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Era para falar de arte

Foto: G. Paiva

Eu estava preparando um artigo sobre o Festival Carrée Latin 2017, que está em sua segunda edição neste mês de outubro no Palais Royal e que conta com trabalhos de cerca de trinta artistas latino-americanos. Eu havia também me preparado para falar sobre o projeto, que é uma concepção da arquiteta e curadora venezuelana, Leonor Parra, que fundou, em 2015, o LCP+art, em Paris, cujo trabalho é agenciar artistas da América Latina em suas exposições e vendas de obras no mercado de arte internacional.

Preparei ainda uma escrita sobre a exposição do festival, a qual visitei no domingo, e iria tratar desse intercâmbio entre América Latina e França nos jardins do Palais Royal, como em tantos outros espaços ao ar livre ou em galerias, onde as obras que fazem parte do Carrée Latin dialogam com outras de artistas franceses. E que tal intercâmbio é também uma proposta de Leonor Parra com o intuito de correlacionar o cenário latino-americano contemporâneo com o mercado de obras na França.

Foto: G. Paiva

Mas, o que aqueles jardins reais me mostraram foi muito além. Num domingo que começou frio após a chuva, no meio da tarde, as pessoas despontavam assim como o sol figurando entre as fileiras de árvores e iluminando as esculturas. Muitas pessoas. Interagindo com as obras pôde-se observar gente de todas as idades, inclusive jogando moedas nas águas de uma instalação que faz releitura das antigas fontes dos desejos. Aliás, por aqui, onde correr um fio de água é possível encontrar moedas, milhares delas, como ao fundo das fontes, ou dos lagos. Que me levam a pensar sobre tantas necessidades que criamos apenas para que sejam realizadas. As moedas nos fundos verdes ou azuis das águas se assemelham a constelações de estrelas levemente coloridas.

Em meio a esse espaço de deleite, mas também de desconforto dos sentidos, famílias inteiras, casais e crianças, senhores e seus cachorrinhos passeavam entre bancos e artes. Entre franceses e latinos, cujas esculturas e instalações expressam suas visões da vida e do ser humano para que cada um que por ali passasse se apropriasse livremente das obras e recriasse um novo olhar. Um novo paradigma.

Foto: G. Paiva

Assim como a noiva que posava para o fotógrafo entre as árvores, enquanto o noivo se equilibrava para jogar o véu para o alto, num momento de inimaginável vulnerabilidade frente à beleza daquela mulher e do cenário em que fora colocado para registrar definitivamente o matrimônio consumado. Assim como os membros de uma família inteira sentada em fileira, um no colo do outro, para fazer uma foto em frente a uma das esculturas, e que se divertiam por não conseguirem manter-se imóveis naquele único banco para todos e, ao mesmo tempo, permanecer com os braços abertos.

Ou ainda, e a melhor de todas, a garotinha que flagrei observando meu marido, que tentava captar o melhor ângulo da instalação “Web Making Ritual”, o carro-chefe da exposição, da artista cubano-equatoriana Bianca Lee Vasquez. A menininha, com dedo na boca e nariz escorrendo, o vislumbrava tão intensamente que daria outra imagem a ser registrada. O que será que ela via? Qual a percepção daquela pequena sobre tudo aquilo?

Foto: G. Paiva

Essa cena me remeteu na mesma hora a um outro momento, no Museu D’Orsay, quando me percebi bem desconfortável em frente ao quadro “A origem do mundo”, de Gustave Coubert, talvez por ver ali algo que eu muito bem conhecia, mas que jamais havia visto por aquele ângulo. Mas naquele episódio, o que me chamou a atenção foi quando me dei conta de que havia ao meu lado um garoto em seus possíveis cinco anos a olhar a mesma pintura com uma grande indiferença. E em seguida se encantar com um cavalo imenso no quadro ao lado, do mesmo autor. O menino ficou tão maravilhado que buscou logo o irmão e começou a mostrar os detalhes daquela outra obra de que eu nem me dera conta antes.

É impressionante o que o olhar humano consegue selecionar frente ao que observa. Assim é a arte. O artista prepara sua obra, mas ela não pertence mais ao seu criador. Não é a obra em si que diz algo aos outros. São os outros que dizem da obra aquilo que nela enxergam. Eis, talvez, a função primordial e principalmente contemporânea da arte: ela trata do ser humano. Ela fala das pessoas por meio das pessoas. Somos nós que nos vemos, seja na escultura que me encanta ou me incomoda, seja na garotinha com o nariz escorrendo, ou na noiva. Ainda talvez, na cadeira com poesias no jardim, onde se pode sentar e plugar os fones de ouvido para escutar declamações de Victor Hugo, Rimbaud ou Apolinaire, como na instalação “Les confidents”, do escultor quebequense Michel Goulet em parceria com François Massut. Mas, principalmente, encontramos a natureza artística nas pessoas se empoderando dos espaços de lazer para vivenciarem somente isto: prazer!

Era para falar de arte que eu ia escrever este artigo, mas se ela própria fala muito do ser humano e de suas relações, e se eu posso perceber nas praças ou nos demais espaços urbanos que contêm essas expressões, desde esculturas, músicas ou grafites, as interações entre a diversidade e a felicidade das pessoas longe dos aparelhos portáteis (a não ser para registrar aquele momento), acho então que falo de gente. Talvez seja este o tema central deste artigo.

Pode ser. Mas também poderia ser sobre o que o leitor esteja vendo nestas linhas. E provavelmente este texto já não me pertença mais. É, pode ser isso mesmo. E, nessa interação de diálogos que fazemos o tempo todo, a arte seja talvez a melhor interlocução dos momentos de prazer e reflexão em que as pessoas se relacionam e debatem ideias, sem preocupações maiores. Como se o tempo, nesses espaços, existisse somente para os encontros, para novas percepções, para as trocas e para o deleite.

Texto: Juliana Schroden
Produtora Cultural e doutoranda em Estudos Literários pela UFU. Realiza estágio pelo Programa PDSE/CAPES na Université Sorbonne Nouvelle-Paris 3. É autora da obra infantil “A aventura de Abaré” (2012), publicada pela editora FTD e do livro de poemas “ImaRgens Urbanas” (2011), pela Lei de Incentivo da Divisão de Culturas da Universidade Federal de Uberlândia.

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