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As flores, os jardins e a essência do Belo

Foto: G. Paiva

Caminhando… Foi assim, num passeio de pouco mais de quatro quilômetros pelo Promenade plantée, atualmente conhecido por coulée verte René-Dumont, que pudemos desfrutar de uma tarde inteira em meio à natureza. Um exílio em plena zona urbana. Uma centenária linha de trem desativada há anos foi artisticamente reintegrada à cidade como um lindo jardim suspenso cuidadosamente plantado nos primeiros mil metros, para em seguida continuar o percurso em outras paisagens, também elaboradas para a revitalização de toda uma região intensa em arte, arquitetura, cores e muitas flores.

Iniciando nossa caminhada entre a Praça da Bastilha e a Gare de Lyon, imergimos no Promenade plantée não sem antes nos deleitarmos com as inúmeras lojas e cafés que encontramos nos arcos do chamado Viaduc des Arts. Esse local é uma região repleta de ateliês de pintura e artesanato, onde podemos assistir aos artistas realizando suas obras pelas vitrines desses espaços embaixo da antiga linha ferroviária, onde agora é um belo caminho de descanso, liberdade, encontros e descobertas.

Mas é sobre o Viaduc des Arts que o trajeto do Promenade plantée tem continuidade por mais ou menos três quilômetros que se estendem até o Bois de Vincennes, já na saída da cidade metropolitana. Um espaço centenário que foi preservado a partir de uma revitalização não somente da ferrovia, mas de todo o seu entorno, o que promoveu justamente o interesse das pessoas em frequentarem aquela região que hoje apresenta uma grande efervescência cultural.

É interessante observar que durante o percurso, que corta avenidas e prédios, a paisagem vai se modificando, dada a diversidade de flores e vegetação que vão surgindo em uma profusão de cores e formas sedutoras que delineiam nossos olhares, em uma harmonia dos sentidos. Assim como deveriam ser todos espaços públicos destinados ao lazer das pessoas. Assim como somos nós, seres humanos. Todos iguais, da mesma espécie, porém, nos completamos por meio de nossa diversidade de cores, pensamentos, orientações, culturas e crenças que podem muito bem coexistir e ser propulsoras de novas ideias e novas criações.

Foto: G. Paiva

Da mesma forma com que criamos nossas variantes culturais e artísticas, também percebemos naquele trajeto que a variedade e a busca pela preservação das características próprias de cada planta no Promenade plantée são quesitos primordiais. O cuidado com que o paisagista Jacques Vergely e o arquiteto Philippe Mathieux o projetaram e construíram-no, a partir de 1988, revitalizaram a passagem a fim manter a diversidade como forma de harmonização do espaço. Essa preservação das características peculiares de cada espécie de planta.

Naquela antiga linha de trem, a cada novo espaço onde a passagem se integra pode-se deslumbrar uma nova visão. Túneis com cascatas nas paredes de pedras, caramanchões e trepadeiras, flores exuberantes contrastando com outras tão delicadas e tímidas dão a composição que tanto agrada aos olhos e os perfumes diferentes que aguçam nossos sentidos.

Foto: G. Paiva

Todo jardim é bonito, mas um jardim que tem flores traz em si a essência do Belo. Como a arte, como a vida. E se torna ainda mais encantador quando há variedades de espécies. Quando as pessoas caminham por espaços que apresentam diversidades, elas conseguem perceber quanto é muito mais agradável do que passar por entre lugares onde a paisagem nunca muda. Um jardim que não tem flores, ou que não tem diversidade de cores, não me encanta. Logo cansa… Cansa a vista e cansa a mente. Não se passa por um jardim e se diz “não gosto dessa flor”. Ao contrário, os olhos costumam se ater àquelas que mais nos agradam os sentidos, mas elas somente nos chamam mais atenção por estar presentes em meio a outras tantas que singularmente compõem o ambiente. E todas acabam sendo muito bonitas aos olhares mais atentos. E as flores e todas as suas cores devem estar presentes nas escolas, nas ruas, nos campos, nas casas. Assim como as pessoas em sua pluralidade. Assim como tempo, assim como as transformações que percebemos em pelo menos quatro estações a cada ano.

Foto: G. Paiva

A paisagem muda, os sentidos, os cheiros, os sons. Tal qual os homens. Todos iguais, do mesmo lado ou não. Todos sentindo os efeitos do tempo, do amadurecimento, das experiências vividas que diferenciam cada um e ao mesmo tempo nos conciliam. E foi nessa diversidade de paisagens que nós fomos imergindo, eu e os demais caminhantes, no silêncio do encontro com os sons dos pássaros, das quedas d’água e dos sorrisos.

A arte é intensamente presente naquela arquitetura viva e restaurativa onde se podem encontrar pessoas lendo nas mesas, fotografando a paisagem ou os pequenos detalhes. Ora no alto do viaduto, ou da passarela sobre o jardim de Reuilly, ora na via do allée Vivaldi, ao nível da rua percebe-se a revitalização daquele local que antes estivera por anos abandonado. Seguimos então até o final daquela linha e finalmente conseguimos nos sentir pertencentes ao mundo pleno e natural com o frescor das árvores distantes da cidade. Um exílio dos portáteis, das redes sociais, dos murmúrios dos cansaços. Um mergulho em tudo o que aquelas flores nos tinham a dizer, perfumadas ou não, naquela tarde que se findou noite. E tudo isso nos trouxe de volta renovados ao ambiente urbano. Com novos olhares e sentidos mais tranquilos e aguçados para enfrentarmos o dia a dia e o início de mais uma semana.

Foto: G. Paiva

O trajeto da Promenade plantée termina com a vista para um outro trecho da malha ferroviária, e talvez ainda possamos imaginar os trens que por lá deviam continuar a seguir seu trajeto. Já fora da cidade, os desvios e as bifurcações dos trilhos os quais percorremos em meio à natureza foram nos remetendo mais ainda aos antigos passeios de trem daquela região. E também é possível imaginar os passageiros que faziam seu percurso por variadas paisagens que iam mudando com o tempo, com o clima, com as pessoas que compartilhavam os antigos vagões de onde a vista, às vezes exuberante, às vezes intimista, poderia ser contemplada íntima e plenamente.

 

Texto: Juliana Schroden
Produtora Cultural e doutoranda em Estudos Literários pela UFU. Realiza estágio pelo Programa PDSE/CAPES na Université Sorbonne Nouvelle-Paris 3. É autora da obra infantil “A aventura de Abaré” (2012), publicada pela editora FTD e do livro de poemas “ImaRgens Urbanas” (2011), pela Lei de Incentivo da Divisão de Culturas da Universidade Federal de Uberlândia.

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