Destaque Música Rock

Quando soube da morte de Chuck Berry

Muitos não imaginavam em ver o The Who por aqui, nem no retorno do Liam e Brian Johnson

Anderson Tissa, autor da coluna “Vida Longa, Baby”.
Imagem: Douglas Luzz

Quando soube da morte de Chuck Berry, tentei caprichar no texto por se tratar de um gênio da música. Estava ciente também que por mais próximo da perfeição eu chegasse, não seria capaz de homenagear um ícone de tanta imponência.

Quando soube da morte de Chuck Berry, estava a ingerir algumas dezenas de cerveja, e, provavelmente, você não vai se recordar o que fazia ou onde estava.

Quando soube da morte de Chuck Berry não fiquei triste, porque sabia que voltariam a falar dele e ouvir a sua música. Quando soube da morte de Chuck Berry nem Chuck Berry eu ouvia mais.

Quando soube da morte de Chuck Berry, Temer convocava uma reunião de emergência para discutir o escândalo da carne, e a comunidade judaica no Brasil comemorava o dia nacional da imigração.

Quando soube da morte de Chuck Berry, Donald Trump estava apenas há três meses na Casa Branca e os nigerianos comemoravam os Dia das Mães.

Quando soube da morte de Chuck Berry era 18 de março e descobri que o mesmo havia nascido em 18 de outubro. Depois, mais a diante, soube também que o Zacarias, aquele trapalhão, havia morrido há 27 anos também em 18 de março. Em 18 de março deste ano, fazia um mês e um dia que eu havia reclamado à prefeitura sobre uma rua esburacada, emporcalhada e escura. Curioso que neste 18 de outubro, a rua continua da mesma forma.

Quando soube da morte de Chuck Berry, Hugh Jackman acabava de estrear no cinema pela última vez como Wolverine. O King Kong também estava nas salas com Skull Island e parece que ninguém mais se lembra desse filme. No streaming, começa a polêmica 13 Heasons Why. Bob Dylan, outro gênio, lançava seu álbum cover de clássicos americanos: Triplicate. Na Austrália, Vettel desbancava Hamilton.

Quando soube da morte de Chuck Berry tinha gente correndo no Parque do Sabiá, protestando na Praça Tubal Vilela, namorando no Palácio, bebendo em pé na Santos Dumont, tinha gente descansando na Martinésia, sambando no Patrimônio, cortando a Rondon, se escondendo no Fundinho, no show do Dino Fonseca. Tinha gente em todos os cantos da cidade. E o povo não estava reclamando do calor como agora.

Quando soube da morte de Chuck Berry, o Uberlândia Esporte deixava escapar a chance de ser campeão mineiro. Aumentava consideravelmente o número de Master Coachs na cidade. Foi quando comprei meu ingresso para o meu primeiro Rock in Rio (#EuFui). E fiquei sem dinheiro para comprar o do U2. O ano tinha acabado de começar, no Brasil. E já tinha uma turma contando os dias para a Semana Santa.

Quando eu soube da morte de Chuck Berry, o rock havia morrido. Muitos não imaginavam em ver o The Who por aqui, nem no retorno do Liam, muito menos que Brian Johnson voltaria a subir no palco um dia.

Quando eu soube da morte de Chuck Berry, ele tinha 91 anos. E o rock também.

Feliz aniversário, eterno Chuck.

Texto: Anderson Tissa

Notícias relacionadas