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Um olhar sobre a Terra e suas múltiplas vozes

Quando assisti, em 2016, aos três belíssimos volumes do documentário “Human”, de Yann Arthus-Bertrand, não poderia imaginar que estaria, um ano depois, frente a frente com o homem responsável pela obra que me emocionou ao ponto de me rebater às lágrimas.

Foto: G. Paiva

A sensibilidade do fotógrafo francês e suas imagens me mostraram a Terra e a diversidade de vozes do ser humano como eu jamais havia visto antes. Bertrand, que trabalha com fotografias e filmes sobre um prisma macro e abrangente do meio ambiente e seus habitantes, descobriu seu olhar aéreo pilotando balões para se sustentar durante seu doutorado no Kenya, aos 30 anos, junto aos leões da reserva Massaï Mara.

Mas foi ali, na esquina de minha casa, na Fnac Ternes eu e outras poucas e felizes pessoas tivemos a oportunidade rara de dialogar em uma conferência com o artista que descortinou o mundo no livro de fotografias “A Terra vista do céu”. Tal projeto teve início após a Conferência do Rio de 1992, que o mobilizou a retratar a beleza do planeta, mas também os impactos ambientais causados pelos seus habitantes. Essa obra, que vendeu 3 milhões de exemplares no mundo todo, e rendeu uma exposição ao ar livre em diversos países, foi apenas uma das suas muitas empreitadas em prol do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável. É nessa vertente de trabalho que Yann Arthus-Bertrand continua desempenhando, junto ao instituto que fundou, o Good Planet, a luta pela educação ambiental e contra as mudanças climáticas. Tendo sua sede situada na capital francesa, a ONG é um espaço gratuito de pleno desfrute ao ar livre, entre animais soltos e muito verde em frente ao castelo Longchamp, onde se podem vislumbrar as exposições de fotografias e os mais diversos filmes, como a obra completa de “Human”, feitos pelo artista.

Após o reconhecimento internacional com a publicação de seu trabalho em revistas e jornais como a “National Geografic”, “Géo”, “Life”, “Paris Match”, “Figaro Magazine”, Arthus-Bertrand foi aos poucos desenvolvendo um projeto cada vez mais pessoal. Sempre com a causa ambiental em primeira instância, o fotógrafo lançou alguns trabalhos com referência à relação homem/animal, como os livros “Bestiaux” e “Cheveaux”, ainda antes de “A Terra vista do céu”. Além desses projetos, outros números se somam à sua rica biografia, tais como “Paris vista do céu” e seu primeiro trabalho, “Lions”, realizado durante seu período de pesquisa em África.

Junto a esses, os filmes e as séries para TV compõem toda a experiência que fizeram o sucesso de “Home”, “Human” e que agora levam Yann Arthus-Bertrand a rodar “Woman”, uma obra inteiramente dedicada à condição feminina e a educação, cujas gravações já começaram. Previsto para lançamento em 2019, “Woman” segue a mesma linha de trabalho de seu anterior, “Human”. Emocionantes depoimentos de pessoas anônimas das mais variadas culturas, vivências e crenças com enquadramentos apenas em seus rostos se intercalam com inacreditáveis imagens aéreas acompanhadas de uma trilha sonora arrebatadora composta pelo músico francês, de origem marroquina e nascido em Jerusalém, Armand Amar.

Yann, que em 2009 foi nomeado Embaixador da Boa Vontade do Programa das Nações Unidas para o meio ambiente (PNUE), teve, em 2015, a avant première e seu mais célebre documentário exibido na Assembleia Geral da ONU na presença de Ban Ki-Moon, o seu oitavo secretário-geral, que permaneceu até 2016.

Já em 2017, na pequena conferência da livraria, em que eu estava presente, iniciou-se a exibição de alguns trechos de “Human”. Novamente, como no sofá de casa um ano antes, me vi sob o efeito da emoção, agora devendo me conter por estar em frente ao seu realizador, porém, ao contrário, tudo se intensificou. Ali, ao lado do vídeo em um telão, era o olhar daquele homem simpático, que tanto se parecia com meu tio Sérgio, ou algum outro membro de minha família. Era aquele senhor tão humano quanto os seus inúmeros entrevistados. Era eu lá, era meu marido ao meu lado, e todos os presentes naquele pequeno espaço de sublimação da condição humana. Éramos todos tão iguais! Mas fora ele quem concebera com tanta maestria aquela sinfonia harmoniosa e perfeita a partir da diversidade humana, animal e vegetal de nosso planeta. Muitas vezes segurei as lágrimas nos olhos para conseguir acompanhar os slides que o artista ia passando enquanto nos imergia em seu rico universo tão próprio e tão coletivo ao mesmo tempo.

Quando perguntei a ele como escolhia os trechos de cada depoimento que comporiam os filmes, Bertrand simplesmente explicou que o processo começava com as perguntas que fazia aos seus entrevistados: sobre o amor, a felicidade, o ódio e a violência. E os deixava falar livremente. Dez horas de gravação. Por meio deste trabalho, segundo ele próprio, o artista buscou confrontar o espectador com o outro e toda a sua diversidade, para que pudesse voltar a si mesmo com um novo olhar. E o conseguiu plenamente.

Na mesma noite da conferência, enquanto nos deleitávamos com suas histórias e imagens, sua equipe já partiria para a Turquia, e de lá seguiria aos mais de 45 países onde serão colhidos depoimentos e certamente mais belas tomadas aéreas de nosso ecossistema que comporão “Woman”, esse volume que tratará da diversidade e dos dilemas femininos. E como não poderia ser diferente, já anseio imensamente por seu lançamento.

Em seus trabalhos documentais, Yann Arthus-Bertrand tem por meta colher o maior número e os mais diferentes depoimentos possíveis. Sinto quase que ligeiramente que se trata de um desejo submerso de atingir a humanidade inteira. Como se pudesse abraçar a Terra e todas as pessoas por meio de sua lente. Talvez ele não tenha percebido, mas naquele dia, naquele fim de tarde em que nos encontramos, bem ali, na esquina de minha casa, foi ele a voz e os olhos de toda a Terra e de toda a gente a nos abraçar com tamanho encantamento e amor pelo ser humano e o planeta.

 

Texto: Juliana Schroden
Produtora Cultural e doutoranda em Estudos Literários pela UFU. Realiza estágio pelo Programa PDSE/CAPES na Université Sorbonne Nouvelle-Paris 3. É autora da obra infantil “A aventura de Abaré” (2012), publicada pela editora FTD e do livro de poemas “ImaRgens Urbanas” (2011), pela Lei de Incentivo da Divisão de Culturas da Universidade Federal de Uberlândia.

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