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Incêndio na reserva

Fogaréu depois de 16 horas!

Foto: Reprodução/TV Integração

Ninguém viu quando a primeira nuvem cinza subiu de dentro da mata da reserva da UFU. De repente as labaredas estralavam, lambendo as árvores secas e as verdes.

Impossível conter aquele fogo que surgia ao mesmo tempo em pontos distintos e distantes.

Nem a eficiência dos bombeiros nem a solidariedade dos vizinhos segurou este incêndio. Nem segurou os anteriores. Nunca.

Ontem ventou demais o tempo todo. O vento levava fagulhas incandescentes e a sarapalha, ressecada depois de cem dias sem chuva, foi como rastilho de pólvora.

Impotência diante do horror da queimada, é isso que eu sinto.

Sem atitude, sem iniciativa, sem coragem de investir contra as chamas, eu sou missa-de-corpo-presente engessada na beira da rodovia.

Tenho vergonha de mim. Da minha covardia. Da minha insignificância. Da minha inutilidade. Uma vergonha que não serve para nada, porque vergonha não ajuda a apagar fogo.

Os bombeiros avançam heroicamente em luta corporal contra o fogo. Batalha perdida de antemão, todo mundo sabe disso mas assim mesmo chama os bombeiros. Este vento louco, de onde saiu tanto vento?

Eu sou nada mais do que um caniço pensante, envergonhado e triste. Penso na fragilidade de tudo. Da vida. Dos valores éticos. Dos atritados relacionamentos familiares… Nós, “homo sapiens” pedantes, encarcerados pela vaidade no nosso insignificante mundinho pessoal…

Fecho os olhos e vejo um tapete dourado forrando os pastos. É o capim-africano, cumprindo seu ciclo de vida. Vejo os ipês salpicando a paisagem de majestoso amarelo-ouro. Indiferentes a tanta beleza e a tão grande esforço, o fogo e o vento avançam.

Penso nas cobras peçonhentas, silenciosas, cegas, lentas, investindo, avançando, batendo bravamente no fogo raivoso. Seu veneno letal não intimida as chamas.

Penso nas abelhas melíferas caindo aos milhares com suas asas de seda queimadas. Do tronco em brasa escorrem o mel, a própolis e as larvas.

Penso nos marimbondos-de-fogo agora para sempre inertes, torrados.

Penso nas minividas subterrâneas, tão desconhecidas quanto imprescindíveis e lhes rendo homenagem.

Penso nos tucaninhos em suas primeiras aulas de voo, sufocados pela fumaça, voando desesperados para as grimpas incandescentes de suas estações de pouso.

Penso na vaca nelore, brava, ciumenta, se deixando queimar para proteger a cria recém-nascida.

Penso nos besouros, nas cigarras, nas crisálidas hibernadas, nas minhocas laboriosas, nas formigas-cortadeiras, torradas em sua marcha forçada inexorável.

Uma família de micos vem guinchando, saltando de galho em galho até despencar no colchão de brasa. Parecem seres humanos, crianças travessas vivendo seu último rapel. Um holocausto. E eu, o que faço? Eu choro sozinha na beira da estrada. Destruição total. Ô dó!

Onde teria começado este incêndio? Como aconteceu esta tragédia? Seria apenas a queima de um lixinho de nada na porta de algum barraco, de alguma cozinha? Ou seria pirraça de vizinhança, questionando barra de saia ou barra de córrego? Talvez um toco de cigarro desprezado a esmo por um viajante descuidado, irresponsável, criminoso. Fogo posto? Ou teria sido combustão espontânea depois de cem dias de estio.

A pergunta cai no vazio. É tempo perdido. Nunca mais este canto do mundo será como era até a manhã de ontem. É esta a insustentável leveza da vida.

Passa da meia-noite. A lua cheia tardia esconde as nuvens cinzentas, porém as labaredas avançam. Agora são cordões de fogo espalhados pelos 200 alqueirões da reserva da Universidade Federal de Uberlândia. Meu coração cerradiano chora caladinho.

O fogo segue voraz, se alimentando de todos os seres vivos e mortos do bioma cerrado, fauna e flora. E vai transformando em potassa inútil toda a pesquisa acadêmica de mestrado e doutorado. A destruição é total.

O fogo é um bem ou um mal? Talvez um mal necessário, mas isto parece um argumento cínico agora.

Talvez a queimada promova a migração de algumas aves e a emergência de insuspeitadas sementes dorminhocas. Talvez. Tudo é possível no cerrado Fênix.

4h da madrugada. Faz frio. O vento amainou e acalmou as labaredas. Parece que o incêndio foi controlado. Parece mas não é verdade. Quando o sol voltar com seus 40° escaldantes e o vento soprar as brasas do borralho do Panga, tudo vai acontecer de novo, para desespero nosso/meu.

Preciso de um consolo para dormir um pouquinho. Aqueles saguis em chamas caindo na fogueira… Dormir como?

…”E O VENTO LEVOU… Eu me lembro da cena comovente quando Scarlett O’Hara, tentando desenterrar beterrabas, esgravata o canteiro calcinado de sua fazenda TARA, destruída pela Guerra da Secessão. Ela ergue a mão cheia de terra e vai despejando-a devagarinho, enquanto declara solenemente: “… terra é sempre terra, eu pensarei amanhã”. Talvez ela diga TARA, em vez de terra, não importa.

Obrigada pelo consolo, Scarlett. Eu também pensarei amanhã.

Texto: Martha Pannunzio
Fazenda Água Limpa, 13/09/2017

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