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Direita ou Esquerda?

Muito diferente de uma briga entre o bem e o mal, a distinção entre Esquerda e Direita advém de maneiras distintas de ver o mundo.

Foto: Pixabay

Aproximam-se as eleições no Brasil e percebo que, mais uma vez, o país passa ao largo de questões fundamentais para o amadurecimento de nossa Democracia. E um desses temas é definir corretamente o que é ser de Direita e o que é ser de Esquerda. Sim, pois essa diferenciação, apesar de embasar as ideologias que deveriam orientar a plataforma dos candidatos e partidos, é muito pobremente debatida na atualidade. Principalmente em razão de que, em nosso país, décadas de hegemonia cultural da Esquerda (a ideologia de Esquerda no Brasil é amplamente amparada por quase todos os artistas, professores universitários, jornalistas, formadores de opinião etc.) fragilizaram enormemente esse tipo de discussão. Além disso, graças aos enganos perpetrados por professores de ensino básico e secundário e, principalmente, pelos docentes de cursos de Humanas nas universidades públicas brasileiras, formamos gerações que acreditam em uma mentira que nos diz que a diferença entre a Esquerda e a Direita seria que a primeira representaria o novo, o futuro, a solidariedade e o bem. Já a segunda seria o ultrapassado, o passado, o egoísmo e o nocivo.

Muito diferente de uma briga entre o bem e o mal, a distinção entre Esquerda e Direita advém de maneiras distintas de ver o mundo. Esse fato pode ser facilmente percebido quando comparamos os textos daqueles que, filosoficamente, podem ser considerados, modernamente, os pais dessas posições: Jean-Jacques Rousseau (Esquerda) e Edmund Burke (Conservadorismo). Ao realizar essa comparação, pode-se afirmar que Direita é a posição filosófica daqueles que possuem dúvida na possibilidade de os homens consertarem a sociedade baseados apenas em boas intenções, teorias políticas e em engenharias sociais elaboradas em gabinete. É o ceticismo em termos de política. Logo, o sujeito de Direita, principalmente o conservador, é aquele que aceita a realidade como ela é e inclina-se a achar mais fácil encontrar um paraíso após a morte do que acreditar que algum modelo teórico de sociedade perfeita possa construir um éden na Terra. Isso faz com que o típico homem de Direita tenda a ter muita fé em Deus (não obrigatoriamente) e pouca crença no homem (inevitavelmente). Caberia a cada indivíduo, portanto, se responsabilizar por si próprio e nenhum governo poderia, na tentativa de construir um mundo melhor, ultrapassar certos limites, destruir tradições e liberdades individuais. Por causa disso, os governos não precisam ser “fortes e grandes”. Para o homem de Direita, a felicidade geral não existe. Ela é uma conquista individual. Ele entende que a realidade é muito complexa para ser resolvida por gabinete e, reconhecendo a impossibilidade do homem em consertar o mundo e exterminar seus males, inclusive por acreditar que o mal do mundo começa no mal que existe dentro de cada ser humano, sobra-lhe a defesa do seu direito de tentar ser feliz da melhor maneira que conseguir. Resta-lhe apenas a defesa da sua liberdade de ação e da sua consciência individual. Sendo assim, tende a não aceitar que o governo tente cuidar dele determinando-lhe o que lhe é bom ou ruim em termos privados. Ele acredita no mérito e na responsabilidade individual. Em suma, o homem de Direita é o cético realista que preza a liberdade individual e ama o mundo como ele é.

Já com o homem de Esquerda ocorre justamente o contrário. Ele é o idealista que acredita no homem como capaz de resolver todos os problemas do mundo via modelos e teorias de gabinete, ou seja, através de engenharia social. O homem de Esquerda tem pressa em reformar o mundo, pois o paraíso deve ser construído agora e na esfera material. Não é possível deixar as coisas como estão e esperar um éden celestial que talvez nem exista. Para esse homem, é possível consertar a sociedade e tal façanha pode ser feita de forma relativamente rápida desde que uma teoria seja colocada em prática. Para o típico homem de Esquerda o mal não está necessariamente no homem, mas sim na sociedade que o corrompe – vide Jean Jaques Rousseau com sua célebre frase: “O homem nasceu livre e por toda parte vive acorrentado”. Importa, então, alterar rapidamente a realidade, modificando a sociedade que corrompe o homem. Alterando-a, o mundo se consertará, pois para ele o mal é externo ao homem, visto que o ser humano seria fruto do meio e seria a sociedade que nos corrompe. Logo, ele acredita na responsabilidade coletiva. Além disso, por ser idealista e crer no homem, defende governos fortes e poderosos para que estes possam organizar a sociedade e impor a ela um modelo político, econômico e social mais justo. O esquerdista é capaz de sacrificar as liberdades individuais para construir uma sociedade mais igualitária, na qual prevaleça a dita justiça social (por mais indeterminado que seja esse termo). Cabe aos outros aceitarem trocar o real de suas vidas pelo ideal da sua mente. Para o típico homem de Esquerda, a “justiça social” deve estar acima do mérito individual e o “bem comum” deve ser colocado acima do direito individual. Resumidamente, o homem de Esquerda é o idealista que preza a igualdade e não aceita o mundo como ele é; quer construir um sonho, impô-lo à sociedade e modificar a realidade.

Quanto à diferenciação entre Direita e Esquerda, vale ainda a pena relembrar um dos maiores filósofos políticos de todos os tempos: Alexis de Tocqueville. Esse brilhante pensador, ainda no início do século XIX, estudou os primórdios da Democracia norte-americana. Com base nesses estudos redigiu e publicou um dos maiores trabalhos de filosofia política de todos os tempos: “A Democracia na América. Entre as diversas e brilhantes observações realizadas por ele nessa obra, merece destaque a que prova de que, entre os ideais da Revolução Francesa – Igualdade, Liberdade e Fraternidade –, os dois primeiros eram antagônicos entre si. Logo, em um sistema democrático haveria um eterno conflito entre os defensores da liberdade – Direita – e os da igualdade – Esquerda. E a Democracia só sobreviveria enquanto houvesse um equilíbrio entre esses dois valores. A lógica é simples: se prevalecesse demais a liberdade, como os seres humanos são muito diferentes entre si (inteligência, capacidade de trabalho etc.), em pouco tempo uns iriam possuir muito mais do que os outros – poder, dinheiro, meios – e a sociedade se tornaria desigual. Por outro lado, a igualdade só seria possível se a liberdade dos indivíduos fosse cerceada, pois caso contrário, dadas as diferenças entre as pessoas, algumas cresceriam muito mais do que outras e a sociedade se tornaria, inevitavelmente, desigual.

Logo, ao contrário do que nos dizem nossos professores, artistas e intelectuais, não há problema nenhum em se assumir como alguém de Direita. Essa é, aliás, uma posição muito mais madura do que a da Esquerda. E o Brasil nunca alcançará maturidade política enquanto isso não for compreendido pela nossa sociedade. Nunca haverá Democracia se as duas posições não puderem coexistir em um debate realmente livre. Nunca seremos uma nação politicamente equilibrada enquanto alguém for considerado mau-caráter e egoísta apenas por ser de Direita.

 

Texto: Pedro Hanks

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