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Voto de cabresto

Naquele tempo, Uberabinha tinha 200 caras em condições de serem jurados e só 80 eleitores. Por quê? Porque só podiam votar os que tivessem uma renda anual superior a tanto. O destino do País era determinado pelos homens ricos. A maioria, analfabeta.

Foto: Divulgação

As coisas mudaram, mas não muito.

Os fazendeiros, na velha Uberabinha, quase todos “coiós”, traziam os eleitores da roça para os quartéis, também chamados de currais. Ali a peonada ficava bebendo guaraná e comendo sanduíche de mortadela, com uma fatia só. Era almoço e jantar. Votavam e iam embora. Os coronéis não perdiam tempo. Davam um jeito de corromper os cozinheiros do outro partido e mandavam pôr sal amargo na comida. Tinha cara que não conseguia sair do curral para dar seu voto.

Aqui na velha Uberabinha tinha um coronelão brabo, que ficava na porta da seção eleitoral, chapelão na mão, atento pra quem ia entrando. E rosnava grosso: “É pá votá no governo!”.

Não pedia, não, mandava!

No tempo do bico-de-pena, o cabra não tinha jeito de se safar porque todo mundo via em quem ele estava votando; ai se votasse contra o coronel protetor.

A fraude rolava. O mineirim safado se chegava todo tímido, chapéu na ponta dos dedos, e dizia pro mesário:

– Ói, dotô, o cumpade Mané Rudrigue tá perrengue. Num alevanta nem pra mijá. Me pediu esse ajutório: que votasse prele. Óia aqui o tito del. Onqueu voto prel?

O compadre Manoel Rodrigues já tinha morrido há cinco meses ou mais.

O dr. João Pinheiro Braga, dentista com consultório na esquina da Rua Duque de Caxias com a Avenida João Pinheiro, falecido com quase cem anos de idade, foi moleque das ruas do distrito da Martinésia. Contou-me que ele votava no governo nessa época. Os coronéis arrebanhavam os meninos do grupo escolar e levavam para votar pelos defuntos da Martinésia.

Até aí, a fraude comia solta, porém, o voto não era comprado, era imposto pela autoridade do coronel. Depois do Getúlio Vargas, que deu uma moralizadazinha nas eleições, começou a compra do voto. Eram mil tijolos, um par de botinas, um saco de arroz, essas coisas.

E o papo, né? Antes das eleições, a pobreza era privilegiada com os abraços e apertos de mão dos grandes, candidatos ou não. Depois, tchau, mesmo.

Vai mudar, se Deus quiser.

 

Texto: Antonio Pereira
Fontes: Olívia Calábria, João Pinheiro Braga

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