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Era uma vez a melhor banda de rock humor que ninguém ouviu

Letras sarcásticas, criativas e o ecletismo musical não foram suficientes para despontar o Joelho de Porco

Anderson Tissa, autor da coluna “Vida Longa, Baby”.
Imagem: Douglas Luzz

Arnaldo Baptista, com toda sua perspicácia de enxergar sempre à frente, percebeu o pioneirismo e a irreverência desta banda quando a apadrinhou no início dos 70. O ex-Mutante produziu “Se Você Vai de Xaxado, Eu Vou de Rock And Roll/Fly America”, um compacto de um importante grupo do rock nacional, mas que ninguém ouviu. Estou falando do Joelho de Porco.

Sem esses caras, talvez, não existiriam outros nomes do rock humor brasileiro como, por exemplo, Premê, Mulheres Negras, Língua de Trapo, Ultraje a Rigor e Mamonas Assassinas. Esta última dispenso da minha playlist. Sim, não gosto de Mamonas e sei que você ama, idolatra, tem pôster no quarto. Já eu faço parte de um grupo ultra seleto de brasileiros que detestam Mamonas, composto por duas pessoas, uma delas sou eu, claro, e a outra, o meu Tio Omar.

O Joelho foi enquadrado no gênero punk-rock-humor. A sonoridade da banda não tem nada a ver com o punk na essência. Entretanto, as atitudes dos integrantes que aprontavam à beça, o estilo de se vestir, ternos amassados e desbotados e maquiagem, pode-se dizer que eles tinham o espírito punk. Reza a lenda que o guitarrista Tico Terpins falsificou uma intimação e a enviou ao Caçulinha dizendo que a Antártica teria o processado por conta do nome da bebida Caçulinha. E não é que o famoso tecladista apareceu no fórum com a mãe para explicar que era Caçulinha desde pequeno.

Agora bem-humorados eles eram demais. “Mardito Fiapo de Manga”, “São Paulo By Day”, “O Rapé”, “México Lindo”, “Mandrake” e minha preferida “Boeing 7238897” são faixas poéticas e ao mesmo tempo zombeteiras. Os caras misturam marchinhas de Carnaval, música latina e até ópera em suas canções. Com uma pegada do rock dos anos 50, letras divertidas e com críticas sociais, e um vocalista completamente descontraído, o som do Joelho empolga. Te faz procurar as letras na internet para acompanhar enquanto as músicas rolam. Você vai decorar cada uma delas.

Apesar de toda criatividade, influência e até mesmo o período oportuno (ressaca da MPB) o sucesso não chegou. Por quê? Como ninguém conhece? As respostas para estas perguntas e muito mais sobre essa banda paulistana estão no documentário “Meu Tio e o Joelho de Porco”, dirigido pelo sobrinho do guitarrista Tico, Rafael Terpins. O longa é destaque na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Vou convidar o meu Tio Omar para assistir. Quem sabe a gente não monta um grupo dos brasileiros que ouviram Joelho de Porco?

Está a fim de ouvir? Selecionei 12 músicas do Joelho nesta playlist. É clicar e curtir.

Texto: Anderson Tissa

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