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Cezar Honório fala sobre a nova forma de influência das empresas na política

Com uma experiência de mais de 20 anos no Jornalismo e mais de 15 como executivo da área de conteúdo, o jornalista Cezar Honório, em entrevista a O JORNAL de Uberlândia, fala um pouco da sua história pessoal e a relação com a cidade.

Ele aborda também o cenário político para 2018 e a polêmica envolvendo a Rede Globo e segmentos da Igreja. Outro ponto destacado é seu novo projeto de consultoria política denominado Gestão da Influência. Confira abaixo os principais pontos.

Foto: Divulgação

 

Normalmente, você entrevista as pessoas. Como se sente sendo entrevistado?

Fico bastante à vontade para ser entrevistado. Quem é repórter – e todo jornalista é repórter por natureza, independente da profissão que exerce – quem depende de entrevista não pode se negar a dar entrevista, me sinto à vontade, não é comum. É diferente.

 

Sua família tem um histórico de pioneirismo e na política. Você já pensou em participar, disputar algum cargo?

A minha família tem um histórico de se interessar por política. Muito menos do que se candidatar. Tenho alguns parentes distantes que já se candidataram, nem contato tenho. Nunca fui próximo de nenhum parente que tenha tido cargo eletivo, por exemplo. Nunca tive convivência.

A minha referência é de uma família politizada, a lembrança que tenho é do meu avô, que lia o Estado de Minas e o Estado de São Paulo lá em Carmo do Paranaíba há uns 40 anos. Naquele tempo, isso não era uma coisa comum, nem hoje é. O sujeito que estava no interior de Minas lendo jornal diariamente. Essa é a lembrança mais forte que eu tenho de uma família que é bastante politizada, mas é muito eclética. Tem gente de centro, de direita, de esquerda.

Até por isso e, principalmente pela profissão que escolhi, nunca me liguei a partido político. Agora, me candidatar, nunca pensei e não penso. Porque, diferentemente de ficar à vontade para dar entrevista, que é algo excepcional, eu me sentiria muito desconcertado se eu fosse ser candidato a alguma coisa. Isso não faz parte dos meus planos e acho que não tenho o menor jeito.

 

Atualmente ocorre um conflito entre a Rede Globo e segmentos importantes da Igreja e da sociedade. Como você avalia esse conflito?

No mundo em que a gente está vivendo hoje, com a democratização da informação por meio da internet, é uma hipocrisia alguém dizer que um veículo de comunicação ou qualquer outro meio vai influenciar um sujeito a mudar de opção sexual.

Essa discussão, a briga com a Rede Globo se deve a essa questão da ideologia de gênero. Como se ideologia de gênero fosse uma coisa ensinada, o que, na minha opinião, não é. Então, essa briga é uma questão ideológica e política.

Como existe uma tendência, principalmente para as eleições de 2018, de um movimento mais conservador, mais de centro-direita, então essas questões acabam tendo uma movimentação maior. Isso é circunstancial. Até outro dia, a Rede Globo era a queridinha dos grupos mais conservadores, mais à direita. Até a Revista Veja virou vilã, petista, ultimamente.

Então, assim, vamos combinar que as pessoas ajustam o discurso com os próprios interesses? Isso também é uma formação de imagem, mas isso é uma questão política e ideológica.

 

Qual sua avaliação do cenário político para 2018?

O cenário político para 2018 será determinado pela eleição presidencial, que vai determinar as eleições para governador e mesmo para deputado e senador. Há uma tendência natural de uma eleição mais propícia a eleger candidatos mais conservadores, mais liberais, mais de centro-direita, devido a uma questão cíclica. É mais por uma questão cíclica do que pelos erros que o PT, o Lula e a Dilma cometeram. Do ponto vista politico, principalmente a Dilma.

Depois de 13 anos de governo do PT, seria natural um movimento mais à direita. Agora, o quão à direita vai ser? O Bolsonaro, que era uma espécie de Tiririca de farda, hoje já é um sujeito que tem sido considerado realmente um cara que pode virar presidente. E quando alguém pensa que pode virar, só a expectativa de poder já alavanca o sujeito. Já aparece gente querendo ajudar. Por consequência, já começa a ajustar o discurso dele para menos radical, para conseguir agradar mais gente.

Ainda acho que o que está apresentando nas pesquisas é muito cedo. Porque ele está surfando numa onda, por não terem outros nomes de centro-direita, principalmente porque o PSDB está se engalfinhando entre Alckmin e Dória. Está uma briga maluca do PSDB porque em algum momento isso vai se resolver de um jeito ou de outro e aí, a tendência, essa candidatura mais radical de direita, representada principalmente pelo Bolsonaro, dar uma desidratada.

Agora, depois que Donald Trump foi eleito nos Estados Unidos, tudo é possível. Só que as pessoas esquecem quando comparam o Trump com o Bolsonaro. O sistema eleitoral dos Estados Unidos é muito diferente do brasileiro. Um sujeito conseguir se eleger com um discurso extremista, seja de esquerda ou de direita no Brasil é muito mais difícil.

 

Qual sua visão sobre Uberlândia?

Minha família é de Carmo do Paranaíba. Eu nasci no interior de Goiás e estou em Uberlândia dos meus 45 anos, quase 30. Ela é o lugar que eu escolhi e o lugar que a gente escolhe é sempre a principal referência.

Uberlândia é reflexo muito do Brasil, sempre foi esse reflexo. Tanto que ela é uma cidade-padrão de testes para pesquisas. De maneira geral, Uberlândia é muito a cara do Brasil. Uma cidade pujante, mas extremamente desigual, com uma base da pirâmide muito larga e um topo muito estreito. Uma altíssima concentração de renda. Como o Brasil, Uberlândia, por uma questão cíclica, deu uma movimentada politicamente mais para centro-direita com a eleição do Odelmo Leão, muito ajudado pelo fracasso da gestão do Gilmar Machado, principalmente do ponto de vista da comunicação.

A gente está vendo a gestão do Odelmo, nesse primeiro ano, que realmente as dificuldades são grandes. Certamente teve problemas seríssimos na gestão do Gilmar, mas também teve muita dificuldade financeira, está aí o Odelmo provando a dificuldade que está sendo para tentar arrumar a casa.

Mas, Uberlândia, assim como o Brasil, tem uma capacidade muito grande de se ajustar e se adaptar. A cidade está se movimentando, você vê que a economia está melhorando, apesar da política, está se adaptando porque o ser humano e o brasileiro em especial é um sujeito extremamente flexível, ajustável, adaptável, então, assim, nós vamos sair lá na frente, acredito que melhor do que entramos nesse processo de crise política intensa.

Mas, a população de uma maneira geral tem que ficar atenta porque a tendência dos políticos é fingir de morto para manter o status quo atual e esperar passar para continuar fazendo do jeito que sempre fizeram.

 

Você ocupava um cargo estratégico no Correio de Uberlândia. Com o fechamento do jornal, como estão os seus projetos?

Trabalhei no Correio por mais de 20 anos, comecei lá como estagiário. Trabalhei também na TV Integração, mas a minha principal casa sempre foi o Correio. Tive uma carreira de muito sucesso, não é falta de modéstia porque entrei como estagiário e me tornei o principal executivo de conteúdo do jornal. Foi uma carreira de sucesso e muito feliz.

Mas, para o final, por estar muito tempo no cargo… dos 20, eu fiquei em torno de 15 como executivo. Primeiro como editor-chefe, logo depois virei executivo. Então aprendi muito, mas chegou uma hora que o desafio já não estava tão grande, mas a minha ligação com o Correio, com o Grupo Algar sempre foi muito forte, a proximidade inclusive com acionistas.

Sem contar que era de fato uma posição muito boa. Junta o lugar que você gosta de trabalhar, que é um dos dois ou três dos melhores empregos para jornalista em Uberlândia. Por mais que eu já não me sentia tão desafiado, é difícil sair. Aí o Correio saiu de mim e de todo mundo. Infelizmente, por uma decisão de negócio, o Grupo Algar decidiu descontinuar o Correio de Uberlândia. Fiquei sabendo com bastante antecedência, então tive tempo de me preparar. Inclusive preparar a equipe nesse processo.

 

A partir daí, você resolveu empreender em outro segmento?

Cheguei à conclusão que, primeiro, o Jornalismo tinha dado para mim. Já dei a minha contribuição para o Jornalismo, mas tenho uma experiência e uma carreira longeva, de mais de 20 anos, no Jornalismo. Então quero aproveitar esse momento agora, não quero voltar para uma redação. Essa era uma decisão que eu tinha.

Então, decidi empreender. Olhei e falei: acho que ainda estou novo, não muito, mas o suficiente para arriscar. E decidi empreender usando minha expertise, o meu conhecimento. Abri uma consultoria a que dei o nome de Gestão da Influência. É um termo novo, não tenho conhecimento de ninguém que se apresenta com essa terminologia.

 

O que é essa Gestão da Influência?

Primeiro, estou empreendendo em uma consultoria com a intenção de focar lideranças políticas porque isso é o que conheço mais. A vida inteira, trabalhei com isso. Então, a minha intenção é trabalhar no meio político, só que não pretendo trabalhar no meio com campanha eleitoral, porque tem muita gente fazendo e com mais experiência e mais capacitada do que eu.

Decidi trabalhar com lideranças políticas num viés que é o seguinte: como uma forma de intermediar a relação da iniciativa privada, que conheço bem por ter trabalhado mais de 20 anos, com o meio político, também porque trabalhei com isso a minha vida inteira.

Antes essa relação do meio empresarial com o meio político, essa influência mútua que é natural, inevitável e existe desde o advento da agricultura, da propriedade privada… antes, era muito simples, dinheiro, doação, Caixa 1, Caixa 2, era basicamente grana. Era o jeito que a iniciativa privada influenciava as lideranças políticas.

Com a Operação Lava Jato, esse cenário já mudou e tende a continuar e até mudar mais.

 

Se o dinheiro não vai ser mais o grande meio de influência, qual será?

Aí que pretendo entrar na minha consultoria criando meios. Na minha opinião, o meio é o conhecimento. De um lado estão as empresas que querem influenciar de um jeito diferente, não é mais pelo dinheiro, e ainda não sabem exatamente como fazer isso. Do outro, estão os políticos que já entenderam, ao menos os mais espertos, que não vai dar para continuar fazendo política do mesmo jeito que fizeram a vida inteira.

Eles vão ter que mudar, e esse novo jeito passa por uma mudança de postura, uma gestão de imagem muito forte. Então, tem essa demanda de políticos que precisam aprender a fazer diferente do que fazem e têm as empresas que querem influenciar. Eu pretendo ser o elo dessa cadeia.

 

De que forma você vai fazer a ponte entre as empresas e as lideranças políticas?

Esse novo jeito, a minha consultoria propõe que seja por meio da informação. Formações em gestão de crise, formações em gestão de imagem. Coaching para lideranças políticas e uma série de serviços que passam basicamente por gestão do conhecimento voltado para essas lideranças.

Pretendo oferecer, já estou oferecendo, lancei meu site na semana passada, que é www.czgestaodainfluencia.com.br

 

 Texto: Leonardo Leal

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