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A denúncia do Joanico

João Severiano Rodrigues da Cunha foi um dos nossos melhores prefeitos, senão o melhor.

Foto: Divulgação

Era bacharel em farmácia, estabelecido à Praça da Independência, hoje Coronel Carneiro; era proprietário da Farmácia Espírito Santo, que produzia vários medicamentos. Naqueles tempos de poucos médicos, a cidade ainda se servia de raizeiros, benzedeiras e práticos.

João Marra de Castro e Maria dos Santos Couto, sem serem nada, davam consultas e receitavam. Eram “coiós”, portanto, adversários do prefeito, que era “cocão”. Severiano denunciou-os ao Ministério Público por exercício ilegal da medicina. João e Maria defenderam-se e publicaram sua defesa na imprensa. Afirmaram que a cidade estava cheia de práticos tanto na medicina como na odontologia e que os pobres, não tendo como pagar consultas, valiam-se dos práticos e da medicina alternativa com suas benzeções, ervas e homeopatias. Por fim, se eles merecessem ser punidos, o acusador também deveria sê-lo porque era ele quem aviava as receitas que eles passavam a seus pacientes. À parte a questão do Direito, a defesa que João e Maria fizeram, que surtiu resultado positivo, nos informa de coisas interessantes.

Fica-se sabendo, por exemplo, que São Pedro de Uberabinha só tinha três médicos os quais atendiam também na região, viajando constantemente e que, portanto, nem sempre estavam na cidade; que o major da Guarda Nacional, Bernardo Cupertino, que não era nem médico nem farmacêutico, visitava clientes, examinava-os e passava-lhes receitas. Chegam a ser irônicos ao afirmarem que o médico com a maior clínica da cidade era o major Bernardo Cupertino! O político e delegado de polícia Adolpho Fonseca e Silva também dava consultas e receitava. Atendia clientela também o fazendeiro Manuel Ribeiro de Vasconcelos. E acrescentaram que em Santa Maria havia um farmacêutico estabelecido que não era habilitado, nem por diploma nem por provisão do governo. E que havia muito mais gente receitando na cidade.

Parece que o Joanico foi mexer onde não devia. Todo o pessoal arrolado pelos acusados como praticante do exercício ilegal da medicina era “cocão”, correligionário do Joanico. Como as autoridades eram meio chegadas ao partido dos “cocão”, acharam melhor deixar as coisas como estavam para ver como é que ficavam.

 

Texto: Antônio Pereira da Silva

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