sua época (século XX): afastou-se do materialismo científico e se aproximou do espiritualismo. Sim, pois se o século XX pode ser conhecido como o período das revoluções sanguinárias e das terríveis guerras, é igualmente o século em que, no Ocidente, os homens abandonaram a religião. Vivemos uma época de fé, mas de uma fé secularizada. O típico homem ocidental atual tem muita fé na Ciência e pouca em Deus. Trocou a crença religiosa pela secular. Substituiu o espiritual pelo material. Questiona-se muito acerca de Deus, da existência de uma esfera espiritual e dos valores morais de origem religiosa, mas crê cegamente nos resultados da última pesquisa científica ou nas opiniões do primeiro acadêmico com título de doutor que lhe surja frente a frente.

Não nos cabe aqui discutir o quanto a Ciência é confiável ou não, pois todos os dias novas pesquisas contestam as verdades científicas anteriores. Por outro lado, apesar de todos os problemas, o avanço científico permitiu ao homem atual um progresso material e um conforto nunca antes sonhado. Logo, cabe apenas questionar é se, do ponto de vista do eu interior, o abandono da esfera espiritual da vida fez bem ao homem ocidental, ou não. Tal pergunta não é uma questão religiosa. Não se trata de defender alguma corrente ou crença, mas apenas propor uma interrogação profunda e de graves consequências: a crença cega na Ciência, o abandono de uma esfera transcendente da vida e a substituição da moral espiritual (religiosa) pela secular (republicana) fizeram bem ao homem moderno?

Cada pessoa reage de forma diferente diante da ausência de um sentido maior para a vida. Entretanto, pode-se afirmar que a falta de algum tipo de transcendência parece trazer percalços enormes na esfera da existência individual. Viver a vida apenas curtindo-a, pode ser interessante em curto prazo. Entretanto, viver longos períodos dessa maneira costuma causar um imenso vazio existencial, principalmente quando alcançamos determinada idade e não há mais tantas novidades, pois já não somos tão jovens, bonitos, interessantes e bem dispostos. Nessas horas, a ausência de uma crença maior torna a vida preta e branca, pois é complicado olhar em volta e não visualizar que construímos sólidas relações no âmbito do amor ou de algum ideal de ordem superior ao mundo material. Que não construímos, por exemplo, uma família. Que não nos doamos verdadeiramente a ninguém e que não haverá no mundo, após a morte dos nossos ascendentes, pessoa que vá realmente lamentar nossa ausência. O materialismo nos dá prazeres instantâneos, mas nos causa uma sensação de vazio capaz de, pouco a pouco, consumir a “alma” dos seres mais bem dispostos.

Paralelamente vivemos uma fase de grande enriquecimento e a ausência de dificuldades formou uma geração fraca que jamais é frustrada e, sem frustrações, não desenvolve resiliência ou, melhor, força de caráter. E, sem resiliência, desaba emocionalmente diante das primeiras dificuldades efetivas que encontra na vida. Como diz a sabedoria antiga: “Tempos bons formam homens fracos, estes constroem tempos ruins que, por sua vez, forjam homens fortes que irão erguer novos bons tempos”. Porém, na atualidade, nossa geração que se tornou fraca graças ao enriquecimento fácil, piorou graças à cultura da vitimização que nos faz culpar sempre alguém ou algo pelos nossos fracassos: o Capitalismo, os Estados Unidos, o machismo, a meritocracia etc. Não importa quem ou o que, conta apenas que no mundo moderno ninguém mais se sente responsável pelo próprio fracasso.

O resultado desse terrível coquetel de materialismo, enriquecimento, vitimização e fraqueza de caráter fez com que nos tempos modernos tenhamos uma geração que experimenta facilidades materiais jamais antes vistas, mas que, apesar disso, é infeliz. A depressão será em poucos anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença mais incapacitante do mundo. Na ausência de uma esfera de ordem transcendente, o culto ao corpo se torna exagerado e os distúrbios mentais de ordem morfocorporal (anorexia, exageros no fisiculturismo, nas cirurgias estéticas etc.), disseminados. Apesar do crescimento irrestrito de opções de lazer, o consumo de drogas não cessa de aumentar. O sexo nunca foi tão liberado, mas as pessoas nunca tiveram tanta dificuldade para ser felizes em um relacionamento. Mulheres confundem beleza com sensualidade sem perceber que a beleza desperta nos homens o amor e a sensualidade, a luxúria. Que o amor faz os homens quererem doar algo de si para a amada e que a luxúria nos desperta o desejo contrário: o de tomar algo da desejada. Enfim, a moral e os valores seculares (republicanos) não conseguiram substituir os espirituais (cristãos). A alma humana se tornou frágil, confusa e infeliz com essa troca. E o mundo se converteu, consequentemente, em um lugar menos feliz.

Como Viktor Frankl já nos disse, o desespero é o resultado “matemático” do sofrimento menos o sentido que damos para a nossa própria vida. Se não concedermos nenhum senso para ela, se a encararmos apenas como uma esfera material em que não temos nada mais a fazer além que curti-la, todo e qualquer sofrimento será insuportável. Mas, se ao contrário, lhe dermos um sentido maior, transcendente, se nos sentirmos algo além de um amontoado de moléculas, o sofrimento se transforma em possibilidade de realização pessoal. Ortega y Gasset, no prefácio do seu monumental livro A Revolução das Massas”, afirma que apesar de nossa liberdade ser delimitada pelas circunstâncias, sempre nos sobra um leque de escolhas amplo diante da vida. Se não temos controle sobre as circunstâncias da vida, pelo menos temos a de escolher como reagiremos diante delas. Em outras palavras Victor Frankl deixou a mesma mensagem quando nos alertou: “Você não é produto das circunstâncias. Você é produto das suas decisões”.

Um leitor afoito pode imaginar que nessas linhas defendo a volta de um poder religioso sobre a vida das pessoas ou que sou contra os avanços da Ciência. Ledo engano, pois apadrinho apenas a ideia de que está na hora de o homem ocidental resgatar aquilo de bom que ficou pelo caminho da nossa evolução civilizacional: a moral cristã e os valores clássicos. Estes nos davam uma transcendência na vida e nos forjavam caráteres extraordinários.

 

Texto: Pedro Hanks

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