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O amor humilde

A felicidade dos abraços me comoveu.

Foto: Pixabay

Eu estava na Estação Ferroviária de Coimbra em Portugal. Era o primeiro fim de semana após o início do ano letivo e, sexta-feira às 17h00, era quase impossível conseguir embarcar em um trem. A estação estava lotada de jovens estudantes que, após a primeira semana de aula na prestigiosa e multicentenária universidade, voltavam para casa. Retornavam para as pequenas cidades e os vilarejos que se distribuem por toda a zona central de Portugal. Consegui um bilhete após duas horas e duas composições de espera. Embarquei no meio dos jovens meninos e meninas e pus-me em direção ao norte do pequeno e gracioso país que nos foi pátria-mãe.

O trem corria rápido. Belas paisagens rurais emolduradas pelo crepúsculo iluminavam meus olhos. Mas a composição não demorou muito para fazer a primeira parada. Não me lembro mais o nome do lugar, mas era uma típica estação ferroviária do interior de Portugal. Alguns jovens estudantes desembarcaram. Seus pais, vestidos de forma simples, os esperavam na plataforma. Eram famílias humildes, provavelmente de agricultores, que conseguiam, pela primeira vez, pôr um filho na universidade. A felicidade dos abraços me comoveu. Era possível ver o orgulho no rosto dos pais.

A cena se repetiu mais algumas vezes nas estações que se seguiram. Entretanto, foi só quando já tinha anoitecido que eu realmente entendi o que estava vendo: na plataforma, bem embaixo da janela em que eu estava, sob um dos raros postes que iluminavam mais uma pobre e pequena estação, havia um pai e uma mãe esperando pelo rebento que criara asas e se tornara estudante universitário. Eram pessoas simples. De onde eu estava deu para ver que tinham as mãos maltratadas. Provavelmente tinham sido modeladas pela dura disciplina do impacto de uma enxada contra um solo pedregoso.  Enfim, representavam muito bem as gerações anteriores à de 1986 (ano em que Portugal entrou na União Europeia e enriqueceu). Haviam sido criados em um universo bem diferente do atual. Em uma realidade dura na qual a melhor maneira de poupar um filho fisicamente mais frágil da rudeza do campo, era o encaminhar para a vida religiosa como padre ou freira.

Foi então que uma jovem menina desceu do meu vagão e foi em direção a eles. Ao vê-los, pousou uma pequenina mala no chão e se jogou nos braços da mãe.  Observei a cena. Era uma réplica daquelas outras que acabara de ver nas estações anteriores. Mas então percebi um detalhe: enquanto a filha abraçava a mãe, o pai, de aparência rude e sofrida, disfarçadamente, enxugou uma lágrima dos olhos. Não tive dúvidas: eu estava vendo o mais puro amor! Um amor humilde: contido, tímido, silencioso, mas forte e profundo. Estava observando em sua maior pureza aquela que é a força que move o universo e que justifica a vida, seus sofrimentos e desencontros. Lembrei-me imediatamente de todos os pais que tinha visto nas estações anteriores. Em nenhum daqueles rostos eu havia observado apenas felicidade e orgulho pelos filhos estarem na Universidade de Coimbra. Tinha visto muito mais: havia olhado para as faces do amor! Gente pobre, rústica, sofrida, que não teve oportunidades, mas que tinha muito amor.

Lembro-me de um tio meu que uma vez me disse que a pobreza humilde era uma das coisas mais lindas do mundo. Concordo com ele, mas vou mais além: o amor humilde é ainda mais sublime! Sublime e raro, pois no mundo atual das redes sociais, das expectativas enormes para o futuro, do materialismo, da supremacia da imagem e das ideologias de revolta, a humildade tornou-se uma qualidade esquecida. A primeira das bem-aventuranças ficou completamente fora de moda!

Segui naquele trem emocionado e pensativo: será que aqueles jovens entendiam o amor que recebiam e a responsabilidade que carregavam? Serão eles dignos o suficiente para passar adiante esse amor?

Conhecendo Portugal, acho que, em sua maioria, sim! Os cursos escolares e superiores de lá não são ideologizados como no Brasil. As classes mais cultas não consideram o materialismo como o mais sábio e alto princípio filosófico de vida. Crianças são frustradas e, com isso, ganham paciência e adquirem força de caráter. Pais não julgam os próprios filhos como seres maravilhosos que estão acima do bem e do mal e nem os consideram mais respeitáveis que suas professoras do ensino básico e secundário. Muito menos sensualizam seus rebentos, achando graça ou incentivando-os a imitarem a cantora da moda que, por não saber cantar, só rebola. Além disso, em Portugal os pais não consideram sexo assunto para crianças e isso faz com que elas amadureçam de forma equilibrada, com limites, senso de hierarquia e respeito. Na universidade esse amadurecimento equilibrado se reflete em um ambiente onde os alunos se comportam e agem impecavelmente dentro de sala de aula. Os jovens reverenciam e admiram os mestres, pois são ensinados, em casa, a respeitar os mais velhos e superiores. Todos vivem suas aventuras, mas não se perdem nelas. Honram com essa postura o passado e os antepassados.

Hoje, olhando para trás, confesso que não consigo deixar de invejar Portugal. Lá, felizmente, ainda é fácil ver o amor na sua forma mais bela: a humilde!

 

Texto: Pedro Hanks

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