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Márcio Alvarenga fala sobre a falta de renovação da política no pós-militarismo

Com mais de 40 anos de experiência no jornalismo, principalmente o radiofônico, Márcio Alvarenga encontrou um caminho alternativo na imprensa, promovendo o debate de ideias e opiniões.

Em entrevista a O JORNAL de Uberlândia, ele fala sobre o início da carreira em São Carlos, da censura ao seu trabalho quando os militares ocuparam o poder e do desgaste da classe política.

Ao mesmo tempo, Alvarenga destaca a apatia do jovem e da população e a falta de renovação das lideranças no Brasil. Também ressalta um fato positivo, a alternância de poder dentro da universidade. Confira abaixo a entrevista.

Foto: Leonardo Leal

Você é um jornalista respeitado, com amplo conhecimento e visão crítica. Como foi a construção de sua carreira no jornalismo?

Comecei a trajetória no rádio em São Carlos (SP). Comecei justamente no dia fatídico 31 de março de 1964 e fico abismado ao acompanhar alguns comentários de pessoas. Algumas se dizendo saudosistas, outras pregando a volta dos militares. A censura era implacável com relação à imprensa.

Naquele período, eu trabalhava na rádio e também no jornal. A presença mais assídua que eu sentia era do censor. No jornal, ele se posicionava exatamente atrás, lendo o que eu estava escrevendo à máquina. E, as entrevistas, todas tinham que passar por ele.

O trabalho do jornalista era muito cerceado. Na época, entrevistei um cineasta muito famoso, o único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, o Anselmo Duarte, com “O Pagador de Promessas”. Ele estava brigado com a imprensa e consegui entrevistá-lo em meio a esse silêncio que ele se impôs perante a imprensa nacional.

 

A entrevista com o Anselmo Duarte foi censurada?

O Anselmo Duarte tinha ido a São Carlos participar de um festival de cinema e me concedeu uma entrevista de 40 minutos. Quando saí do hotel, o censor estava na porta. Ele me pediu a fita. Como eu tinha duas fitas no bolso, dei uma falsa. Corri na rádio, fiz uma cópia e entreguei. Ele quase me prendeu porque pensou que foi premeditado. Para se ter uma ideia, dos 40 minutos de entrevista, liberaram cinco minutos.

Dois anos depois, eu seria o último repórter a entrevistar a atriz Cacilda Becker. Ela foi a São Carlos com a peça “Esperando Godot”. Fiz uma entrevista com ela e aconteceu exatamente a mesma coisa. Quando eu saí do camarim, o censor estava na porta. Ele requisitou a fita e eu dei a fita errada para ele. Andava sempre com duas fitas no bolso. E isso era uma estratégia para você tentar burlar a censura, porque senão você perderia a entrevista. A da Cacilda durou 20 minutos e eles liberaram seis minutos.

As pessoas hoje precisam tomar conhecimento do que aconteceu naquela época, em que não era fácil. Hoje, temos um outro tipo de censura, que entendo como a censura do capital. Para não colidir com os interesses do grande patrocinador, muitas vezes a imprensa se curva. Isso é ruim também.

 

Como se deu a sua trajetória no rádio até Uberlândia?

Saí de São Carlos, fui para Ribeirão Preto, onde trabalhei também em jornal e rádio. Trabalhei no Diário de Notícias e na Rádio Renascença, ambos os veículos eram da UNAERP. Na rádio, um colega da época era o famoso José Luiz Datena. Trabalhamos juntos. E no Diário de Notícias, eu trabalhei com o Heraldo Pereira, que é repórter da Globo de Brasília. O grupo de Ribeirão Preto comprou uma rádio de Uberlândia e, como eu era solteiro, me escalaram para vir dirigir a rádio aqui. Eu vim em 1981 para cá e estou aqui até hoje.

Em 1986 entrei na Rádio Universitária e comecei então o meu trabalho com dois programas, um diário, o “Trocando em Miúdos”, e um semanal, “A Música no Cinema”.

 

A partir do seu ponto de vista, o que está acontecendo com a classe política no País atualmente?

A classe politica está passando por um desgaste de imagem muito acentuado. Isso vem se perpetuando ao longo do tempo. Não houve uma grande renovação política e as tentativas de renovação que aconteceram frustraram a opinião pública. Consequentemente, o eleitor brasileiro está muito frustrado com a política. Há um desencanto muito profundo.

O desencanto é tal que nós temos a situação hoje, um presidente com 5% de aprovação e ninguém se preocupa em bater panela, ir para a rua, para tentar manifestar publicamente a sua indignação, o seu descontentamento. Então, na realidade, o que acontece no Brasil de hoje tem muita relação com o período militar, porque, como nesse período nós vivemos uma intensa ditadura, isso também provocou uma ausência de renovação da classe política.

Hoje se têm remanescentes daquela época, Sarney, Paulo Maluf e tantos outros que surgiram. Esse processo de desgaste da classe política se deu primeiro pela ausência de renovação e, segundo, que a renovação que houve frustrou a expectativa.

 

Por atuar em um veículo de comunicação ligado a uma universidade, por que os jovens hoje não protestam como antes?

Um pouco é isso. Particularmente, eu tenho uma opinião de que o jovem, com relação à política, ele mantém um distanciamento muito grande. Nós não temos uma cultura política.

Então, por exemplo, por que não temos o voto facultativo? Porque é capaz de não aparecer ninguém para votar. Nos países em que o voto é facultativo, você tem uma abstenção da ordem de 40%. Aqui nós teríamos uma abstenção em torno de 80%. A abstenção na última eleição já foi exatamente indicativa disso, mesmo com a obrigatoriedade e aqueles que vão votar encontram mecanismos de protestos no voto nulo ou branco. Tudo isso para reforçar essa questão do desencanto da política.

É ruim porque a omissão dos bons contribui para a audácia dos maus. O Congresso está aprovando uma reforma política para atender aos interesses particulares da classe política. E não é aquela reforma que foi cobrada na manifestação de rua que houve em 2013. Muito distante daquilo. Esse é o retrato fiel.

 

Na semana passada o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, esteve no Brasil e, após uma palestra, se reuniu com os jovens. Por que nossas lideranças também não fazem esse tipo de ação?

De novo, acho que é o desinteresse, a apatia. O Obama é uma figura carismática que conseguiu ficar oito anos no governo e ainda sair com um grau de aprovação significativo. Ele só não fez a sucessora por um acidente de percurso.

Na realidade, como não temos uma cultura política, a própria juventude não tem interesse. Hoje, se tem uma pulverização muito grande de partidos e isso é ruim. Faz com que se acabe tendo os donos de partidos. E isso não leva a nada. Fica muito pulverizado e você não tem densidade.

Enxergo hoje a situação política do País da seguinte maneira: nós temos uma maioria silenciosa e essa maioria silenciosa, a hora que for se manifestar, vai ser justamente nas urnas. É isso que muitas vezes surpreende determinados resultados.

 

Como você levantou essa questão da maioria silenciosa, qual a sua expectativa para 2018, de uma forma geral?

É muito difícil você fazer qualquer prognóstico. Se fosse em termos de loteria, você teria que cravar um triplo. Coluna um, no meio e coluna dois, porque realmente a gente não sabe o que vai acontecer. É um cenário extremamente nebuloso. Nesse momento, não tenho nenhuma condição de fazer um desenho de cenário. Porque você não sabe qual o cenário que você vai trabalhar, quem serão os protagonistas das eleições no ano que vem. Você não consegue arriscar isso. É difícil de falar.

 

A Universidade e Uberlândia foram administradas nos últimos anos pelo PT. Há controvérsias sobre as gestões. Qual a sua opinião?

Enxergo a situação da seguinte maneira – digo isso reiteradas vezes: quando o PT ganhou a primeira eleição para reitor aqui na Universidade em 1992, através do professor Nestor Barbosa, nós tivemos uma situação que se reflete até hoje na área da saúde. Em 1992, surgiu o Sistema Único de Saúde. O responsável pelo SUS em Uberlândia era o secretário municipal de Saúde da época.

Naquele período, o setor público de saúde era feito pelo Hospital de Clínicas e pelos ambulatórios que a UFU tinha. Um no Bairro Segismundo Pereira, outro no Roosevelt e outro no Santa Mônica. Esses três ambulatórios, mais o hospital, eram os responsáveis. Ainda não tinha UAI (Unidade de Atendimento Integrado).

Então, como já se tinha claramente naquela época uma divisão política, que começou com o PMDB, na época do ex-prefeito Zaire Rezende, dentro da Universidade, a grande novidade de o PT conseguir eleger um reitor, tendo um prefeito da cidade de oposição, que era do MDU. Consequentemente, se estabeleceu uma rota de colisão entre Prefeitura e Universidade. Para penalizar a Universidade, o teto do SUS de Uberlândia na época foi subestimado.

Era inclusive inferior ao teto da cidade de Juiz de Fora. Hoje se tem o teto de Uberlândia sendo inferior a Juiz de Fora, e se tem uma situação em que existem as UAIs, o Hospital Municipal, o Hospital de Clínicas; e, na época, em 1992, havia uma rede privada que era conveniada ao SUS. Eles simplesmente se descredenciaram do SUS. Então 100% do atendimento se tornou público.

Moral da história: o dinheiro do SUS era insuficiente, como é insuficiente hoje. Essa questão da política penalizou uma área extremamente sensível como é a área da saúde.

Depois em 2000, novamente, um reitor do PT assumiu a Universidade, o Arquimedes Ciloni ficou oito anos. Em 2008 houve mudança, o Alfredo Júlio. Depois do Alfredo, volta a oposição, que seria o professor Elmiro Santos Resende e, agora, o professor Valder Steffen. O que a gente observa é que, exceto o período de 2000 a 2008, quando o reitor foi reconduzido, nas outras eleições, desde 1992 praticamente, houve uma alternância de poder. Isso é muito saudável.

 

A partir de seu trabalho na área de comunicação, qual a sua opinião sobre Uberlândia?

Como profissional de mídia, eu apostei numa opção alternativa de rádio. Para se ter uma ideia, em 1987, quando comecei o meu programa na Rádio Universitária, todas as emissoras de Uberlândia no horário das 11 horas faziam programa de esporte. Investi nessa ideia de fazer debates e abrir um canal que contou com a participação destacada de vários segmentos.

Em 1988, eu fiz o primeiro debate público com os candidatos a prefeito de Uberlândia, aqui no anfiteatro do Campus Santa Mônica, com capacidade para 400 pessoas, lotado. Na época havia oito candidatos a prefeito. Então tivemos um debate, inclusive com a participação da plateia, perguntando aos candidatos.

Também repeti essa experiência para reitor. No ano passado, retomei o debate com os candidatos à reitoria da UFU. Esse espaço que criei em 1987 é o espaço que falta na maioria dos veículos, que muitas vezem se preocupam em reproduzir a sua opinião.

Tenho um quadro com um ano e meio de duração que se transformou na grande coqueluche do rádio. Aos sábados, o quadro “Contraponto”. Um tema é debatido por duas pessoas com pontos de vistas distintos. Esse é o grande papel do jornalismo. O ouvinte, que não tem uma opinião formada sobre o assunto, ele vai ponderar as duas opiniões e poder ter a sua própria opinião. Isso que falta e vale tanto para rádio como TV.

 

Texto: Leonardo Leal

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